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Mestre dos Djinns - P. Djèlí Clark

27 de dezembro de 2023

Título:
 Mestre dos Djinns - Dead Djinn Universe #1
Autor: P. Djèlí Clark
Editora: Suma
Gênero: Fantasia Urbana/Steampunk
Ano: 2023
Páginas: 352
Nota:★★★☆☆
Sinopse: Cairo, 1912. Fatma el-Sha’arawi é a mais jovem mulher a trabalhar para o Ministério de Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais. Mas ela certamente não é nenhuma novata, ainda mais depois de ter impedido a destruição do universo no último verão.
Após um assassinato envolvendo os membros da Sociedade Hermética de Al-Jahiz, irmandade secreta dedicada ao homem mais famoso da história, a agente é convocada para investigar o caso. Quarenta anos antes, al-Jahiz abriu o véu que isolava o mundo mágico ― trazendo os djinns, ou gênios, para a realidade humana ― e desapareceu sem deixar vestígios. Agora, o assassino alega ser o próprio al-Jahiz, que voltou para punir a sociedade moderna por suas injustiças sociais.
Na companhia de Hadia, sua nova assistente, e de Siti, sua namorada e devota dos antigos deuses egípcios, Fatma precisará desvendar a identidade do impostor ― se é que ele é mesmo um impostor ― para reestabelecer a paz.

Resenha: Mestre dos Djinns, escrito pelo autor P. Djèlí Clark, se passa na cidade de Cairo de 1912, num Egito alternativo e steampunk que se transformou numa superpotência política, a frente até mesmo de países europeus. Esse destaque do Egito ocorreu há quarenta anos, após o lendário al-Jahiz ter abrido o véu que separava o mundo real do sobrenatural e causado uma revolução mágica. Djinns e outras criaturas fantásticas adentraram o mundo real mas, logo em seguida, al-Jahiz desapareceu sem deixar rastros. Com a presença das criaturas, a magia se tornou parte da realidade e passou a ser algo comum.

Quando um assassinato misterioso envolvendo a aristocracia britânica e os membros da Sociedade Hermética de Al-Jahiz (uma irmandade secreta dedicada a al-Jahiz) acontece, Fatma el-Sha'arawi, uma detetive "bastante experiente" de vinte e poucos anos, entra em cena.
Numa época onde o sufrágio feminino está avançando pelo Egito, Fatma é a mulher mais jovem e uma das poucas a trabalhar no Ministério da Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais. Agora ela foi designada a investigar esse assassinato que acaba a levando a uma pessoa que alega ser o próprio al-Jahiz. Fatma embarca nessa missão determinada a desmascarar o impostor com a ajuda de Hadia, sua assistente que é super comprometida com o trabalho.

O livro é narrado em terceira pessoa e a escrita do autor é relaticamente boa, porém com ressalvas. Algumas descrições e palavras são floreadas demais, outras carecem de O cenário e a construção de mundo em si é incrível e, apesar de bastante criativo, achei que o enredo e a construção dos personagens estavam com várias falhas que acabaram deixando a história dispersa e com pontos que pareciam só estarem alí pra desviar a atenção do leitor. Uma coisa que dificultou a leitura pra mim foi o excesso de palavras da cultura egípcia, como roupas, comidas ou objetos. Não tenho nada contra a cultura em si, mas pra quem não está acostumado ou não sabe o que são essas coisas descritas pelo autor, ou vai precisar interromper a leitura e ir pesquisar, ou vai ignorar e fingir que sabe, e seja o que Deus quiser. Alguns elementos foram inseridos na intenção de aumentar a tensão e os problemas pra se enfrentar, mas não havia a menor necessidade visto que deixou mais perguntas do que respostas e que, talvez, serão aprofundadas num próximo volume. Outra coisa é que num universo onde as pessoas já se habituaram ao sobrenatural, Fatma - que trabalha no Ministério - não parece enxergar o óbvio algumas vezes, e suas reações diante de algo que ela já deveria estar acostumada e tratar como algo rotineiro, não parecem ser reais.

Fatma, como aquela protagonista que dá a ideia de ser alguém super fodona, competente e habilidosa, não passa de uma abençoada totalmente superficial, arrogante e desatenta que se aproveita das conveniências do enredo e da boa vontade das testemunhas que aparecem em seu caminho pra lhe dizer exatamente o que fazer, e se não fosse isso, ela não chegaria a lugar nenhum, nunca. Sua falta de competencia em várias situações desencadeiam conflitos que, ao meu ver, não deveriam existir. Acho que sua assistente é muita mais profissional do que ela. Não sei se isso foi algo proposital feito pelo autor, mas a impressão que tive era que ele focou mais na sua obsessão por roupas estilosas e relacionamento amoroso pra dar um toque de bom humor (?) do que a missão investigativa que, ao meu ver, era o que importava alí.
Siti, a namorada de Fatma, é uma personagem cheia de camadas e foi uma pena que não foi tão explorada como eu gostaria. Ela tem sua importância no enredo, seja com relação ao mistério como também para o desenvolvimento de Fatma, além de abordagens bem adequadas que criticam temas delicados como racismo e intolerância religiosa.

Embora haja muita tensão em cenas mirabolantes e cheias de perigos, as coisas não parecem manter um ritmo padronizado, pois várias situações sofrem reviravoltas mas são resolvidas de formas relativamente simples pra todo o alvoroço apresentado, e a sensação é de desorientação e aleatoriedade. O vilão também é super caricato (e tenho certeza que foi feito assim de propósito) com suas motivações e discursos ridículos enquanto gira o próprio bigode.

Em meio à trama, achei interessante a forma como o autor abordou a questão do espaço e dos direitos que as mulheres começaram a ter numa época onde, embora houvesse um pouco de tolerância, a misoginia ainda tinha muita força, e não só isso, como também o racismo, a xenofobia e o elitismo dos quais ele aproveita pra fazer uma excelente crítica. Fatma representa um pouco desse progresso, principalmente por ela ser lésbica, mas fica evidente que tudo poderia ser melhor, ainda mais se formos considerar que é um universo alternativo e que não precisa seguir a risca a nossa realidade...

Mestre dos Djinns traz uma história com um estilo alternativo e engenhoso bastante interessante de um Egito que ascendeu com a ajuda do sobrenatural. Pra quem gosta de boas contruções de mundo, do estilo steampunk com aquela pegada de magia, suspense, caos e investigações em meio a cultura a mitologia egípcias, e ficou curioso pra acompanhar uma detetive com habilidades duvidosas mas com gosto requintado para ternos, é leitura mais do que indicada.

Eu Nasci Pra Isso - Alice Oseman

22 de dezembro de 2023

Título:
 Eu Nasci Pra Isso
Autora: Alice Oseman
Editora: Seguinte
Gênero: Romance/Jovem Adulto
Ano: 2023
Páginas: 368
Nota:★★★★☆
Sinopse: Angel Rahimi está prestes a realizar o sonho de qualquer garota: ir para Londres com a melhor amiga para assistir ao show do Ark, sua boyband favorita. Angel faz parte do fandom da banda há anos, e foi ali ― em meio a fóruns, fanfics e postagens nas redes sociais ― que encontrou amizades verdadeiras e um lugar no mundo.
Jimmy Kaga-Ricci é o vocalista do Ark, e deve tudo o que tem ao grupo. Shows lotados, fãs apaixonados e festas com celebridades são comuns em sua rotina, mas o sucesso cobra um preço caro, e ele sofre cada vez mais com crises de ansiedade e paranoia.
Os caminhos de Jimmy e Angel se cruzam justo quando ele começa a questionar se a fama é algo que realmente deseja, e ela a se perguntar se o amor que sente pelo Ark só é tão grande porque a ajuda a fugir de seus problemas. Entre conversas sobre música e surpresas inesperadas, esta é uma história sobre o poder de acreditar em alguma coisa ― especialmente em si mesmo.

Resenha: Saindo do universo de Heartstopper, Alice Oseman trouxe Eu Nasci pra Isso, publicado no Brasil pela Seguinte, que vai contar a história de Angel e Jimmy.

Fereshteh Rahimi (ou Angel, que é o apelido que ela usa na internet e como prefere ser chamada) é muçulmana, tem 18 anos, acabou de se formar no ensino médio e pretende fazer faculdade de psicologia. Já faz anos que Angel faz parte do fandom da sua boyband favorita de pop rock, a banda Ark, que ela vive pra idolatrar. Como ela não conhecia ninguém que dividisse esse amor pela banda como ela, Angel passou a investir seu tempo em fóruns e postagens em redes sociais pra procurar saber tudo sobre os meninos e poder conversar sobre eles com quem também tivesse o mesmo interesse, e foi nesse espaço virtual que ela se encontrou e podia ser e agir como ela mesma. Numa dessas, ela conheceu Juliet, que compartilhava da mesma paixão pela banda e se tornou sua melhor amiga. As duas tem a mesma idade e levam essa amizade movida pelo Ark já faz dois anos, e agora Angel e Juliet estão prestes a realizar o maior sonho de suas vidas: Viajar para Londres para assistir ao show da banda.
Do outro lado, Jimmy faz parte do Ark e nao está sabendo lidar muito bem com a ideia de ser uma celebridade adorada, e sofre cada vez mais com crises de ansiedade, ataques de pânico e paranoia.
Até que os caminhos de Angel e Jimmy se cruzam num momento onde eles passam a se questionar sobre o que querem da vida, e se o que estão vivendo vale a pena...

A história se passa num período de uma semana e pra cada dia há os pontos de vista intercalados de Angel e Jimmy para o que vai acontecendo. Os capítulos (o dia da semana) são iniciados com alguma citação de Joana D'arc e parece servir de referência para uma música da banda, a "Joan of Arc".
A narrativa é feita em primeira pessoa e é bem leve e fluída, mas é bem diferente das HQs da série Heartstopper da autora. Acho que não teria como ser de outra forma já que, aqui, ela precisou concentrar num único volume as descrições mais detalhadas de personalidade e percepção de mundo dos personagens. Não sei se o livro faz parte de uma série, mas até aqui achei tudo em apresentado e bem definido.

Angel é "estranha", seus pensamentos vivem se atropelando e ela guarda pra si a maioria deles. Às vezes, ela prefere ficar desconfortável numa situação do que pôr pra fora o que pensa e sente mas, em outras vezes, fala demais a ponto de passar dos limites, e isso é um pouco irritante.
Jimmy é um jovem trans, guitarrista da banda, que sofre de ansiedade e ataques de pânico. Ele parece não ter se acostumado com o sucesso da banda e agora precisa lidar com toda a pressão que a fama trouxe para a sua vida.
Rowan e Lister são os outros dois membros do Ark que também tem seus dilemas com relação a fama e à vida pessoal deles, que diga-se de passagem, é tão interessante quanto as dos protagonistas. Seus arcos e personalidades foram muito bem construídos e o conjunto de amizade e fama dos três forma uma dinamica muito legal de se acompanhar.

Embora cada um tenha um tipo de representatividade com relaçaõ à sexualidade, isso nao é o que os define como pessoas ou o que define os aspectos de suas vidas, apenas faz parte de quem eles são. O que entra em jogo aqui, além das questões psicológicas que eles enfrentam, é a dinâmica entre celebridade e fã, o que é um excelente ponto de reflexão para os leitores numa época em que a gente vê o que acontece e tem exemplos, na maioria das vezes, bem desagradáveis. O livro explora muito bem a questão da relação entre fã e ídolo, mostrando os dois lados da história. Enquanto Angel ama fazer parte do fandom, ela descobriu alí algo que a faz feliz e fez amigos verdadeiros mas, por outro lado, toda essa paixão e intensidade dos fãs, fez com que ele se sentisse sufocado, e Jimmy - assim como seus amigos - acabou sendo afetado de forma muito negativa, principalmente pelo fato de que sempre há aquele tipo de midia oportunista que sai divulgando toda e qualquer "notícia" da forma mais conveniente pra eles, visando cliques e lucro por saber que há um bando de desmiolados que consome esse tipo de conteúdo como se não houvesse amanhã, e azar se alguém vai sofrer com isso ou não.

Percebi que a autora sempre tem uma forma diferente, num contexto diferente, e com personagens diferentes, para falar de representatividade LGBTQIA+ e saúde mental, e sempre da forma mais compreensível possível, e com o devido respeito, pra que possa fazer todo mundo que lê suas obras poder refletir sobre a importância do tema.

Não vou dizer que foi meu livro preferido da autora pois, por mais que eu também tenha vivido essa fase de ser fã de boybands na adolescência (Backstreet Boys e Hanson quem o diga), eu nunca tive essa obsessão a ponto de fazer parte de clubinhos, fandons, ir em shows e afins, logo, apesar de entender essa paixão, não pude me identificar tanto assim. Outra coisa que ainda não sei se, pra mim, foi positiva ou não é que, por mais que os personagens passem por uma experiência que faz com que eles amadureçam e entendam várias coisas da vida, não significa que eles tenham um final feliz. Claro que na vida real é o mais óbvio de se acontecer, mas às vezes a gente só quer ler algo pra fugir da realidade, e não que essa realidade fictícia nos dê mais uns tapas na cara. Mas, posso dizer que é um livro bem legal e que aborda temas super atuais, como a vida online ser bem diferente da vida real, sobre música, sobre consequências de se ter obsessão por celebridades e a necessidade de fazer parte de algo pra se sentir aceito, sobre ter a vida virada de cabeça pra baixo quando a fama vem muito rápido, e claro, sobre saúde mental, e, tudo isso, focando no quanto os personagens são muito humanos e no desenvolvimento da amizade que eles cultivam, em vez do romance convencional. E isso pra mim foi um respiro longe dos clichês tradicionais.

Para o Trono - Hannah Whitten

20 de dezembro de 2023

Título:
 Para o Trono - Wilderwood #2
Autora: Hannah Whitten
Editora: Suma
Gênero: Dark Fantasy
Ano: 2023
Páginas: 416
Nota:★★★☆☆
Sinopse: Cumprindo seu destino como a Segunda Filha do reino de Valleyda, Red se entregou à floresta de Wilderwood, onde descobriu a verdade por trás das lendas. Com a ajuda do Lobo, ela conteve a ameaça dos Cinco Reis, mas o custo foi alto demais, e sua irmã Neve ficou presa na Terra das Sombras.
Perdida em um território desconhecido, Neve encontra um aliado improvável: Solmir, alguém com quem a Primeira Filha preferiria nunca mais ter contato. Juntos, os dois partem numa jornada perigosa em busca da Árvore do Coração, para enfim reivindicar os poderes sombrios dos deuses.

Resenha: Depois de cumprir com seu destino, Red, a Segunda Filha, descobriu a verdade por trás das lendas ao se entregar à floresta de Wilderwood. Com a ajuda do Lobo, ela conseguiu controlar e conter a ameada dos Cinco Reis, porém o custo foi sua irmã, Neve, ter ficado presa na Terra das Sombras.
Agora, presa, perdida e contra sua vontade, Neve precisa unir forças a Solmir, o vilão do livro anterior, para partirem numa jornada cheia de perigos numa tentativa de caçar deuses e reinvindicarem seus poderes sombrios para, enfim, impedirem o retorno dos Reis.

Enquanto isso, em Wilderwood, Red e o Lobo estão conectados com a floresta, e a Segunda Filha está determinada a salvar a irmã, mesmo que não saiba como fazer isso. De um lado Red tenta descobrir o que as visões que ela tem significam e como ela pode encontrar a irmã, e do outro lado, Neve, em companhia de Solmir, corre contra o tempo para reinvindicar os poderes dos deuses.

Diferente do volume anterior, mesmo que haja os capítulos intercalados com Red assumindo a narração, Para o Trono traz como questão principal a perspectiva do ponto de vista de Neverah, e isso mostra um aprofundamento maior com relação à personalidade, as decisões e a situação em que se encontra a Primeira Filha. Neve ainda é assombrada pelos erros que cometeu mas, mesmo sentido culpa, ela não cede de jeito nenhum, quer ter a última palavra sempre e não poderia ser mais irritante. Não digo que Neve é uma vilã pelas coisas que fez, ela me soa mais como uma anti-heroína que está numa jornada de aprendizado, auto conhecimento e descobertas. Ela teve um amadurecimento considerável e uma evolução boa se comparada a quem ela era no começo.
Solmir foi uma grata surpresa e arrisco a dizer que ele acabou sendo o personagem que mais gostei. Ao mesmo tempo que ele estava sempre melancólico ele demonstrava ironia, e os diálogos dele com Neve, onde eles viviam trocando farpas, foram os mais divertidos de se acompanhar. A convivência entre os dois também é responsável por uní-los cada vez mais, e é legal acompanhar o carinho que eles vão nutrindo um pelo outro, mas não nego que a construção gradual - e muito lenta -  desse "relacionamento" me soou forçada e acho que a história ficaria mais interessante e menos clichê se o romance não existisse.
Apesar de ter esse problema sério com o ritmo e com a fluidez, o livro entrega interações muito divertidas entre inimigos que se tornam aliados em nome de um bem maior enquanto rola tensão sexual, olhares sedutores e paixonites um tanto óbvias e debochadas.

A construção de mundo fica mais complexa com a inclusão da Terra das Sombras e da Árvore do Coração, e como a autora dá muitas voltas nos detalhes, senti que perdi muita coisa e deixei de entender (e me importar) com outras.

Embora tenha os momentos divertidos e os outros de pura tensão, a autora não mudou o estilo de escrita com muitos detalhes excessivos e capítulos que pareciam não ter fim. Tudo é descrito de forma tão lenta e demorada que a leitura acaba se tornando arrastada em alguns pontos e até repetitiva, e o que deveria ser uma experiência interessantíssima acaba se tornando cansativa. A forma como os capítulos destinados a Red cortam os de Neverah e ficam repetindo as mesmas informações e diálogos, dão a impressão de que há um espaço onde nada acontece e nada sái do lugar, e isso acabou quebrando o ritmo da leitura a ponto de me fazer abandonar o livro por diversas vezes enquanto eu lia outros no intervalo. A autora também destina alguns capítulos sob o ponto de vista de Raffe, mas é mais uma coisa que não acrescenta em nada e não tráz nada de interessante.
Como Red e Eammon já foram explorados à exaustão no livro anterior, achei que aqui eles não tinham quase nada a oferecer. Se a autora fosse direta, focasse exclusivamente no ponto de vista de Neve e não tivesse ficado repetindo as coisas e dando voltas e mais voltas, penso que a leitura teria fluído muito melhor.

Releituras de contos de fadas com essa pegada sombria sempre são interessantes e chamam a atenção, e acredito que aqui, com todos esses rodeios e detalhes infinitos, a autora quis promover um tipo de imersão obscura no leitor além de fazer esse contraste de luz e trevas quando comparamos as duas irmãs. Mesmo que não seja perfeita, ainda acho que a história é bastante interessante pelos elementos diferentes e pelos assuntos abordados que combinaram bem com todo esse universo. Magia, amor, perdas e sacrifícios são ingredientes que na maioria das vezes funcionam bem dentro do gênero, mas no caso da duologia Wilderwood, é preciso ter paciência e bastante tempo pra se dedicar à leitura e poder aproveitar. É aquele tipo de leitura demorada, mas que no final vale a pena.

Por Lugares Devastados - John Boyne

18 de dezembro de 2023

Título:
 Por Lugares Devastados - O Menino do Pijama Listrado #2
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Drama
Ano: 2024
Páginas: 224
Nota:★★★★★
Sinopse: Gretel Fernsby conseguiu escapar da Alemanha nazista e há décadas leva uma vida pacata em Londres. Em seu íntimo estão as marcas de um passado obscuro e perturbador, e ela esconde a todo custo que é a filha do comandante de um dos mais notórios campos de concentração nazistas. Tudo muda, porém, com a chegada de um novo vizinho ― Henry, de nove anos ―, de quem se torna amiga. Certa noite, Gretel presencia uma discussão violenta entre a mãe e o pai do garoto e se vê diante de uma encruzilhada: pode salvar a criança, mas a decisão implica revelar sua verdadeira identidade para o mundo.
Sequência do aclamado O menino do pijama listrado, Por lugares devastados investiga as consequências da guerra e como um acontecimento pode moldar um ser humano. É uma história emocionante e devastadora sobre uma mulher que precisa enfrentar seus erros pregressos e agir com coragem no presente.

Resenha: Por Lugares Devastados, do autor John Boyne, veio para dar continuidade à história do livro O Menino do Pijama Listrado, lançado há quase vinte anos, porém sob o ponto de vista de Gretel Fernsby, a irmã mais velha de Bruno.
A história se passa no ano de 2022, oito décadas depois que ela e a mãe conseguiram escapar da Alemanha nazista. Gretel agora é uma senhora de 91 anos e mora num belíssimo apartamento em frente do Hyde Park, em Londres.
O que ninguém sabe é que, por trás dessa senhorinha um tanto chata e antissocial, há um passado perturbador onde ela esconde a todo custo que é a filha do comandante do campo de concentração de Auschwitz e, assim, ela vai levando a vida, tentando passar despercebida, mas sem esquecer tudo o que viveu no passado.
Mas as coisas pra ela mudam quando novos vizinhos se mudam para o apartamento abaixo do seu. É um casal com um filho de 9 anos, Henry, de quem Gretel acaba se aproximando e ficando amiga. E quando ela presencia uma briga bastante violenta entre os pais do menino, ela precisa decidir se vai intervir para salvá-lo e evitar que o pior aconteça, mas essa decisão faria com que sua verdadeira identidade e seu passado fossem revelados para as pessoas. E agora?

O livro é narrado por Gretel, intercalando fatos de seu presente, onde ela enfrentra alguns problemas com seu filho que quer que ela vá para uma clínica de idosos para vender seu apartamento, e do passado, onde ela fala de sua trajetória e o que aconteceu após a fuga da Alemanha, incluindo o medo que ela e a mãe tinham de serem descobertas pela proximidade e "participação" que tiveram num dos piores eventos que a humanidade já viu.
A protagonista é uma personagem bastante complexa e com diversas camadas que vão sendo reveladas aos poucos, a cada nova informação que ela fornece sobre sua vida. É um misto de pena, raiva e um pouco de admiração por todas as situações que ela foi condicionada a viver, que por mais injustas que pareçam, são um reflexo da criação que ela teve, vivendo numa realidade em meio ao regime nazista onde ela não tinha outra opção a não ser seguir as regras. 

O que o autor levanta aqui é a questão da culpa que Gretel carrega e de que ela não é uma pessoa perfeita, fazendo o leitor refletir sobre a ideia dela entender ou não a complexidade do que estava acontecendo, se se arrependeu, se era conivente ou se apenas estava obedecendo e seguindo os ensinamentos do pai. E será que, levando tudo em consideração, ela pode ser julgada pelo que ele fez?

Boyne cria situações delicadas e bastante difíceis, desde as relatadas por Gretel que mostram as consequências de uma guerra mundial e uma vida cheia de mentiras e culpa, até as cenas presentes com os vizinhos que envolvem violência doméstica, e é impossível não se colocar no lugar dela, imaginando o que faríamos se fosse com a gente.

Não vou me alongar muito dando mais detalhes porque, assim como o primeiro livro, este é uma experiência literária que deve ser absorvida ao máximo pelo leitor para que ele seja surpreendido com os acontecimentos, as reflexões e as reviravoltas incríveis que acontecem.

Percebi alguns problemas na tradução e na linha do tempo que fugiram do que foi feito no primeiro livro, mas ainda dá pra entender sem atrapalhar a leitura, só achei válido pontuar.

Por Lugares Devastados é uma leitura comovente que não só complementa o livro anterior com questões sensíveis sobre culpa, cumplicidade e redenção, como tráz reflexões brutais sobre a banalidade da maldade e suas consequências.

Escandalizados - Ivy Owens

16 de dezembro de 2023

Título:
Escandalizados
Autora: Ivy Owens
Editora: Paralela
Gênero: Romance/Policial/Conteúdo adulto
Ano: 2023
Páginas: 416
Nota: ★★☆☆☆
Sinopse: Quando Gigi e Alec se encontram no aeroporto de Seattle, faz catorze anos que não se veem, mas isso não impede que um reconheça o outro — e que eles se reconectem depois de tanto tempo. Alec foi a primeira paixão de Gigi, e passar uma noite com ele parece um sonho. A ligação dos dois é intensa, mas ao amanhecer Gigi desconfia que Alec talvez não seja quem ela pensa. Quando chegam ao aeroporto de Los Angeles e encontram pelo menos duzentas pessoas esperando por Alec, ela descobre que estava certa. Alexander Kim se tornou um ator muito conhecido na Coreia do Sul e na Inglaterra. Seus doramas também fazem muito sucesso nos Estados Unidos, mas Gigi não fazia ideia disso. Irritada por Alec não ter lhe contado a verdade, ela decide ir embora e fingir que a noite que passaram juntos nunca aconteceu.
Mas a conexão entre eles é forte demais para ser ignorada, e logo embarcam em um romance secreto. Enquanto isso, Gigi está investigando uma boate cujos donos são acusados de drogar e assediar mulheres, uma reportagem que pode mudar a trajetória de sua carreira como jornalista. Alec, por sua vez, pode ter informações importantes sobre a história — mas será que Gigi deve contar para seu chefe que está se relacionando com uma possível fonte? E Alec pode revelar o que sabe sem ameaçar sua carreira em ascensão e, mais importante, sua família? Será que o amor deles pode resistir a um escândalo internacional?

Resenha: Georgia, ou Gigi, é uma jornalista que viajou para Londres para investigar uma boate cujos donos são suspeitos de drogar e assediar mulheres. Essa reportagem é super importante pra ela pois poderia mudar e dar uma guinada em sua carreira. Quando Gigi vai pro aeroporto para esperar pelo voo que a levaria de volta pra casa, ela é surpreendida com a notícia de que o voo estava atrasado por causa de uma tempestade. Enquanto aguarda por mais informações da cia aérea, ela reencontra Alec alí no aeroporto, o irmão de sua melhor amiga que ela não via há uns 14 anos, o mesmo que foi seu crush da adolescêcia. Quando ela recebe a informação de que o voo seria adiado pro dia seguinte, é recomendado que ela fosse passar a noite num hotel, o mesmo hotel onde Alec estava hospedado. Obviamente eles dividem o quarto, tudo é uma loucura que nenhum dos dois planejava e aquilo mais pareceu um sonho. Mas, no dia seguinte, o que Gigi realmente não imaginava era que Alec fosse um ator de doramas super conhecido e famoso na Coreia do Sul e na Inglaterra. Por mais que ele também fosse conhecido nos EUA, Gigi não fazia a menor ideia de nada por não acompanhar esse universo. Ele fica irritada, se sentindo "enganada" e decide fingir que o que eles tiveram nunca aconteceu, mas ela não poderia simplesmente ignorar a conexão que eles tiveram e acabam decidindo levar esse romance em segredo. Agora, Gigi descobre que Alec pode ter informações importantes sobre o caso da boate, mas precisa pensar bem no que vai fazer já que usá-lo como informante pode colocar a carreira e a família dele em risco, além do escândalo internacional que isso poderia se tornar.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Gigi, e a história se passa num prazo de duas semanas. Não vou dizer que a escrita é ruim, muito pelo contrário, é bem fluída e envolvente e isso acaba sendo um ponto positivo em meio a uma imensidão de desgosto e olhos revirando. Gigi é aquele tipo de pessoa que parece precisar da validação alheia pra viver e se preocupa demais com o que os outros pensam mas, fora isso, é bastante intensa, leva tudo a sério e é muito boa no que faz. Alec é um cara perfeito cuja intenção, obviamente, é fazer as leitoras suspirarem. E isso soa forçado e até falso. Por mais que haja aquela química, as coisas não pareceram "orgânicas".
Fiquei com aquela impressão de que a autora só quis descrever um amontoado exagerado de cenas hots num contexto qualquer que, no final das contas, não faz a menor diferença visto que o aprofundamento, tanto de história quanto de personagens, é mínimo.
Alguns diálogos foram engraçadinhos, mas não passa disso. Tudo é muito raso e quanto mais eu lia, mais eu tinha certeza que a autora só quis apresentar um casal tão emocionado quanto em chamas pra quem lesse pensasse "nossa, uau, ôloko meu, que lindos, que fofos, meu casal, ui que delícia, ai se fosse comigo", mas eu... eu só revirava os olhos, mesmo.  Pra mim, toda aquela intensidade não poderia ser mais irreal. Tudo que acontece nessa história só termina de um único jeito: sexo. É o resumo, fim.

A questão do mistério acerca de um tema tão delicado foi uma das piores escolhas que já vi da minha vida. Além das frases clichês e do tema ficar totalmente banalizado, não acho que ele se encaixou de forma muito feliz em meio às experiências românticas e eróticas dos personagens principais. É como se a autora não tivesse muito propriedade pra falar sobre, mas precisava de um tema pra criar o suspense em torno das investigações de Gigi, então enfiou alí de qualquer jeito, sem aprofundamento, sem muita delicadeza e tratando como se fosse uma coisa qualquer, e seja o que Deus quiser. É um tema pesado e imagino o quão horrível deva ser para as vítimas que sofreram aqueles abusos, mas foi tudo explicado de forma rápida, fácil e conveniente, porém sem a devida conclusão. E eu fiquei só o meme do John Travolta confuso. Enfim, achei de péssimo tom.

Pra finalizar, se você procura por uma leitura rápida com um bando de cenas eróticas intensas, aleatórias e sem necessidade de muitas explicações, mas anda com preguiça de procurar contos no wattpad (ou coisa do tipo), é livro mais do que indicado. Mas, se é história de amor inesquecível em meio a uma investigação cheia de suspense (como a sinopse - erroneamente - faz parecer), não acho que seja a melhor referência e nem recomendo...

Uma curiosidade: Ivy Owens é o pseudônimo da autora Lauren Billings que, em conjunto com Christina Hobbs, escreveu a série Cretino Irresistível e outros livros assinados pela junção de seus nomes, "Cristina Lauren". Escandalizados foi escrito durante aquele paradoxo entre tédio e inspiração que a pandemia da covid-19 trouxe para a maioria das pessoas e, pela experiência que tive, talvez seja preferível assistir uma sessão da tarde e afins...

Evidências de uma Traição - Taylor Jenkins Reid

14 de dezembro de 2023

Título:
 Evidências de uma Traição
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Gênero: Drama
Ano: 2023
Páginas: 160
Nota:★★★★★
Sinopse: Querido estranho…
Uma jovem desesperada no sul da Califórnia se senta para escrever uma carta para um homem que ela nunca conheceu ― uma escolha que mudará sua vida para sempre.
Meu coração está com você, David. Apesar de não nos conhecermos.
Pouco a pouco, a correspondência entre Carrie Allsop e David Mayer revela os detalhes de um caso devastador entre seus cônjuges. Ao longo das cartas, eles confessam seus medos e compartilham sentimentos escondidos no fundo de suas almas, tentando decidir como seguir em frente.
Contada inteiramente por meio de cartas, Evidências de uma traição é uma história de decepções, mágoas e segredos, mas também de perdão e recomeços, e de como, no caso de algumas pessoas, a dor pode libertar.

Resenha: Numa Califórnia dos anos 70, David Mayer recebe uma carta de Carrie Allsop e, a partir dalí, sua vida vira de cabeça pra baixo. O conteúdo da carta? Carrie, devastada, escreveu para contar que ela descobriu que seu marido, Ken, estava tendo um caso com Janet, a esposa de David. Num misto de decepção e surpresa, David passa a observar a esposa e constata que realmente ela está escondendo alguma coisa, e passa a se corresponder frequentemente com Carrie. Vários detalhes desse caso entre os seus cônjuges vem à tona, ao mesmo tempo em que os dois passam a compartilhar suas inseguranças e sentimentos nunca antes revelados pra ninguém, numa tentativa de decidirem como irão lidar com essa traição e como irão seguir em frente.

Através de uma narrativa epistolar e bastante fluída, a autora conduz o leitor numa trama cheia de segredos, mágoas, sentimentos intensos e decepções, e ter acesso a essas cartas que os personagens trocam, só faz o leitor ficar com o olho arregalado querendo saber cada vez mais dessa fofoca que os dois chifrudos estão contando alí.

Todas as cartas contém as datas em que foram escritas, e numa época onde não se tinha acesso à internet, celulares, às redes sociais e ao famigerado whatsapp onde a comunicação é imediata, se corresponder por cartas e aguardar dias por uma resposta, hoje em dia mataria qualquer um de ansiedade, mas não vemos essa sensação nos dois com relação a esse tempo de espera pois era a relidade deles. A ansiedade alí era por outro motivo. Esse elemento faz o leitor refletir sobre sua geração e sobre a época em que ele está inserido, onde esse avanço tecnológico traz tantas mudanças a ponto de nos questionarmos se é algo bom ou ruim.

Muita coisa fica nas entrelinhas, de forma que a autora deixa o leitor chegar às próprias conclusões de algo que aconteceu a partir de sua interpretação de leitura dessas cartas. A construção do recado de cada um dos personagens parece ser muito bem pensada, assim como o tom da conversa, da intimidade e da sinceridade que vai sendo construída com o passar dos meses em que eles estão se falando, e que muda de acordo com o quanto eles se sentem mais próximos.

Apesar de o livro ser bem curto e parecer mais uma novela do que qualquer outra coisa, ele é intenso e muito envolvente, pois apesar de trazer à tona o tema delicado que é a descoberta de uma traição e tudo de ruim que isso implica na dinâmica do casamento, também mostra pessoas (principalmente Carrie) não só expondo seus medos e seus sonhos mais íntimos sem nenhum pudor, mas também tomando as rédeas de suas vidas que estavam estagnadas a ponto de ser necessário um baque desses para fazer eles acordarem pra fazer algo a respeito.

Pela história se passar nos anos 70, ainda temos a grata surpresa de uma menção de Carrie ouvindo as músicas da banda Daisy Jones & the Six, e pra quem já leu esse outro livro da autora com essa banda fictícia maravilhosa, é impossível não dar aquele sorriso de canto.

O final é um tanto inesperado, mas acho que levando todo o contexto e até mesmo a época e a realidade em que eles estão inseridos, é aceitável e compreensível.
É aquilo... Pra quem é fã de Taylor Jenkins Reid já sabe o que esperar e o baque que vai levar e, se considerarmos aquele toque especial de histórias no maior estilo "Picolé de Limão/Amor nas Redes", é leitura tão surpreendente quanto irresistível. Só leiam.

Mais Fortes Juntos - Alice Oseman

12 de dezembro de 2023

Título:
 Mais Fortes Juntos - Heartstopper #5
Autora: Alice Oseman
Editora: Seguinte
Gênero: HQ/Romance/Juvenil
Ano: 2023
Páginas: 336
Nota:★★★★★
Sinopse: Nick e Charlie estão mais apaixonados do que nunca. Eles já se declararam um para o outro, começaram a namorar, e Charlie está quase convencendo sua mãe a deixá-lo dormir na casa de Nick… Mas com a partida de Nick para a universidade no próximo ano, será que tudo está prestes a mudar?
Escrita e ilustrada por Alice Oseman, a série Heartstopper acompanha todos os pequenos momentos da vida de Nick e Charlie ― construindo uma história que ressoa em todos nós.

Resenha: Nick e Charlie estão de volta em mais um volume da série Heartstopper. Dessa vez, partindo de onde o livro anterior parou, os dois já assumiram o namoro e estão mais apaixonados do que nunca. A questão agora é que Charlie começa a pensar em dar um próximo passo nesse namoro, como dormirem juntos na casa de Nick pois a intimidade entre os dois está bem mais intensa, mas suas inseguranças começam a afetá-lo e é impossível controlar a ansiedade. Por outro lado, a ideia de Nick ir para a faculdade no próximo ano faz com que Charlie fique com medo do que o futuro reserva para os dois, sem saber se vai dar certo ou não, ao mesmo tempo que Nick tem medo de ficar longe de Charlie por não saber o que pode acontecer durante essa ausência ou como ele poderia reagir.


Através de uma narrativa encantadora e bastante sensível, a autora aborda temas delicados da adolescência, como as expectativas e as inseguranças da primeira vez, saúde mental, dependência emocional, os desafios e as decisões pessoais que envolvem a mudança do ensino médido para o universitário, assexualidade, prioridades na vida... Independente do "peso" do assunto em questão, tudo é tratado de forma leve sem desconsiderar suas consequências.

Charlie teve problemas sérios envolvendo sua saúde mental e está em processo de recuperação, mas ele ainda tem bastante dificuldade em lidar com algumas questões, principalmente as que envolvem seu corpo e a forma como ele se enxerga (ou acha que os outros o enxergam)
Nick também está num dilema sobre não saber o que quer fazer na vida com relação aos estudos e até mesmo sobre sua própria identidade, como se ele ainda tivesse dificuldade de se encontrar desde que se descobriu bissexual. Ele quer ir pra faculdade mas ao mesmo tempo não quer ficar longe de Charlie por sempre se preocupar muito com o namorado, por sempre colocar as necessidades e os sentimentos dos outros antes das suas, logo ele entra num enorme dilema pois a faculdade que ele tem interesse fica super longe de casa e seria impossível ir e voltar todos os dias.
Diante dessas inseguranças, fica bem explícito que as pessoas não devem ser definidas por uma condição mental pontual, e tendo ou não qualquer problema ou dificuldade, todo mundo precisa (ou vai precisar) de ajuda num determinado ponto da vida.


O contraste entre as mães dos meninos onde a mãe de Nick é mais mente aberta e liberal, enquanto a mãe de Charlie  é bem mais mal humorada e sempre fica de cima, como se quisesse impedir os dois de terem mais intimidade por achar isso "errado". E isso é uma situação que muitos de nós conhecemos de perto. Que mãe mais conservadora nunca interrompeu algum momento a dois pra avisar que a porta tem que ficar aberta? Tori, a irmã de Charlie, também ganha um pequeno espaço aqui por viver tentando fugir do namorado, até que ela se abre com Charlie pra contar o motivo dela não ter muito interesse em se prender a ninguém.

Às vezes fico com a impressão de que os adolescentes desse universo são maduros demais para a idade que têm, mas a autora trata dos eventos cotidianos com uma responsabilidade muito grande, tornando alguns assuntos difíceis um pouco mais fáceis de serem encarados ao mostrar como os personagens lidam com as situações que enfrentam.
Os personagens secundários não ganharam tanto espaço nesse volume, mas as dinâmicas sempre são interessantes de se acompanhar. Eles conseguem despertar a curiosidade do leitor pra saber um pouco mais sobre eles, principalmente porque eles não estão alí só de enfeite ou pra trazer conveniências para os protagonistas, eles realmente tem seus papeis definidos e importantes para representar algo maior.


Pra quem tem curiosidade em saber o que acontece depois do desfecho desse volume, Nick e Charlie: Uma novela Heartstopper já foi publicado pela Seguinte no meio desse ano e tem resenha aqui no blog. A novelinha extra mostra o que acontece quando Nick vai para a universidade e o namoro deles, que já dura dois anos, passa a ser a distância. Como disse na resenha, não é uma leitura obrigatória, mas se aprofunda nessa situação em específico pra quem ficou curioso pra saber um pouco do futuro dos dois.

Eu achei que esse volume iria encerrar a série, mas pelo visto vem mais um por aí e, levando em consideração o intervalo entre o volume 4 e este, a sofrência já começa a bater pela demora sem fim. Pra finalizar, Mais Fortes Juntos é um excelente acréscimo à série que mostra como um relacionamento adolescente entre dois garotos adoráveis, que aprendem com os erros e os acertos, e que amadurecem com o tempo pode ensinar várias coisas até mesmo aos mais experientes. Hearstopper é uma série que adoro e que deixa o coração quentinho.

As Foices - Neal Shusterman

4 de dezembro de 2023

Título:
 As Foices: Contos do Universo de Scythe
Autor: Neal Shusterman
Editora: Seguinte
Gênero: Distopia/Jovem Adulto
Ano: 2023
Páginas: 416
Nota★★★★☆
Sinopse: Em treze contos inéditos, Neal Shusterman e mais seis grandes autores da literatura jovem nos fazem viajar pela linha do tempo da trilogia Scythe e revisitar os conflitos dos ceifadores.
Depois do último volume da trilogia Scythe, ainda existem inúmeras histórias da era pós-mortal para serem contadas. Afinal, a humanidade pode até ter vencido a miséria, as doenças e a própria morte, mas nem mesmo a inteligência artificial da Nimbo-Cúmulo foi capaz de resolver todas as angústias e os conflitos éticos dos seres humanos ― especialmente dos ceifadores.
Com a colaboração dos autores David Yoon, Jarrod Shusterman e Sofia Lapuente, Joelle Shusterman, Michael H. Payne e Michelle Knowlden, Neal Shusterman nos mostra quão extenso, intrigante e arrebatador é o mundo distópico de Scythe. Em treze histórias que se passam antes, durante e depois dos eventos retratados na série, essa coletânea segue investigando as aflições e os questionamentos de todos os indivíduos diante dessa sociedade distópica.

Resenha: Fazendo um apanhado geral, a trilogia Scythe, escrita pelo autor Neal Shusterman, é uma distopia futurística que aborda a superação humana sobre todos os malefícios da vida a ponto de a morte ser algo completamente contornável, mas ainda assim necessária. Nesse cenário, onde ciência e tecnologia venceram, Citra e Rowan são dois adolescentes que entram para a Ceifa e se tornam aprendizes de ceifadores, que são aqueles responsáveis por "coletar" vidas a fim de manter o equilíbrio populacional. É um trabalho difícil, mas bastante nobre e respeitado por todos devido à sua importância. Porém, no desenrolar da trama, eles acabam descobrindo que a Ceifa foi corrompida e alguns ceifadores imorais, deslumbrados com esse poder, estavam indo contra as leis absolutas criadas pela inteligência artificial que governa o mundo visando o melhor para a humanidade, a Nimbo Cúmulo. Logo, o casal de protagonistas se infliltra nesse meio pra tentarem dar jeito nesse problema.

Com a trilogia concluída, o autor, em cooautoria com outros seis escritores de literatura juvenil, apresentou treze contos que se desenrolam antes, durante e após os eventos da série, formando histórias individuais e bastante convincentes. Esses contos buscam explicar e aprofundar-se em algumas situações, investigar questionamentos e aflições individuais, destacando que, apesar da humanidade estar na era pós-mortal e ter superado adversidades e a própria morte, nem mesmo a Nimbo-Cúmulo conseguiu resolver as questões mais íntimas dos seres humanos, incluindo a moralidade dos ceifadores, que é um dos pontos mais interessantes da série.

Scythe é uma das distopias mais incríveis que já li e, quando vi que um livro de contos desse universo seria lançado, fiquei bastante empolgada pra matar a saudade. O problema é que a experiência não foi como eu imaginei. Acho que livros de uma série que tem um intervalo grande de lançamento entre eles acabam quebrando o clima de leitura, às vezes sendo preciso até a necessidade de reler os livros anteriores para que os detalhes sejam relembrados e os personagens reconhecidos. O primeiro livro foi lançado em 2017 e a sequência saiu em 2018. O desfecho foi sair em 2020 e agora, três anos depois, sai o livro de contos. Acho que eu teria gostado e me envolvido muito mais se esse intervalo fosse menor, justamente pra não dar tempo de "esfriar" o interesse.

Não vou me aprofundar muito em cada conto, mas já adianto que dos 13, achei que só a metade foi relevante e realmente acrescentaram algo ao que já foi estabelecido. O 6º conto, entitulado "Um Minuto Marciano", talvez tenha sido o mais interessante da coletânea pois vai abordar a origem de Goddard em meio a um cenário de colonização em Marte. O conceito de colonos interplanetários foi incrível mostrando Marte sendo preparada para futuros moradores. Goddard foi um vilão ardiloso por toda a trilogia, então achei super interessante voltar ao passado dele e ter esse vislumbre de sua juventude no espaço.

Os melhores contos foram aqueles que falaram sobre personagens já conhecidos. Senti falta da presença de Citra e Rowan nesses contos pois, afinal, eles eram os protagonistas. Aparecer somente em menções feitas pelos outros foi um pouco frustrante. Os contos são narrados em terceira pessoa e às vezes há uma leve mudança de tom devido ao fato de alguns deles terem sido escritos em conjunto com outros autores, mas num geral, os contos foram divertidos e conseguiram trazer várias mensagens que causam impacto e enriquecem a história como um todo.

No mais, se você gostou da trilogia, com certeza vai se surpreender e aproveitar muito. Embora alguns contos pareçam não acrescentar muita coisa, não deixa de ser uma forma do autor ampliar a dinâmica e a visão de determinadas situações, responder perguntas que ficaram sem respostas e enriquecer ainda mais o universo que ele criou. Se você nunca leu os livros anteriores, este não fará sentido nenhum, então corre pra ler primeiro que vale a pena demais.

Admirável Mundo Novo - Edição em Quadrinhos - Aldous Huxley

17 de novembro de 2023

Título: Admirável Mundo Novo
Autor: Aldous Huxley
Ilustrações: Fred Fordham
Editora: Quadrinhos na Cia
Gênero: Graphic Novel/Romance/Distopia/Clássico
Ano: 2023
Páginas: 240
Nota: ★★★★☆
Sinopse: Publicado originalmente em 1932, o clássico de Aldous Huxley é uma obra incontornável, olhar agudo e profético acerca do autoritarismo e reflexão poderosa sobre temas como hedonismo e controle, humanidade e tecnologia.
Na Londres de 2540, para tentar pôr fim às guerras que ameaçavam destruir a espécie humana, um governo totalitário mundial impõe o mais completo controle sobre a reprodução: pais e mães são extintos, bebês passam a ser criados em laboratório. Num mundo dividido em castas, o psicólogo Bernard Marx sente-se inadequado quando se compara aos outros seres de seu grupo. Ao descobrir uma “reserva histórica” que preserva costumes de uma sociedade anterior – muito semelhante à nossa –, Bernard vai desafiar a ordem vigente.
Adaptada e ilustrada pelo quadrinista britânico Fred Fordham, e dialogando com uma rica tradição visual de histórias de ficção científica, esta graphic novel é capaz de magnetizar os fãs da obra-prima de Huxley e servir de porta de entrada para uma nova geração de leitores.

Resenha: Admirável Mundo Novo foi publicado originalmente na década de 30 pelo escritor inglês Aldous Huxley. O livro é um clássico que já foi publicado em vários países e traduzido para diversos idiomas. A obra ganhou uma adaptação em quadrinhos que foi publicada pelo selo Quadrinhos da Cia, da Companhia das Letras, no Brasil.

A trama se passa em Londres no ano de 2540 e, para tentar pôr fim às guerras que ameaçavam destruir a espécie humana, um governo totalitário mundial impõe o mais completo controle sobre a reprodução da população: pais e mães são extintos, e os bebês passam a ser criados num enorme e moderno laboratório. A sociedade foi condicionada e estruturada tendo como base a conformidade, onde aceitam tudo que lhes são impostos, incluindo a ideia de que todo mundo pertence a todo mundo. Eles foram ensinados desde bebês desempenhar papéis na sociedade de forma a ignorar qualquer conhecimento que trouxesse sabedoria e pudesse fazer com que questionassem o sistema, além de prezarem pelo prazer e bem estar sensorial através de uma droga chamada "soma". O mundo foi dividido em castas e o psicólogo Bernard Marx, um alfa (a casta superior), sente-se inadequado e não se conforma quando se compara aos outros seres de seu grupo, e caso questione, será punido. Ao descobrir uma reserva selvagem localizada numa área que o Estado não controla e que preserva costumes "primitivos" de uma sociedade anterior, Bernard vai desafiar a ordem vigente. A viagem seria uma forma dele tentar fugir do controle e das restrições impostas pelo sistema, assim como encontrar um propósito de vida.

Bernard e Lenina Crowne, uma beta (a casta abaixo dos alfa) conformada que se submete ao controle do sistema, viajam juntos para a reserva, e lá eles encontram um grupo de pessoas que não foram condicionadas, incluindo Linda e seu filho biológico John. Diferentemente das pessoas da cidade e até de sua própria comunidade, John trem um senso crítico diferenciado, cresceu tendo acesso a vários livros e aprendeu sobre filosofia, individualidade e ~liberdade~.
Quando Bernard e Lenina decidem levar John de volta ao mundo civilizado com intenção de que ele talvez pudesse apontar as falhas do sistema, as coisas começam a sair fora de controle. John não consegue se adaptar e passa a viver um inferno quando se torna uma "aberração" e objeto da curiosidade alheia.


As ilustrações de Fred Fordham detalham bastante, através das expressões dos personagens, o quanto eles estão absortos nesse universo, seja quando demonstram obediência, apatia ou satisfação diante de alguém ou alguma situação habitual. O estilo cyberpunk dá todo aquele ar futurístico ao cenário e combina bastante com a proposta.
O livro retrata o uso de drogas como um "vício agradável" para tornar as pessoas sempre felizes e despreocupadas, há orgias e nudez, mas nunca de forma explícita. Inclusive os ângulos frontais, o posicionamento dos personagens e até os balões de diálogos acabam escondendo as partes e apenas sugerem a nudez.

Não sei se o fato do livro ter sido adaptado interferiu na fluidez da obra, mas senti que a história estava fragmentada, como se faltasse maiores explicações para determinadas situações. Mas não nego que a história seja impactante, principalmente pelo teor profético relacionado ao autoritarismo, tecnologia e controle da sociedade visando um tipo de utopia absurda que o autor criou.
"Este é o segredo da felicidade e virtude - amar o que se é obrigado a fazer."
Pág. 18
É interessante como o autor cria uma sociedade livre de dor e sofrimento, da falta de propósito e da proibição de se ter ambições de vida, e de como a busca por essa felicidade sintética é algo tão fútil quanto inútil. Se trata de uma sociedade perfeita, onde as pessoas são obrigadas a serem felizes enquanto são oprimidas, onde o direito da escolha não existe, onde elas sequer podem passar pela experiência de serem infelizes como consequência dessas decisões. E nesse contexto de falta de liberdade, falta de autenticidade e falta de autonomia, o que resta é questionarmos se vale a pena pagar esse preço.
As críticas de Huxley são bastante relevantes quando mostram que o avanço da tecnologia e da engenharia genética são capazes de criar propositalmente pessoas com o QI baixo para realizarem as tarefas básicas na sociedade sem questionar, sem intenção de crescer progredir, e sendo sempre felizes ao desempenharem as mais ridículas funções. O autor também aborda as questões sexuais como algo essencial para a felicidade dos indivíduos, mas a monogamia é condenada e as pessoas são incentivadas a sempre buscarem o máximo de parceiros diferentes sem se envolverem emocionalmente. Achei um tanto exagerado, mas entendi a significância dessas situações no contexto da história e porque as pessoas acham isso normal visto que foram programadas para isso desde que se entendem por gente.
Como tudo é sempre muito superficial, as experiências são passageiras, tudo é descartável e nada precisa fazer sentido. Pra que consertar algo se podemos jogar fora e comprar um novo?



No mais, apesar de eu não ter lido a obra original, captei a ideia tenebrosa dessa distopia que torna os indivíduos seres impessoais, desprovidos de senso crítico e sempre pressionados a se conformar com tudo aquilo que lhes são impostos. Não acho que algo do tipo tenha qualquer chance de se tornar realidade no futuro, mesmo que se passem milênios, mas é o tipo de história que faz o leitor refletir sobre a sociedade, sobre a importância da individualidade, do poder da escolha, e sobre a obsessão (muitas vezes vazia) pelo prazer.


Holly - Stephen King

15 de novembro de 2023

Título:
 Holly
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Gênero: Suspense/Mistério/Policial
Ano: 2023
Páginas: 448
Nota: ★★★★★
Sinopse: Holly Gibney surgiu tímida e reclusa em Mr. Mercedes e se tornou uma detetive particular talentosa. Neste romance inédito de Stephen King, ela retorna para enfrentar dois adversários perversos.
Penny Dahl está desesperada para encontrar a filha, Bonnie, que sumiu sem deixar vestígios. Em busca de ajuda profissional, ela liga para a agência Achados e Perdidos, sob o comando de Holly Gibney. A detetive reluta em aceitar o caso, porque deveria estar de licença, mas algo na voz de Penny faz com que Holly não consiga ignorar o pedido.
A poucos quarteirões de onde Bonnie foi vista pela última vez, moram Rodney e Emily Harris. Um casal de acadêmicos octogenários, dedicados um ao outro, eles simbolizam a banalidade da classe média suburbana. No entanto, no porão de sua casa bem cuidada e repleta de livros, os dois escondem um segredo terrível, que pode estar relacionado ao desaparecimento de Bonnie.
Descobrir a verdade se torna uma tarefa quase impossível, e Holly dependerá de seus talentos extraordinários para desmascarar os professores ― antes que eles ataquem novamente.

Resenha:
 Ambientado em plena pandemia de Covid 19 em 2021, a detetive particular Holly Gibney se depara com um caso de desaparecimento do qual ela não pôde recusar, mesmo que estivesse de licença. Bonnie sumiu sem deixar vestígios e sua mãe, desesperada, vai até a agência "Achados e Perdidos" pedir ajuda para Holly e convencê-la a encontrar a filha.
A poucos quarteirões de onde Bonnie foi vista pela última vez, há uma casa bem cuidada onde vive um casal de professores acadêmicos octogenários que, aparentemente, estão acima de qualquer suspeita. O que ninguém imagina é que há algo de sinistro acontecendo no porão dessa casa e que pode ter relação com o sumiço de Bonnie, logo cabe a Holly usar seu talento para descobrir a verdade, desmascarar os professores e impedir outro ataque.

Antes de dar minha opinião, vou dizer que não li a trilogia Bill Hodges, onde a protagonista aparece pela primeira vez. As resenhas disponíveis aqui no blog foram feitas pelo Lucas, na época em que ele ainda era colaborador, e eu acabei não tendo a oportunidade de ler esses livros (ainda). Talvez fizesse alguma diferença ou desse uma noção melhor do que esperar dela pois, pelo que pesquisei, há muita informação sobre Holly e seu passado na trilogia que não é abordada nessa obra. Claro que é possível ler este sem ter lido os outros livros e sem risco de se perder, mas com um conhecimento prévio talvez a experiência poderia ter sido diferente, não sei.

Diferente de histórias policiais onde o autor segura a identidade do vilão até a última página, aqui os maníacos já são revelados no começo. A expectativa é acompanhar pra saber quando vão ser descobertos e como (e se) isso vai acontecer. King já fez isso em outros de seus livros e é um formato que funciona muito bem pois ele consegue conduzir a história mantendo o suspense e o mistério para os personagens que estão envolvidos alí mas não sabem o que está acontecendo. Narrado em terceira pessoa, com capítulos que se alternam entre presente e passado dos personagens, vamos acompanhando Holly em meio às investigações, além dos detalhes dos crimes horrendos cometidos pelo casal de professores. As motivações para os crimes são expostas, assim como o modus operandi desses dois, que é usar a aparência inofensiva para atrair e capturar as vítimas até que sejam levadas ao porão. Várias cenas são desesperadoras, causam muito desconforto, são bizarras, e o nível de crueldade chega a revirar o estômago. É uma representação muito extrema do que é a maldade humana.

Eu realmente gostei muito da história, fiquei super envolvida e até agoniada em diversas cenas bizarras e apavorantes. A Covid 19 foi praticamente um personagem da história e fiquei com a impresão de que o autor estava um tanto indignado e quis politizar o tema, não só se posicionando contra o governo da época, mas mostrando o contraste enorme entre aqueles que levam o perigo da doença a sério e se protegem, e os birutas negacionistas que não estão nem aí ou recorrem a "tratamentos" que não existem. Essas questões políticas e sociais acabam trazendo muita realidade à trama, até mesmo porque também representa o que vivenciamos aqui no Brasil. O autor retrata os acontecimentos que o mundo inteiro passou, assim como incorpora o comportamento das pessoas em quarentena diante da insegurança, da confusão e do medo de não saberem o que estava por vir.

Holly é uma mulher madura e muito persistente que precisa lidar com os próprios desafios pessoais enquanto se dedica ao trabalho com bastante afinco. A história, que já é rica devido aos detalhes do mistério que gira em torno dos crimes, fica ainda mais interessante quando as camadas da vida de Holly começam a ser reveladas. E tudo isso em meio a pandemia onde todas as pessoas ou estão sem saber o que fazer por nunca terem tido uma experiência desse nível na vida, ou estão se comportando feito loucas por não acreditarem que aquilo é real.
Os demais personagens também são bem construídos e desempenham papeis relevantes e importantes para Holly no que diz respeito às investigasções e até a sua própria rotina.

Um ponto que achei genial é a dualidade criada por King ao retratar esse casal. Ao mesmo tempo em que eles representam a banalidade da classe média que vive no suburbio, eles representam o que há de pior no ser humano, mostrando que por trás de uma aparência inofensiva, algo de terrível pode estar escondido e não se pode confiar em ninguém.

No mais, pra quem é fã de Stephen King, já sabe o que esperar do mestre. Recomendo muito a leitura, principalmente pela ideia do autor de inserir o tema da pandemia à história de forma orgânica e imersiva, mostrando que o horror vai além do true crime, e que a vida de milhões esteve nas mãos de pessoas limitadas, imbecis, egocêntricas e só tomaram decisões horríveis que resultaram no que todos nós testemunhamos, não só nos EUA, mas por aqui também...

Está Tudo Bem - Vol.1 - Mike Birchall

13 de novembro de 2023

Título:
 Está Tudo Bem - Vol.1
Autor: Mike Birchall
Editora: Suma
Gênero: HQ/Distopia
Ano: 2023
Páginas: 272
Nota:★★★★★
Sinopse: Sam e Maggie são um casal perfeitamente normal, que mora em um bairro perfeitamente normal, com um cachorro, chamado Winston, perfeitamente normal. Todas as casas da vizinhança são iguais. As pessoas são parecidas e falam de maneira similar. Olhando de fora, está tudo bem. Mas… será que está mesmo?
Já faz algum tempo que o adorável Winston está morto. Sam e Maggie começam a ter dificuldades para manter a imagem da vida suburbana perfeita. O mistério continua e, apesar de estarem tão “bem” quanto possível, eles são vigiados por câmeras e passam a questionar as próprias decisões. Reprimindo sentimentos, ocultando lembranças e vivendo estranhamente desconectados, os dois estão a apenas um equívoco de algo muito mais sinistro.
Em uma sociedade controladora que pune rigorosamente os que questionam e se rebelam, o que acontece quando, na realidade, não está tudo bem?
O volume 1 de Está Tudo Bem reúne os episódios 1 a 16 do Webtoon Everything is Fine e inclui conteúdo extra inédito.

Resenha: Inspirada em 1984, de George Orwell, e indicada ao prêmio Harvey, Está Tudo Bem, criada por Mike Birchall e publicada pela Suma, é a série mais popular do Webtoon na categoria horror. 


Nela acompanhamos o casal Sam e Maggie, que vivem felizes com seu cachorro chamado Winston numa vizinhança aparentemente normal onde todos são educados e muito amigáveis. Eles convivem bem com seus vizinhos, Linda e Bob, e sempre comentam sobre suas rotinas. Há câmeras por todos os lados e todo mundo é vigiado, logo é preciso falar as coisas certas e na hora certa para que não haja a menor suspeita de que algo possa estar fora de ordem e controle.

Winston já está morto atrás do sofá há sabe-se lá quanto tempo, mas o casal faz de conta que tudo está bem pra manter as aparências, fazendo até questão de chamá-lo pra comer em alto e bom som. Eles também passam os dias reprimindo sentimentos, mantendo conversas desconexas, tentando se adaptar e tentando esquecer lembranças de acontecimentos passados, o que sugere que algo de muito errado deve estar acontecendo. Quando Charlie, o vizinho da casa a frente, chama Maggie para lhe mostrar algo no porão de sua casa, algo estranho e inesperado acontece, e Maggie toma uma decisão radical que mudaria todo o rumo de sua vida e do seu marido.



A HQ conta com ilustrações em tons pastéis e traços fofos e delicados que constrastam bastante com o mundo distópico e assombroso criado pelo autor. Os personagens vivem suas vidas perfeitas, numa sociedade modelo, mas pra se manter a ordem há um custo a se pagar. Todos eles usam essa enorme cabeça de gatinho que sempre esboça a mesma expressão de ternura independente da situação, escondendo suas reais feições, fazendo com que o leitor só possa imaginar pelo que estão passando e como estão reagindo a isso.

Essa áurea de mistério e suspense só atiça a nossa curiosidade pra saber por que eles se comportam assim, quem os vigia, por que suas conversas sempre são irreais e enigmáticas, por que sempre precisam fingir que tudo está bem, por que eles param o que estão fazendo e mudam de atitude quando um sinal de alerta é ativado num de seus olhos, e que diabo de vibe creepy é essa que ronda esse pessoal. Vê-los topando com cenas assustadoras e continuarem agindo com suas "carinhas felizes" como se não fosse nada demais chega a dar calafrios na espinha. A vontade de saber por que parecem tão atormentados, o que eles querem tanto esquecer, ou o que há no porão de Charlie também é enorme.




Eu não conhecia a websérie e confesso ter ficado interessada na leitura logo que vi a capa. Depois vi qual foi a inspiração do autor e fiquei ainda mais curiosa, mas não pesquisei a respeito pra ler na intenção de ser surpreendida e fiquei com as expectativas lá nas alturas. Por ter 1984 como inspiração já imaginava que pudesse ter algo relacionado a um governo totalitário, inclusive o nome do pobre do cachorro já faz uma homenagem ao protagonista do clássico de Orwell.

Durante a leitura, fiquei com aquela sensação de ameaça no ar, e senti um desconforto e um pavor real por perceber que existe algo de errado mas não saber o que é, mesmo quando Maggie toma a atitude mais drástica de sua vida. Nesse ponto, o livro simplesmente termina e resta ao leitor esperar pelo próximo volume pra continuar acompanhando e saber o que está acontecendo e quais serão os próximos desafios que Sam e Maggie vão precisar enfrentar agora que "acordaram".


No mais, eu gostei muito da leitura, fiquei presa até a última página e super indico. Apesar de ser só a introdução da história e dar quase nada de informações, realmente me surpreendeu porque aguçou minha curiosidade com um tema interessante e pesado sob um visual bonitinho. Não se enganem com os rostinhos felizes dos "gatinhos", há cenas bem cruéis que envolvem violência e sangue que chegam a arrepiar. Só espero que a continuação não demore muito pra sair porque a curiosidade bateu forte por aqui.

Perfeita (na teoria) - Sophie Gonzales

17 de outubro de 2023

Título:
 Perfeita (na teoria)
Autora: Sophie Gonzales
Editora: Seguinte
Gênero: Jovem Adulto/Romance
Ano: 2023
Páginas: 352
Nota:★★★★☆
Sinopse: Darcy Phillips tem a solução ideal para qualquer problema de relacionamento. Pelo armário 89 do colégio, ela recebe cartas desesperadas de alunos pedindo conselhos e depois responde tudo por um e-mail anônimo ― mediante pagamento. É o negócio perfeito.
Ironicamente, sua vida amorosa é um desastre: há anos, ela é apaixonada por sua melhor amiga e não tem coragem de se declarar. Mas Darcy convive bem com todos esses segredos, até que Alexander Brougham, o atleta da escola, a flagra pegando as cartas do armário e coloca tudo a perder.
Em troca de manter seu anonimato, ela concorda em ajudar Brougham a voltar com a ex-namorada. Parece uma tarefa simples: dar umas dicas para um cara gato (mas muito arrogante) a reconquistar uma garota que já foi completamente apaixonada por ele. Mas Darcy logo vai descobrir que nada é tão simples quanto parece.

Resenha: Darcy Philips é o tipo de garota que não só ajuda os amigos dando dicas objetivas para resolver seus problemas amorosos, ela também os ajuda a enfrentar suas questões emocionais e é a consultora de relacionamentos da escola. Darcy faz tudo isso mantendo sua identidade em segredo: ela recebe cartas com pedidos de socorro que os alunos colocam num armário sem dono da escola, pega tudo secretamente e depois responde o povo por um email anônimo sob o pseudônimo de "Armário 89", dando a solução pro problema que for, e ainda ganha uns trocados com esse "serviço". A hipocrisia nessa história é que Darcy, que é bissexual, é apaixonada por sua melhor amiga, Brooke, mas não tem coragem de se declarar, e fica nesse impasse.
Até então ela convive bem com a forma como está levando sua vida e seu negócio secreto, mas isso foi até Alexander Brougham, o atleta babaca da escola, ver Darcy pegando as cartas no famigerado armário e descobrindo a identidade secreta da famosa consultora. O espertinho poderia colocar tudo a perder mas, em troca de manter o bico calado, ele chantageia pede ajuda a Darcy para voltar com a ex namorada. A princípio, a tarefa era algo simples e nada que fugisse do que Darcy já tem costume de lidar, mas não dessa vez... Brougham, o cara que ela considera o maior idiota da escola, começa a atrair sua atenção. E o dilema não pára por aí, pois ainda existe o risco de Brooke descobrir tudo e Darcy perder a amizade dela. E agora?

Narrado em primeira pessoa, Perfeita (na teoria) é um romance leve, envolvente e muito bem escrito, com toques de um humor autodepreciativo que aborda a vida e o cotidiano de adolescentes que são imperfeitos, assim como qualquer pessoa, que cometem erros, que guardam segredos, que magoam os outros, mas aprendem com eles e ainda amadurecem. Os personagens tem uma dinâmica muito boa, independente do grau de proximidade ou parentesco que tenham, o que deixa a história movimentada e bastante fluída e, além disso, o elenco tráz uma representação LGBTQIA+ incrível.
Além da protagonista bissexual, Brooke é lésbica, a irmã de Darcy está em transição, e elas ainda fazem parte do grupo Queer da escola.

É interessante acompanhar Darcy e seus dilemas, pois ela é a especialista, tem respostas pra tudo, sabe resolver os problemas amorosos dos outros caso contrário devolve o dinheiro deles, mas por mais que seus conselhos e orientações sejam totalmente eficazes, eles não servem pra ela mesma pois é muito mais fácil ver a situação de fora e não estar emocionalmente envolvido no caso. E geralmente é isso que acontece com as pessoas comuns, que vivem dando palpites nos relacionamentos alheios quando vêem as coisas erradas, mas não conseguem enxergar o que elas mesmas vivem para seguir o conselho mais óbvio e que talvez ela mesma daria pra outra pessoa vivendo a mesma situação.

A questão da bissexualidade de Darcy foi explorada de uma forma super inteligente, mostrando inclusive o lado da bifobia, mas achei legal a história se passar em meio a adolescentes, pois geralmente é a época da descoberta, onde os envolvidos passam pelos maiores conflitos pessoais e as autodescobertas. É um drama de ensino médio aparentemente "bobo"? Talvez, mas eu achei super válido e é aquele tipo de leitura que faz o leitor refletir, que esclarece muito sobre sexualidade e ainda dá aquele quentinho gostoso no coração pelas coisas que vão acontecendo, principalmente quando Darcy e Brougham vão se aproximando mais e ele se revela alguém super fofo e respeitoso, e não aquele imbecil que ele parecia ser no início. É muito satisfatório acompanhar um personagem masculino que respeita limites, as vontades e a opinião das outras pessoas, ainda mais quando são mulheres. Parece uma coisa boba, ainda mais vindo de adolescentes, mas é algo muito bacana de se acompanhar quando a gente pensa que aqui na vida real tem um bando de neandertais a solta por aí que estão pouco se lixando pro que as mulheres são, pensam e querem de verdade.

No mais, é aquele tipo de livro pra sair de uma ressaca literária, pra ler sem compromisso e se divertir, pra rir, pra chorar e pra morrer de amores.