7 de maio de 2015

A Cidade Murada - Ryan Graudin

Lido em: Maio de 2015
Título: A Cidade Murada
Autora: Ryan Graudin
Editora: Seguinte
Gênero: YA/Ficção
Ano: 2015
Páginas: 400
Nota
Sinopse: Existem três regras para sobreviver na Cidade Murada. Corra muito. Não confie em ninguém. Ande sempre com uma faca.
Hak Nam é uma cidade murada de ruas estreitas e sujas, onde vivem traficantes, assassinos, prostitutas e ladrões. É também onde mora Dai, um garoto cujo passado o assombra e o mantém preso naquele lugar horrível. Para alcançar a liberdade, ele terá de se envolver com a principal gangue ali dentro e formar uma dupla com alguém que consiga entregar drogas muito, muito rápido. Alguém como Jin, uma garota ágil e esperta que finge ser um menino para conseguir sobreviver e continuar a busca por sua irmã, Mei Yee. Confinada num bordel, Mei Yee está mais perto do que Jin imagina. Ela passa os dias sonhando em fugir… até que Dai cruza seu caminho.
Inspirado na cidade murada de Kowloon, que existiu em Hong Kong até os anos 1990, este romance lírico e ao mesmo tempo cheio de adrenalina a luta desses três jovens, que, unidos pelo destino, tentam escapar da Cidade Murada para recomeçar a vida bem longe dali.
Resenha: A Cidade Murada, escrito pela autora Ryan Graudin e publicado pela Seguinte conta o que se passa na fictícia cidade de Hak Nam, em Seng Ngnoi, uma "favela de pedra" sem governo onde as leis são impostas pelos mais fortes e pela Irmandade do Dragão Vermelho.
Antes de tudo, não acho que o livro se encaixe como sendo uma distopia pois apesar de existir uma lei própria dentro da Cidade Murada, ditada por bandidos e gangues, se trata de uma ficção baseada em alguns fatos. A Cidade Murada realmente existiu, o nome original do local era Kowloon, em Hong Kong, e era considerada a maior e mais densa favela vertical do mundo, onde nem entrava a luz do sol, com vários barracões minúsculos construídos um em cima do outro, de forma desenfreada e sem nenhuma supervisão de engenheiros ou arquitetos, formando ruas estreitas, becos e um emaranhado de fios que transpassavam o local que era completamente dominado por quadrilhas. O espaço total era de menos de 0,3km² que abrigava um amontoado de mais de 30 mil famílias. Todas vivendo na pobreza e lidando com todos os tipos de problemas, como falta de saneamento, educação e saúde, fazendo com que as pessoas de lá fizessem de tudo para sobreviverem em vez de apenas viverem tranquilas. A cidade abrigava meninos de rua, prostitutas, fugitivos e bandidos capazes de cometer as piores atrocidades, inclusive o tráfico de pessoas e exploração sexual de crianças, que muitas vezes eram vendidas por membros de suas próprias famílias.
Esse foi o cenário que a autora escolheu para contar a história de Jin Ling, Mei Yee e Dai.





A narrativa é feita com um certo toque poético, em primeira pessoa se alternando entre os protagonistas e em forma de contagem regressiva de 18 dias, e fica no ar o que vai acontecer quando o prazo terminar.
Jin Ling é uma garota ágil e esperta que finge ser um menino de rua para conseguir sobreviver enquanto procura pela irmã, sempre munida de uma faca, se esgueira e se camufla ao cenário. Se os bandidos souberem que é ela é uma menina, corre o risco de ser trancafiada num bordel, e foi exatamente isto que aconteceu com Mei Yee, sua irmã.. Confinada num bordel sujo, Mei Yee tem esperança de fugir e se ver livre. Ela lida com a ieia de que seu corpo pode ser usado, mas sua mente sempre estará livre pra sonhar e pensar o que quiser. Ela passa os dias sonhando em fugir…
Dai é misterioso, se infiltrou na vida do crime e tem muitos segredos que envolvem seu passado. Ele precisa realizar um serviço para traficantes de drogas antes de se libertar mas precisa de alguém que seja muito rápido para lhe ajudar, é aí que ele cruza com Jin, que é a pessoa perfeita pra fazer esse tipo de trabalho.
Jin, seguindo a segunda regra da cidade, nunca confia em ninguém.
O destino dos três é entrelaçado de forma incrível, pois as duas irmãs não sabem que Dai está entre elas, e a autora mostra que, por mais que o ambiente seja desfavorável, com amor e amizade é possível que obstáculos sejam superados e ultrapassados.
O interessante é que a Cidade com todas essas características surreais parece ser um personagem da história, como se fosse algo com vida própria que engolisse os habitantes os obrigando a se adaptarem ou morrerem tentando, e sua apresentação na história vem com muita naturalidade para que o leitor, mesmo ficando abismado com o que acontece lá dentro, se familiarize com facilidade.
Senti que houve um floreio de descrições, como se a autora usasse de analogias para exemplificar ou intensificar alguma coisa e esse tipo de característica na escrita não me agrada muito. Acho que quanto mais direto ao ponto for, melhor, pois a leitura flui com mais facilidade.

O que move os personagens é a esperança, a ideia de que por mais que o corpo esteja preso, a mente pode ser livre, e ter esperança é algo que jamais poderá ser controlado ou contido.
A autora explora esse anseio pela liberdade, os relacionamentos fraternais e de amizade ao mesmo tempo que aborda os piores temas que envolvem cartéis, escravidão sexual, tráfico de drogas e etc, temas estes que violam direitos humanos e se estendem para além dos muros da cidade e para além da ficção.
A Cidade Murada retrata, através da ficção, um tipo de realidade triste mas assombrosamente incrível. É algo como o Holocausto: todos sabem de seus horrores, mas é um tema que nunca deixa de ser interessante e fascinante.

Sobre o trabalho gráfico do livro, só posso falar sobre a capa, pois tive acesso a prova antecipada e acredito que os erros de revisão devem ter sido corrigidos em sua versão final. A capa mostra um tipo de "raio-x" das casas e dos moradores e seus cotidianos em meio ao amontoado e ao aperto que é viver naqueles cubículos. Ao olhar dos mais atentos, é uma obra de arte que consegue retratar muito bem parte do estilo de vida das pessoas que se espremem alí.
Ainda sobre Kowloon, houve um projeto de desocupação que levou 5 anos para que, enfim, a Cidade Murada pudesse ser demolida, mas é uma pena que o tráfico de pessoas inocentes não tenha acabado alí.



Pra quem gosta de ler sobre realidade que se mescla a ficção e tem curiosidade sobre os horrores desse submundo como pano de fundo de uma história de esperança, amizade e amor, leia!

Um comentário

  1. Oi Flávia, tudo bom??
    Nossa, eu ainda n tinha ouvido falar desse livro, mas fiquei curiosa!!!
    Suas resenhas estão ótimas!!!
    Beijos.
    http://www.garotadolivro.com/

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