27 de junho de 2016

Um Chapéu Cheio de Céu - Terry Pratchett

Título: Um Chapéu Cheio de Céu - Tiffany Dolorida #2
Autor: Terry Pratchett
Editora: Bertrand Brasil
Gênero: Fantasia/Infantojuvenil
Ano: 2016
Páginas: 336
Nota:
Onde Comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: Tiffany Dolorida, alguns anos após suas aventuras no tenebroso Reino das Fadas, deverá colocar seus talentos em bruxaria novamente à prova ao embarcar em mais uma aventura: deixar sua casa e suas terras para trás e se tornar aprendiz de uma bruxa de verdade. Mas o que ela não sabe é que uma criatura incorpórea e sagaz está lhe perseguindo, um ser ancião e incompreensível do qual nem mesmo a Madame Cera do Tempo (a maior bruxa do mundo) poderá protegê-la. Dessa vez, serão úteis as habilidades de roubos, briga e bebedeira dos Nac Mac Feegle, os Pequenos Homens Livres, ou deverá Tiffany depender única e tão somente de si?

Resenha: Um Chapéu Cheio de Céu é o segundo volume da série Tiffany Dolorida, escrita pelo autor Terry Pratchett e publicado no Brasil pela Bertrand.
Tiffany Dolorida é uma bruxinha de apenas onze anos, mas ser criança não impediu que ela enfrentasse a Rainha das Fadas de tomar o Giz. Com a ajuda dos Nac Mac Feegles e seguindo os passos de sua avó, Madame Cera do Tempo, ela conseguiu provar que o talento mais importante que uma bruxa deve ter é a inteligência, o bom senso e, claro, os olhos bem abertos. Por isso, depois de ter vivido uma grande aventura quando tinha apenas nove anos, Tiffany agora irá usar esse talento para se tornar uma aprendiz de bruxa, mas pra isso teria que deixar sua casa, o Giz. Então ela parte pra uma terra distante e sólida e a Srta. Plana fica responsável por ensinar tudo o que ela precisa saber. Mas, Tiffany tem grande potencial e isso acabou colocando a garotinha em perigo. Uma criatura sem corpo com a capacidade de consumir almas e tomar mentes começou a perseguí-la.

O bom humor da narrativa continua presente, assim como as críticas e as sátiras sobre a sociedade e o comportamento humano num geral, e neste volume está ainda melhor. Os Nac Mac Feegles continuam brigões e bebendo como se não houvesse amanhã, e mesmo que Tiffany seja a protagonista eles ganham muito destaque tornam a aventura muito mais dinâmica e engraçada. Eles são extremanente leais a Tiffany e respeitam a linhagem de bruxas de onde ela veio. A protegem com unhas e dentes mesmo que tenham apenas 15cm!
Neste volume senti uma fluidez maior na escrita e a trama se tornou ainda mais envolvente, cheia de reviravoltas e maiores aprofundamentos sobre as personagens. Os elementos parecem ter sido melhores utilizados e isso ajudou no desenvolvimento da trama. Se Tiffany já demonstrou grande sabedoria no livro anterior, nesse ela conquista por estar mais madura e com a percepção muito mais aguçada.
"Os Nac Mac Feggle do Giz odiavam a escrita por vários motivos diferentes, mas o maior deles era esse: a escrita permanece. Fixa as palavras. Se um homem disser o que pensa, algum pequeno biltre desagradável pode anotar tudo e sabe-se lá o que vai fazer com as palavras! É como pregar a sombra de um homem na parede!"
- Pág. 32
Embora divertido e muito engraçado, o livro tem uma lição de moral muito boa e traz reflexões bem filosóficas acerca dos nossos valores mais dignos e importantes, fala sobre lidar com nossos maiores medos e enfrentar o que desconhecemos e, até mesmo, sobre não julgar os outros pela aparência, e assim como no primeiro livro, a mensagem é passada de forma natural, sem impor opiniões forçadas e sem subestimar a inteligência dos leitores, principalmente as crianças. O autor mais uma vez criou uma história divertida com personagens peculiares que vão conquistar leitores de todas as idades.
Pra quem procura por uma aventura empolgante, inspiradora, cheia de diálogos inteligentes e que se passa num mundo fantástico e construído de forma grandiosa, vai aproveitar imensamente a leitura!

26 de junho de 2016

Os Pequenos Homens Livres - Terry Pratchett

Título: Os Pequenos Homens Livres - Tiffany Dolorida #1
Autor: Terry Pratchett
Editora: Bertrand Brasil
Gênero: Fantasia/Infantojuvenil
Ano: 2016
Páginas: 304
Nota:
Onde Comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: Um perigo oculto, saído de pesadelos, vem trazendo uma ameaça diretamente do outro lado da realidade. Armada com tão somente uma frigideira e seu bom senso, a pequena futura bruxa Tiffany Dolorida deve defender seu lar contra fadas brutais, cavaleiros sem cabeça, cães sobrenaturais e a própria Rainha das Fadas, monarca absoluta de um mundo em que realidade e pesadelo se entrelaçam. Felizmente, ela contará com uma ajuda inesperada: os Nac Mac Feegle da região, também conhecidos como os Pequenos Homens Livres, um clã de homenzinhos azuis ferozes, ladrões de ovelhas, portadores de espadas e donos de uma altura de mais ou menos quinze centímetros. Conseguirão eles salvar as terras quentes e verdejantes de Tiffany?

Resenha: Os Pequenos Homens Livres é o primeiro volume de Tiffany Dolorida, "subsérie" (ou seria um spin-off?) composta por cinco livros do universo Discworld (com 40 volumes ao todo) do escritor inglês Terry Pratchett e publicada no Brasil pela Bertrand. Os livros são independentes e mesmo que este seja o 30º na posição da série geral, os volumes anteriores não precisam ser lidos para entendermos o que se passa.

Miss Perspicácia Tick começa a sentir algo no ar... seus cotovelos não mentem e segundo seu cotovelo esquerdo, havia uma bruxa a quem ela precisava encontrar... Mas ao saber que o sinal que recebeu vinha do Giz, ela fica extremamente desgostosa, afinal, o Giz é frágil e macio demais, as bruxas precisam se formar num lugar sólido e resistente como uma rocha e o Giz não é um lugar adequado.
Tiffany Dolorida ainda não sabe, mas ela é uma bruxa! Ela é uma garotinha de nove anos nascida no Giz, uma terra onde cria-se ovelhas e vive-se de queijo, e anda meio impaciente desde que seu irmão nasceu e ganhou toda a atenção que antes era só dela. Mesmo "não gostando" muito do irmão, quando a Rainha das fadas o sequestra, Tiffany não vê outra forma de resolver o problema a não ser pegando sua frigideira e se unindo aos Nac Mac Feegles e a Miss Tick para partir numa viagem a fim de resgatá-lo.

A narrativa é feita em terceira pessoa e é recheada de frases inteligentes, cheia de momentos de reflexão que são apresentados com bastante sutileza em meio a situações inusitadas e inúmeras metáforas e analogias cômicas onde os valores morais são encaixados nas entrelinhas de forma genial e muito divertida. A escrita é fluída e as palavras parecem ter sido cuidadosamente escolhidas para que o entendimento seja fácil independente do público sem que tenha aquele teor didático.
Depois de fazer algumas pesquisas sobre a série soube que Vovó Cera do Tempo faz só uma "participação especial" neste volume, mas que ela já foi apresentada e bem explorada em livros anteriores do universo Discworld... Nem preciso dizer que fiquei super curiosa para ler os outros, principalmente porque este é um dos mais infantis.
Pratchett satiriza os universos criados por outros escritores, como Tolkien e Lewis, sem inferiorizar suas obras, mas a sátira maior fica sobre os maus hábitos e a hipocrisia da sociedade em geral. O autor também desconstrói e inverte diversos clichês e estereótipos da literatura de forma surpreendente e muito original, como por exemplo, a própria Tiffany. Ela é uma garotinha intuitiva, astuta e muito inteligente, que lê de dicionários a contos de fadas mas não quer ser princesa quando crescer, quer ser bruxa! Ela não concorda com o conceito de que bruxas são más, afinal, onde estão as evidências? E ela treina pra isso e tem ajuda das pessoas e das criaturas certas.
Os Nac Mac Feegles, ou os pequenos homens livres, são criaturinhas de 15cm de altura, muito fortes e valentes que vivem pra roubar, beber e brigar, e, se possível, beber e brigar ao mesmo tempo. Eles não tem medo de nada - mas não são muito fãs de advogados, tanto que suas espadas ficam azuis quando um deles se aproxima como forma de alerta - e são impagáveis, de tão engraçados.

A história em si é intrigante, muito rica em detalhes e bastante hilária, mesmo que apresente alguns elementos sombrios e até tristes. Nem tudo são flores e vemos que, embora sempre haja esperança, a morte faz parte do ciclo da vida e confrontar a verdade e a realidade dura também.
Um dos pontos mais positivos é que por mais que o livro seja voltado para a fantasia e fale de bruxas e a força que possuem, a história não foca em magia ou feitiços, mas sim evidencia de alguma forma o empoderamento feminino sem imposições, mostrando que as mulheres são inteligentes, independentes e boas no que escolheram fazer sem necessidade do uso de artifícios mágicos para chegarem lá.
A construção de mundo também é super criativa e bem feita e podemos acompanhar sonhos e pesadelos se interligando com a realidade ao mesmo tempo em que a narrativa se adapta com facilidade às mudanças de cenário.

Em suma, Os Pequenos Homens Livres é uma leitura obrigatória para fãs de fantasia e aventura

25 de junho de 2016

Anna Vestida de Sangue - Kendare Blake

Título: Anna Vestida de Sangue - Anna #1
Autora: Kendare Blake
Editora: Verus
Gênero: Fantasia/Sobrenatural/YA
Ano: 2016
Páginas: 252
Nota:
Onde Comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: Cas Lowood herdou uma vocação incomum: ele caça e mata os mortos. Seu pai fazia o mesmo antes dele, até ser barbaramente assassinado por um dos fantasmas que perseguia. Agora, armado com o misterioso punhal de seu pai, Cas viaja pelo país com sua mãe bruxa e seu gato farejador de espíritos. Juntos eles vão atrás de lendas e folclores locais, tentando rastrear os sanguinários fantasmas e afastar distrações, como amigos e o futuro.
Quando eles chegam a uma nova cidade em busca do fantasma que os habitantes locais chamam de Anna Vestida de Sangue, Cas espera o de sempre: perseguir, caçar, matar. Mas o que ele encontra é uma garota envolta em maldições e fúria, um espírito fascinante, como ele nunca viu. Ela ainda usa o vestido com que estava no dia em que foi brutalmente assassinada, em 1958: branco, manchado de vermelho e pingando sangue. Desde então, Anna matou todas as pessoas que ousaram entrar na casa vitoriana que ela habita. Mas, por alguma razão, ela poupou a vida de Cas.
Agora ele precisa desvendar diversos mistérios, entre eles: Por que Anna é tão diferente de todos os outros fantasmas que Cas já perseguiu? E o que o faz arriscar a própria vida para tentar falar com ela novamente?

Resenha: Anna Vestida de Sangue é o primeiro volume de Anna, escrita pela autora coreana Kendare Blake e publicado no Brasil pela Verus.

Cas Lowood tem uma vida um tanto incomum. Ele é um garoto de dezessete anos que, munido de um athame (um punhal poderoso que pertencia ao pai), viaja com sua mãe bruxa e com Tybalt, seu gato que vê espíritos, pelo país a procura de lendas e fantasmas que atormentam as pessoas. A estadia deles nas cidades por onde passam são curtas, Cas sempre muda de escola e nunca fica tempo o bastante para fazer amizades. Ele herdou do pai, que morreu atacado por um fantasma, o dom de caçar mortos a fim "matá-los" e de mandá-los para o lugar que deveriam ter ido quando morreram. Cas ainda pretende vingar a morte do pai, mas enquanto o momento não chega, ele continua com seu trabalho por onde passa.
A próxima parada foi em Thunder Bay, uma cidadezinha em Ontário cujos habitantes temem o fantasma de uma garota que é conhecida como Anna Vestida de Sangue. Ela morreu há mais de sessenta anos, aos dezesseis anos usando um vestido de baile, e sua morte é um verdadeiro mistério, e a única coisa que sabem é que ela habita e assombra uma casa vitoriana e todos que ousaram entrar lá foram mortos de forma brutal.
Cas não se surpreende de imediato... Pra ele, Anna era só mais um fantasma qualquer que deveria ser perseguido e morto como todos os outros que ele já caçou, mas ao se deparar com ela, percebe que as coisas não são nada como ele pensou... Ao ficar frente a frente com Anna, Cas, inexplicavelmente, é poupado. Por trás de toda fúria que há em Ana, há muitos mistérios que precisam ser revelados para que Cas descubra por que ela é diferente de todos os fantasmas que ele já perseguiu e, assim, poder ajudá-la de alguma forma.

Fugindo de narrativas femininas e tradicionais para livros YA, a história é contada através do ponto de vista de Cas. A autora não perde muito tempo dando explicações enormes ou muitos detalhes mostrando como tal personagem chegou onde está e o motivo, indo direto ao ponto, sem floreios e sem necessidade do leitor ficar imaginando ou supondo coisas que não existem. Ela conta muita coisa usando poucas palavras, o que facilita e torna a leitura ágil, mas talvez por isso algumas coisas tenham ficado desinteressantes (o que me fez demorar muito pra finalizar a leitura), outras sem explicações, ou as poucas que tiveram não foram suficientes pra me convencer. A primeira delas é sobre o próprio Cas, que nunca teve amigos por viver se mudando de cidade, mas, convenientemente, ao chegar em Thunder Bay ele forma um grupinho habilidoso com colegas do colégio, todos estereotipados e do tipo "unidos venceremos" que o ajuda a enfrentar o pior e mais sanguinário fantasma que ele iria enfrentar na vida.
A primeira impressão que Cas passa é de um garoto super badass considerando o tipo de trabalho que ele faz, mas com o desenrolar da história ele se revela alguém que não está com essa bola toda.
Juro que não entendi como a mãe de Cas parecia não se importar e achar super normal o filho sair por aí correndo perigo e enfrentando mortos sendo que seu marido morreu nas mãos de um. Talvez haja uma explicação plausível pra esse comportamento no próximo volume, mas até então achei essa mãe um tanto despreocupada com a segurança do filho.

O que torna a leitura mais interessante e faz valer a pena é o fantasma de Anna, cujas descrições e cenas em que aparece são até bem assustadoras, sombrias e cheias de sangue. Quando sua história é revelada a vontade é de chorar, pois é terrível e de cortar o coração, mas ainda fiquei esperando o motivo de ela não ter estraçalhado Cas como fez com todos os outros que invadiram sua casa já que, embora ele seja o único com a habilidade de matar gente morta, nada foi explicado sobre o motivo dele ser tão especial e senti falta de mais informações sobre sua linhagem de caçadores de fantasmas para que as coisas fizessem mais sentido.
Outro ponto bacana da história é sobre a mitologia no que diz respeito aos fantasmas. Eles, na maioria das vezes, permanecem onde morreram por terem sido vítimas de um crime violento e agora buscam por vingança, às vezes nem sabem que morreram, ou às vezes passaram por coisa pior... O motivo de eles assombrarem os lugares e fazer o que fazem está ligado a fatores que convencem, assim como alguns deles apresentarem "solidez" a ponto de poderem ser tocados... Isso tornou a leitura atraente, instigante e até original, mesclando fantasia com elementos de terror, além de fugir dos clichês que caracterizam fantasmas como seres etéreos e flutuantes.

Há romance, sim, mas não senti química e considerei que o forte e inexplicável vínculo que se baseou em compaixão e respeito é algo que os personagens estavam, de fato, destinados a viverem em algum momento (seja em vida ou na morte), mas eu só espero que no final das contas a coisa toda não se torne conveniente e absurda como aconteceu no final de "A Mediadora" e todos, literalmente, vivam felizes para sempre.

Sobre o projeto gráfico, é claro que a capa é linda! É sombria e representa perfeitamente o fantasma de Anna com o cabelo esvoaçante num ambiente lúgubre e o vestido branco pingando sangue. As páginas são amarelas os capítulos são numerados com pequenos ornamentos e a diagramação é simples.

No mais, Anna Vestida de Sangue é um romance jovem adulto imprevisível e que surpreende à sua maneira, com pegadas sobrenaturais e toques de mistério, com bom ritmo e que vai causar alguns arrepios nos leitores.
Apesar do que apontei como pontos falhos no enredo, foi uma leitura bem proveitosa, e resta agora aguardar a continuação, "Girl of Nightmares".

24 de junho de 2016

Frankenstein - Mary Shelley

Título: Frankenstein ou o Prometeu moderno
Autora: Mary Shelley
Editora: Penguin/Companhia das Letras
Gênero: Clássico
Ano: 2015
Páginas: 424
Nota:
Onde Comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: O arrepiante romance gótico de Mary Shelley foi concebido quando a autora tinha apenas dezoito anos. A história, que se tornaria a mais célebre ficção de horror, continua sendo uma incursão devastadora pelos limites da invenção humana. Obcecado pela criação da vida, Victor Frankenstein saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser. Mas, quando ganha vida, a estranha criatura é rejeitada por Frankenstein e lança-se com afinco à destruição de seu criador. Este volume inclui todas as revisões feitas por Mary Shelley, uma introdução da autora e textos críticos de Percy B. Shelley e Ruy Castro. Há ainda um apêndice com textos de Lorde Byron e do dr. John Polidori.
Resenha: A Editora Companhia das Letras, através do selo Penguin, trouxe aos leitores uma edição inesperada de um clássico da Literatura Inglesa. Com uma introdução de quase 60 páginas, conhecemos um pouco mais da jovem autora, sua vida, motivação e inspiração para escrever sobre essa história que se tornou um ícone mundial.
Mary Shelley escreveu a obra enquanto viva com seu marido nos Alpes franceses e sofreu as consequências de ver seu personagem se tornar mais famoso que ela própria ainda que, pela época, a obra tenha recebido diversas e pesadas críticas, principalmente por Mary ser uma escritora mulher.
Temos aqui uma rica história atemporal que relata a vida de Victor Frankenstein, filho de um abastado homem que dedicou a vida às questões nacionais e de Caroline Beaufort, filha de um amigo íntimo de seu pai e mercador que caiu em pobreza extrema.

Proveniente de uma família completamente feliz, Victor era extremamente inteligente e um apaixonado pelas ciências naturais, metafísica e pelos mistérios do céu de da terra. Depois de muito tempo dedicado aos estudos e pesquisas, inclusive no que tange à busca pela pedra filosofal e o elixir da vida, Victor obstinou-se a tentar banir a doença do corpo humano e tornar o homem um ser invulnerável a todo mal que não fosse a morte violenta.

Esse desejo se tornou uma obsessão ainda maior após a morte de sua mãe e sua ida à faculdade. Depois de muito estudo e completo afastamento de casa, Victor se dedicou à fisiologia e ao estudo da deterioração do corpo humano, passando dias em câmaras mortuárias e necrotérios. Até que ele logrou êxito em descobrir a causa da geração da vida, tornando-se capaz de reanimar matéria morta.
"Quem poderá conceber os horrores de minha labuta secreta, a resolver o pântano profanado das sepulturas ou torturar um animal vivo pela possibilidade de reanimar o barro sem vida? (...) Coletava ossos de casas mortuárias e, com dedos profanos, perturbava os mistérios mais assombrosos do corpo humano. Numa sala solitária, ou melhor, numa cela, no sótão da casa, isolado de todos os outros aposentos por um corredor e uma escada, mantinha minha oficina de criações imundas." 
- Pág. 127
Após dois anos de tanto empenho e isolamento, Victor obteve sucesso e a criatura estava pronta para receber a fagulha de existência. Contudo, agora que sua criatura existia e estava viva, o horror e a repulsa o dominaram, sem conseguir suportar a aparência do que criara, Victor correu para muito longe, assustado com a aberração a que fora capaz de conceber, e à partir daí começa a coletar as consequências de brincar de Deus.

Mary Shelley foi minha introdução nos Clássicos da Literatura Estrangeira. Escolhi Frankenstein para começar a sair um pouco da zona de conforto e por achar ser um clássico com um quê de ficção científica. Para minha surpresa o livro se mostrou muito mais profundo e filosófico que isso.

A narrativa é fluída, ainda que com uma linguagem não coloquial e com grandes expressões que transmitem o mesmo significado que apenas uma palavra cumpriria bem o papel. Confesso que foi uma leitura extremamente difícil e demorada uma vez que exigiu uma atenção absurda. As pausas são necessárias, assim como leituras paralelas.

O início é excessivamente lento, mais arrastado, ainda por conta de relatos epistolares do Capitão do navio que resgatou Victor e que resolveu ouvir e contar suas mais terríveis confissões. Por essa razão, o livro é narrado em primeira pessoa tanto na visão do criador quanto na visão da criatura (que achei um tanto quanto prolixa e repetitiva).

A autora trouxe lá em 1800 uma de muitas reflexões válidas até os tempos de hoje, sobre ética e moralidade e em como é tênue a linha que as separa. O conhecimento e o avanço tecnológico, ao mesmo tempo que é ansiado, é temido, queremos ultrapassar e vencer a morte, mas não sabemos lidar com o desconhecido. Frankenstein fala sobre a natureza humana da forma mais intrínseca possível e em como as relações humanas influenciam em nossas atitudes e em nossos destinos.

Frankenstein é uma excelente leitura, contudo, nossas experiências cinematográficas tiram um pouco da graça e genialidade eis que temos na história escrita um jogo inteligentíssimo de narrativa de forma a mexer com nosso psicológico. Ora achamos que a criatura é essencialmente má, ora percebemos e nos questionamos se não foi a convivência humana e na sociedade que o transformou no verdadeiro monstro, e a mesma coisa acontece com Victor. No fundo percebemos que todas as pessoas não são totalmente boas nem más.

O final que Mary Shelley deu a ambos os protagonistas é bastante interessante e comovente, mas previsível, não fiquei surpresa com o final que teve aquele que desejou brincar de Deus e mas sim o da criatura diante do que se tornou e perante seu Criador.

É uma leitura que recomendo para ser feita em doses homeopáticas, mas que com certeza irá lhes marcar profundamente.