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Holly - Stephen King

15 de novembro de 2023

Título:
 Holly
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Gênero: Suspense/Mistério/Policial
Ano: 2023
Páginas: 448
Nota: ★★★★★
Sinopse: Holly Gibney surgiu tímida e reclusa em Mr. Mercedes e se tornou uma detetive particular talentosa. Neste romance inédito de Stephen King, ela retorna para enfrentar dois adversários perversos.
Penny Dahl está desesperada para encontrar a filha, Bonnie, que sumiu sem deixar vestígios. Em busca de ajuda profissional, ela liga para a agência Achados e Perdidos, sob o comando de Holly Gibney. A detetive reluta em aceitar o caso, porque deveria estar de licença, mas algo na voz de Penny faz com que Holly não consiga ignorar o pedido.
A poucos quarteirões de onde Bonnie foi vista pela última vez, moram Rodney e Emily Harris. Um casal de acadêmicos octogenários, dedicados um ao outro, eles simbolizam a banalidade da classe média suburbana. No entanto, no porão de sua casa bem cuidada e repleta de livros, os dois escondem um segredo terrível, que pode estar relacionado ao desaparecimento de Bonnie.
Descobrir a verdade se torna uma tarefa quase impossível, e Holly dependerá de seus talentos extraordinários para desmascarar os professores ― antes que eles ataquem novamente.

Resenha:
 Ambientado em plena pandemia de Covid 19 em 2021, a detetive particular Holly Gibney se depara com um caso de desaparecimento do qual ela não pôde recusar, mesmo que estivesse de licença. Bonnie sumiu sem deixar vestígios e sua mãe, desesperada, vai até a agência "Achados e Perdidos" pedir ajuda para Holly e convencê-la a encontrar a filha.
A poucos quarteirões de onde Bonnie foi vista pela última vez, há uma casa bem cuidada onde vive um casal de professores acadêmicos octogenários que, aparentemente, estão acima de qualquer suspeita. O que ninguém imagina é que há algo de sinistro acontecendo no porão dessa casa e que pode ter relação com o sumiço de Bonnie, logo cabe a Holly usar seu talento para descobrir a verdade, desmascarar os professores e impedir outro ataque.

Antes de dar minha opinião, vou dizer que não li a trilogia Bill Hodges, onde a protagonista aparece pela primeira vez. As resenhas disponíveis aqui no blog foram feitas pelo Lucas, na época em que ele ainda era colaborador, e eu acabei não tendo a oportunidade de ler esses livros (ainda). Talvez fizesse alguma diferença ou desse uma noção melhor do que esperar dela pois, pelo que pesquisei, há muita informação sobre Holly e seu passado na trilogia que não é abordada nessa obra. Claro que é possível ler este sem ter lido os outros livros e sem risco de se perder, mas com um conhecimento prévio talvez a experiência poderia ter sido diferente, não sei.

Diferente de histórias policiais onde o autor segura a identidade do vilão até a última página, aqui os maníacos já são revelados no começo. A expectativa é acompanhar pra saber quando vão ser descobertos e como (e se) isso vai acontecer. King já fez isso em outros de seus livros e é um formato que funciona muito bem pois ele consegue conduzir a história mantendo o suspense e o mistério para os personagens que estão envolvidos alí mas não sabem o que está acontecendo. Narrado em terceira pessoa, com capítulos que se alternam entre presente e passado dos personagens, vamos acompanhando Holly em meio às investigações, além dos detalhes dos crimes horrendos cometidos pelo casal de professores. As motivações para os crimes são expostas, assim como o modus operandi desses dois, que é usar a aparência inofensiva para atrair e capturar as vítimas até que sejam levadas ao porão. Várias cenas são desesperadoras, causam muito desconforto, são bizarras, e o nível de crueldade chega a revirar o estômago. É uma representação muito extrema do que é a maldade humana.

Eu realmente gostei muito da história, fiquei super envolvida e até agoniada em diversas cenas bizarras e apavorantes. A Covid 19 foi praticamente um personagem da história e fiquei com a impresão de que o autor estava um tanto indignado e quis politizar o tema, não só se posicionando contra o governo da época, mas mostrando o contraste enorme entre aqueles que levam o perigo da doença a sério e se protegem, e os birutas negacionistas que não estão nem aí ou recorrem a "tratamentos" que não existem. Essas questões políticas e sociais acabam trazendo muita realidade à trama, até mesmo porque também representa o que vivenciamos aqui no Brasil. O autor retrata os acontecimentos que o mundo inteiro passou, assim como incorpora o comportamento das pessoas em quarentena diante da insegurança, da confusão e do medo de não saberem o que estava por vir.

Holly é uma mulher madura e muito persistente que precisa lidar com os próprios desafios pessoais enquanto se dedica ao trabalho com bastante afinco. A história, que já é rica devido aos detalhes do mistério que gira em torno dos crimes, fica ainda mais interessante quando as camadas da vida de Holly começam a ser reveladas. E tudo isso em meio a pandemia onde todas as pessoas ou estão sem saber o que fazer por nunca terem tido uma experiência desse nível na vida, ou estão se comportando feito loucas por não acreditarem que aquilo é real.
Os demais personagens também são bem construídos e desempenham papeis relevantes e importantes para Holly no que diz respeito às investigasções e até a sua própria rotina.

Um ponto que achei genial é a dualidade criada por King ao retratar esse casal. Ao mesmo tempo em que eles representam a banalidade da classe média que vive no suburbio, eles representam o que há de pior no ser humano, mostrando que por trás de uma aparência inofensiva, algo de terrível pode estar escondido e não se pode confiar em ninguém.

No mais, pra quem é fã de Stephen King, já sabe o que esperar do mestre. Recomendo muito a leitura, principalmente pela ideia do autor de inserir o tema da pandemia à história de forma orgânica e imersiva, mostrando que o horror vai além do true crime, e que a vida de milhões esteve nas mãos de pessoas limitadas, imbecis, egocêntricas e só tomaram decisões horríveis que resultaram no que todos nós testemunhamos, não só nos EUA, mas por aqui também...

Conto de Fadas - Stephen King

28 de dezembro de 2022

Título:
 Conto de Fadas
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Gênero: Fantasia
Ano: 2022
Páginas: 624
Nota:★★★★☆
Sinopse: Aos dezessete anos de idade, Charlie Reade parece ser um garoto comum: pratica esportes, é um filho atencioso e aluno de desempenho razoável. Suas lembranças, entretanto, não são feitas apenas de momentos felizes. Após perder a mãe em um grave acidente quando tinha apenas dez anos, Charlie precisou aprender a cuidar de si e do pai, que, enlutado com a perda da esposa, buscou refúgio na bebida.
Certo dia, ao pedalar pela rua de casa, Charlie atende um pedido de socorro vindo do quintal de um dos vizinhos: Howard Bowditch. O homem recluso e rabugento, que amedrontava as crianças do bairro, cai de uma escada e se machuca gravemente. O chamado por ajuda veio de Radar, a fiel pastor alemão, tão idosa quanto seu dono.
Enquanto Bowditch se recupera, Charlie passa a ajudar o vizinho com tarefas domésticas e com o cuidado de Radar, e assim o rapaz faz duas grandes amizades. Quando Howard morre, Charlie se depara com uma fita cassete que revela um segredo inimaginável: um portal para outro mundo.

Resenha: Charlie Reade é um jovem de dezessete anos que teve a infância e a adolescência bastante conturbada após perder a mãe num acidente de carro. Como se a morte da mãe já não fosse uma tragédia traumática o bastante, Charlie ainda teve que lidar com o pai que, desolado pela perda, acabou afogando as mágoas na bebida, se tornando alcóolatra. Toda a situação fez com que Charles amadurecesse muito cedo ao acabar sendo o responsável pelos cuidados com o pai passando por anos de muita luta.
Até que um dia Charlie escuta a cadela Radar uivando sem parar, numa tentativa de pedir ajuda para seu dono, o velho Howard Bowditch, que havia sofrido um acidente na escada de casa. Depois de ajudar Bowditch, Charlie se aproxima desse senhor recluso e rabugento para ajudá-lo nas tarefas de casa e com os cuidados de Radar enquanto ele se recuperava, e a amizade que surge entre eles vai mudar tudo na vida do garoto. Bowditch está rodeado de mistérios que desperta a curiosidade de Charlie, mas quando Bowditch morre é que o garoto descobre que o velho escondia um segredo que ninguém jamais poderia imaginar: um portal para outro mundo. 

A história pode ser dividida em três partes, onde a primeira tráz o contexto da relação do protagonista com o pai e as dificuldades pelas quais ele passou, e ainda assim mostrando o quanto Charlie não é um garoto perfeito, mesmo que seja bondoso, esforçado e leal aos seus valores; a segunda parte com o desenvolvimento da amizade entre ele, Bowditch e Radar; e a terceira parte onde ele entra no portal e embarca numa jornada cheia de aventuras e referências a diversos contos de fadas em suas versões mais sombrias.
O livro é narrado em primeira pessoa num ritmo bem lento, e vamos acompanhando o próprio Charlie contando essa história de vida, permitindo ao leitor ter uma experiência literária a la King, com descrições minuciosas a se perder de vista acerca dos mistérios da cidadezinha, da fantasia propriamente dita no mundo de Empis, e das camadas que envolvem os personagens, mostrando as questões referentes ao amadurecimento precoce de Charlie e seus dilemas, a amizade improvável com o velho implicante da vizinhança e com as responsabilidades que ele toma pra si mesmo.

Não vou negar que em diversos momentos eu não consegui enxergar Charlie como se fosse um garoto de dezessete anos, pois muitos de seus pensamentos e atitudes parecem não corresponder muito com a idade dele e ele parece ser bem mais velho (não sei se entra a questão do próprio autor parecer estar parado no tempo e não estar nada familiarizado com os "xóvens" de hoje em dia). Outra coisa é que, mesmo que haja uma explicação (que parece ter sido mais uma desculpa), não me soou muito convincente um adolescente como Charlie abrir mão de tudo pra cuidar de um velho chato que apavorava as crianças da rua, mas, tirando isso, acompanhá-lo nessa jornada do herói num mundo fantástico e cheio de perigos estando acompanhando de Radar foi até bem satisfatório. Tudo bem que nada tira da minha cabeça que o autor inseriu Radar na história pra atingir o ponto fraco dos leitores amantes de doguinhos, mas ainda assim ela é um ótimo exemplo de amizade leal e verdadeira que alguém pode ter na vida e fez toda a diferença aqui.

Acho que o livro tem partes um pouco cansativas e repetitivas, o que arrastou a leitura mais do que eu imaginei. Talvez, se fosse enxugado para que tivesse umas 400 páginas, a história poderia ser contada da mesma forma, porém com mais fluidez e agilidade. Eu gosto dos livros do King e, quando vejo algo que foge um pouco do seu terror clássico, fico animada e cheia de expectativas, porém, por mais interessante que tenha sido acompanhar Charlie nessa jornada e ter gostado muito da primeira parte do livro, a história não trouxe nada de inovador ou surpreendente, pelo menos pra mim.

Talvez pra quem ainda não conhece o estilo e a escrita de King, este não seja o melhor livro pra se começar, pois ele é bem diferente dos seus outros clássicos de terror e, mesmo que tenha toques de horror e suspense, está mais pra algo no estilo "contador de histórias", mas, pra quem gosta de fantasia com referências a se perder de vista, eu recomendo.

Fumaça Branca - Tiffany D. Jackson

13 de dezembro de 2022

Título:
Fumaça Branca
Autora: Tiffany D. Jackson
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Terrror
Ano: 2022
Páginas: 320
Nota:★★★☆☆
Sinopse: Mari não vê a hora de recomeçar. Prestes a se mudar com a família para uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos, tudo o que a garota quer é esquecer dos traumas e acreditar que o futuro lhe reserva algo melhor.
Porém, assim que chega a Cedarville, Mari nota que o lugar é um pouco estranho. Os vizinhos aparentam esconder algum segredo, e a casa onde a família vai morar ― uma construção antiga, enorme e suntuosa ― parece não receber bem os novos habitantes. Quando coisas incomuns começam a acontecer, como luzes que se apagam do nada e objetos que desaparecem, Mari se vê envolvida em uma perigosa teia de mistérios.
Mas talvez seja tudo fruto da sua imaginação. Afinal, se o pior já ficou para trás, nada mais pode dar errado…
Ou pode ?

Resenha: Marigold Anderson é uma adolescente que precisa de um novo rumo pra sua vida depois de sofrer uma overdose. Ela desenvolveu um trauma após uma infestação de percevejos e além de ter compulsão por limpeza, ela sofre de alguns transtornos psicológicos e, mesmo que tenha vontade de ficar limpa de qualquer tipo de droga depois daquele episódio, ela acredita que fumar maconha é o melhor remédio para tratar seu alto grau de ansiedade. Mari se muda com a família (sua mãe, seus irmãos, seu padrastro e a filha dele) para Cedarville, uma cidadezinha interiorana, para esse recomeço.
A fundação Sterling, num processo de gentrificação urbana, oferece uma casa histórica em reforma para a família de Mari desde que um membro da família contribua para a cidade de forma artística (a mãe de Mari é escritora), mas algo parece estar bem errado com a casa e com o bairro em si. As coisas somem, as luzes se apagam sozinhas, o porão trancado (onde eles são proibidos de ir) exala um cheiro de morte, os pedreiros fogem a partir de um determinado horário, os vizinhos são super desconfiados e estranhos, a cidade tem um histórico de violência assustador, e tudo isso deixa Mari muito intrigada. Mas a mudança era necessária, ou pelo menos é o que Marigold vem repetindo pra si mesma como parte do seu processo de cura. O que importa é que a família está confiante de que agora as coisas irão dar certo, e ignoram as coisas estranham que cercam o lugar. 

Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Marigold, Fumaça Branca é um livro de suspense com cenas que causam desconforto e até revolta, pois além das cenas que deveriam ser assustadoras que se passam dentro da casa, os acontecimentos fora dela são absurdos e abordam temas pesados como uso de drogas, fanatismo religioso, racismo e outros mistérios que demonstram claramente que algo de muito errado vem acontecendo alí.

A escrita da autora é boa no que diz respeito aos mistérios e acontecimentos, mas além de não conseguir visualizar os detalhes do cenário e da casa propriamente dita por falta de melhores descrições, não consegui me conectar muito com a leitura pois todas as coisas estranhas que acontecem parecem ter o propósito de afastar o leitor em vez de manter a curiosidade dele, mesmo que haja temas importantes a serem discutidos sobre a sociedade num geral. Achei que o ritmo da história oscila bastante e não mantém um padrão de acontecimentos, principalmente porque termina de forma abrupta e deixa o leitor sem respostas (e sem acreditar). Eu não sei se a experiência com livros de terror mais assustadores pode ter comprometido minha experiência com a leitura deste, mas fiquei com aquela sensação de que, apesar da história trazer aquela atmosfera sobrenatural, não era realmente assustadora o suficiente, só desconfortável. É como se a autora quisesse misturar os traumas da protagonista com o uso de drogas a ponto dela não saber o que é realidade e fantasia, e como a narrativa é em primeira pessoa, não sabemos se podemos confiar na palavra dela. Por um lado isso é muito interessante pois ficamos tentando decifrar as coisas junto com Mari, mas a quantidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo acaba trazendo mais confusão do que entendimento.

Mari é totalmente paranoica com a questão dos percevejos e de limpeza, o que é doentio, e em meio a narrativa sempre há uma nota dela fazendo alguma observação sobre eles, mostrando o quanto esse "tique" causa incômodo e pavor tanto nela quanto no leitor.

A dinâmica da família de Mari era interessante, pelo menos inicialmente quando eles se mudam com um propósito, mas depois as coisas começam a ficar estranhas, os problemas vão aparecendo e o único sentimento que tive foi uma grande antipatia por todos eles, mesmo que a vontade deles fosse de recomeçar.

A autora fala muito sobre a questão da revitalização e habitação do bairro, a criminalização de drogas e a prisão em massa das pessoas, e como as pessoas podem ser cruéis quando são beneficiadas de alguma forma, e de outro lado ela fala sobre esse lado sombrio dos fantasmas que tornam a casa "mal-assombrada", e fiquei com aquela sensação de que a autora quis abordar mais temas do que a história comporta, e no final nenhum deles teve o devido aprofundamento. Não achei que o aspecto sobrenatural combinou com as questões sociais levantadas aqui. Imagino que possa ser um livro pra quem tem curiosidade pelo gênero de terror e suspense, que incomode, mas não queira nada muito apavorante ou cheio de reviravoltas.

Morra por Mim - Luke Jennings

15 de setembro de 2022

Título:
 Morra por Mim - Killing Eve #3
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2022
Páginas: 216
Nota:★★☆☆☆
Sinopse: Morra por mim é uma história mordaz sobre amor e obsessão - conforme a ação se aproxima de seu desfecho avassalador, Eve e Villanelle terão que aprender a confiar uma na outra antes que suas diferenças as destruam.
A perseguição entre as duas adversárias letais aparentemente acabou. No entanto, os sentimentos que se desenvolveram entre Eve e Villanelle - tão sofisticados quanto mortais - estão longe de terminar.
Neste romance que encerra a trilogia, Villanelle busca enfrentar os demônios de sua infância e o inverno russo, e Eve se vê fugindo dos Doze, que a querem morta a qualquer custo. Em meio a uma história que vai de Londres a São Petersburgo, Eve e Villanelle, enfim, admitem sua mútua obsessão erótica, num jogo perigoso que se aproxima de uma conclusão letal.
Com uma narrativa elegante e precisa, Morra por mim é um desfecho brutal e frenético para a série de Luke Jennings.

Resenha: Morra por Mim é o último livro da trilogia Killing Eve que encerra essa saga de amor e obsessão entre Eve e Villanelle. Já adianto que essa resenha vai ter alguns spoilers, caso contrário é quase impossível escrever sobre, então se não leu nenhum dos livros, o aviso foi dado.

Após os acontecimentos do livro anterior, Eve e Villanelle agora estão juntas e prontas pra assumirem um relacionamento amoroso enquanto aprendem a confiar uma na outra depois de terem passado tanta coisa. Porém, no meio disso tudo, elas se tornaram alvo d'Os Doze, e um jogo ainda mais perigoso se inicia para as duas.

Tenho que ser sincera em dizer que a ambientação e a descrição de cada detalhe dos lugares onde a história se passa são excelentes e pelo livro ser curto, a leitura é bem rápida, mas nem tudo são flores, não é mesmo? Sabe-se lá Deus por qual motivo a narrativa sofreu uma mudança abrupta e desnecessária de terceira pra primeira pessoa, onde a história agora é contada sob o ponto de vista de Eve, e aquela mulher ingênua (porém inteligente que vimos nos outros livros), se mostrou uma idiota, e o relacionamento abusivo e doentio dela com Villanelle, além de ter surgido do completo nada, é insuportável e brochante. Essa mudança de personalidade sem a menor explicação faz parecer que quem leu perdeu alguma coisa no meio do caminho e não entendeu o que aconteceu direito.

Muitas coisas tiveram soluções convenientes que não fizeram sentido se compararmos com os outros dois livros, muita coisa ficou no ar, personagens secundários importantes pra história, que teriam tomado uma atitude em meio a todos os acontecimentos, simplesmente sumiram e azar, dentre outras patifarias. Se a ideia do autor era construir um romance verdadeiro e representar isso com duas personagens que se mostraram tão problemáticas, não funcionou pra mim. Amor e obsessão são coisas totalmente diferentes, e Eve ter se deixado levar por essa realidade tão atrativa quanto perigosa que Villanelle já estava acostumada, não justifica.
O ritmo dos acontecimentos oscila bastante nesse volume: às vezes está frenético, no meio do caminho acontecem algumas reviravoltas, às vezes fica bem lento, e às vezes acontecem coisas que surgem do além e que lembram uma fanfic tosca... Enfim.

Depois da empolgação com a melhoria da história no segundo livro, Morra por Mim veio pra estragar o que era bom. Só parece ter sido escrito pela mesma pessoa devido a famosa falta de propriedade do autor em abordar assuntos referente a sexualidade alheia que ele desconhece, e sua mania um tanto exagerada de descrever cenas eróticas gratuitas. Talvez seja melhor eu nem comentar sobre a tentativa fracassada de "inserir" o não binarismo numa personagem já existente de uma forma tão absurda que só reforçou a ideia de que o autor realmente não entende bulhufas e tem uma visão um tanto distorcida sobre esse tipo de representatividade. Talvez a intenção dele tenha sido a melhor, mas deveria ter alguma alma entendida do assunto no meio da produção pra avisar... Acho que se ele tivesse focado na ação, no suspense, na investigação e nas mortes, teria sido muito mais feliz. A escrita é boa, a leitura flui, mas o que eu li aqui foi algo que, infelizmente, conseguiu acabar com minha admiração pela história e pelas protagonistas, e só restou decepção. Triste.

Não Existe Amanhã - Luke Jennings

12 de setembro de 2022

Título:
 Não Existe Amanhã - Killing Eve #2
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2021
Páginas: 240
Nota:★★★★☆
Sinopse: Em um quarto de hotel em Veneza, onde acabou de concluir um assassinato de rotina, Villanelle recebe um telefonema tarde da noite.
Eve Polastri, a funcionária do governo inglês que está em seu encalço há meses, conseguiu rastrear um oficial do MI5 a serviço dos Doze e está prestes a levá-lo a interrogatório. Enquanto Eve se prepara para procurar respostas, tentando desesperadamente encaixar as peças de um terrível quebra-cabeça, Villanelle avança para o abate.
O duelo entre as duas mulheres se intensifica, assim como sua obsessão mútua, com a ação passando dos altos picos do Tirol até o coração da Rússia. Eve enfim começa a desvendar o enigma da identidade de sua adversária, e Villanelle se pega correndo riscos cada vez maiores para se aproximar da mulher que pode ser sua ruína.
Um thriller cheio de descrições chocantes e também sensuais, Não existe amanhã é brilhante ao narrar a mente psicótica de uma assassina e a caçada apaixonada de sua nêmesis, aproximando duas rivais a ponto de não saberem mais se estão uma contra a outra... ou mais unidas do que nunca.

Resenha: Não Existe Amanhã é o segundo volume da trilogia Killing Eve e segue a partir de onde o livro anterior terminou, em Londres.
Vamos acompanhar Eve lidando não só com o que aconteceu no primeiro livro, mas com seu relacionamento meio conturbado e também com sua obsessão por Villanelle, que, embora esteja cada vez mais perto, faz mais e mais vítimas. Agora que Eve está em seu encalço, a assassina parece estar bem mais animada por saber que seus passos estão sendo seguidos por alguém tão boa no que faz, assim como ela. No decorrer da trama, Villanelle também fica atraída por Eve desencadeando uma obsessão mútua, e esse jogo entre as duas fica tão tenso quanto interessante.

Mantendo a narrativa em terceira pessoa, a escrita do autor continua bem fluída, direta e envolvente, com cenas de ação bem instigantes, criativas e que mantém o leitor preso à leitura sem saber pra quem torcer. Villanelle continua sendo aquela assassina implacável e cheia de glamour, porém parece estar começando a se envolver emocionalmente com seu trabalho (coisa que ela não fazia antes por agir sempre com frieza), e Eve agora está exposta a um mundo cheio de influência e muito luxo, totalmente diferente daquele que ela está acostumada a viver em casa e com o marido.

Acredito que esse livro seja um pouco melhor do que o anterior por ser mais dinâmico, ter toques de bom humor e explorar mais a mocinha da história. Sei lá se o fato de ser um homem escrevendo sobre personagens femininas e a sexualidade delas é uma coisa fora da "alçada", até mesmo porque no primeiro livro a coisa ficou bem exagerada, mas nesse segundo esse problema parece ter começado a ser resolvido e ficou mais leve e agradável de ler sem revirar os olhos.

Um ponto que acho bacana considerar é a ideia de que as duas protagonistas tem características e personalidades únicas que acabam se complementando e gerando uma química muito interessante de se acompanhar, além do desenvolvimento que elas vão ganhando a medida que a história avança. É nítido que se trata de uma relação obsessiva que se intensifica a cada nova descoberta de uma sobre a outra, e ver isso partir do lado de Eve, que está conhecendo um lado dela que ela não sabia que tinha, é bem instigante.
Villanelle mata e se sente viva com isso, mas ainda não parece ser o suficiente pra saciar essa sede. Ela anseia por missões mais perigosas, fica num estado de euforia ao saber que Eve está atrás dela e parece gostar de se colocar em risco agindo muitas vezes com imprudência.
O autor ter dado espaço pra explorar um pouco mais Os Doze e o que essa ordem parece representar foi bem satisfatório, mas ainda falta maiores detalhes e informações pra que esse quebra-cabeça se complete.

Pra quem gosta do gênero e curtiu o primeiro livro, Não Existe Amanhã traz muita ação, mistério, trama política, mortes, revelações e reviravoltas de tirar o fôlego, e drama na medida certa pra cativar o leitor e fazer com que ele queira ler o terceiro livro rapidinho.

Codinome Villanelle - Luke Jennings

10 de setembro de 2022

Título:
 Codinome Villanelle - Killing Eve #1
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2020
Páginas: 216
Nota:★★★★☆
Sinopse: Villanelle (um codinome, é claro) é uma das assassinas mais habilidosas do mundo. Uma psicopata hedonista, que ama sua vida de luxo acima de quase qualquer coisa... menos a emoção da caçada. Especializada em matar as pessoas mais ricas e poderosas do mundo, Villanelle é encarregada de aniquilar um influente político russo, e acaba com uma inimiga determinada em seu encalço.
Eve Polastri é uma ex-funcionária do serviço secreto inglês, agora contratada pela agência de segurança nacional para uma tarefa peculiar: identificar e capturar a assassina responsável e aqueles que a contrataram. Apesar de levar uma vida tranquila e comum, Eve possui uma inteligência rápida e aguçada - e aceita a missão.
Assim começa uma perseguição através do globo, cruzando com governos corruptos e poderosas organizações criminosas, para culminar em um confronto do qual nenhuma das duas poderá sair ilesa. Codinome Villanelle é um thriller veloz, sensual e emocionante, que traz uma nova voz à ficção internacional.

Resenha: Codinome Villanelle é o primeiro livro da trilogia escrita por Luke Jennings que deu origem ao seriado Killing Eve sobre Oxana Vorontsova (ou Villanelle), uma das assassinas de aluguel mais perigosas e habilidosas que já existiu, e Eve Polastri, uma ex-funcionária do serviço secreto inglês que se tornou agente de segurança nacional.
A história das duas se cruza quando Villanelle elimina uma das pessoas que Eve deveria proteger, e, quando ela dá início à investigação, Eve começa a descobrir outros assassinatos onde ela tem certeza que foram cometidos pela mesma psicopata. E agora que ela está encarregada de identificar e prender a criminosa, sua vida, antes tão normal, vira de cabeça pra baixo.

Narrado em terceira pessoa, vamos conhecer mais detalhes sobre a personalidade e as características das duas protagonistas, e o contraste entre as duas já fica bastante evidente. Embora o autor tenha dado mais espaço para a vilã e ao seu passado bem intrigante, é bem interessante acompanhar uma assassina fria e calculista que viaja o mundo caçando e eliminando pessoas, e leva uma vida bastante luxuosa quando está de folga, enquanto do outro lado temos uma investigadora dedicada, esforçada e um tanto sensível que, além de ter que lidar com seus dilemas pessoais, vai precisar lidar também com essa nova realidade envolvendo mortes e afins.

Vilanelle é uma mulher fatal, ela trabalha para os Doze, um grupo poderoso que recorre a ela quando algum serviço precisa ser feito. Ela desperta o interesse do leitor desde o início e Eve acaba ficando um pouco ofuscada com relação a essa construção, e fiquei com a sensação de que o autor fez isso de forma proposital para que a vilã seja a preferida da história.

Contando com apenas quatro capítulos, a narrativa de início não me prendeu muito, mas pouco depois eu já estava envolvida com a história e tudo foi ficando mais interessante, mesmo que basicamente a história fique dividida entre uma matando suas vítimas e a outra tentando pegá-la. Porém, não nego que esse primeiro volume parece funcionar mais como uma grande introdução a esse universo para que as personagens fossem apresentadas aos leitores do que pra se aprofundar nessa questão de investigação e mocinha vs. vilã, até mesmo porque o tão esperado confronto entre as duas não acontece, ainda.

Tirando as cenas de sexo gratuitas que, ao meu ver, são bem desnecessárias, e as brincadeiras com a Inteligência Britânica que não têm nada a ver, posso dizer que as cenas de ação são bem detalhadas e muito bem elaboradas, e promovem um dinamismo muito bom à leitura, e é impossível ler tais cenas sem imaginar uma adaptação pras telinhas. Ainda não assisti a série, mas pretendo assim que finalizar a leitura da trilogia.
Pra quem gosta de livros sobre investigações e assassinatos com uma pegada mais despretenciosa e leitura rápida, Codinome Villanelle é uma boa pedida.

Carrie - Stephen King

19 de maio de 2022

Título:
 Carrie
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Suspense/Fantasia
Ano: 2022
Páginas: 208
Nota:★★★★☆
Compre: Amazon
Sinopse: O primeiro livro de Stephen King em edição especial com capa dura, nova tradução e conteúdo extra. Clássico moderno, Carrie conta a história da adolescente com poderes telecinéticos, do bullying que sofreu e de sua jornada violenta de vingança ― até hoje, a estreia revolucionária do mestre do terror é um dos romances mais inovadores e chocantes de todos os tempos.
Carrie White é uma adolescente tímida, solitária e oprimida pela mãe, cristã ferrenha que vê pecado em tudo. A rotina na escola não alivia o dia a dia em casa. Para os colegas e professores, ela é estranha, não se encaixa e, por consequência, é alvo constante de bullying.
O que ninguém sabe ainda é que, por trás da aparência frágil e indefesa, Carrie esconde um enorme poder: ela consegue mover objetos com a mente. Trancar portas. Derrubar velas. Dom ou maldição, isso mudará para sempre o destino das pessoas que algum dia lhe fizeram mal.
Resenha: Publicado pela primeira vez em 1974, Carrie foi o primeiro livro escrito por Stephen King e se tornou um clássico moderno da literatura que já teve várias edições e cinco adaptações cinematográficas.
Agora em 2022, a Suma trouxe a obra para compor a belíssima coleção Biblioteca Stephen King (que, diga-se de passagem, é indispensável para os fãs do autor) sob nova tradução, capa dura e novo projeto gráfico.

A história vai falar sobre Carrieta White, ou Carrie, uma adolescente que vivia na cidade de Chamberlain, no Maine. Carrie tinha a aparência frágil e indefesa, era muito solitária e retraída, e que além de ser muito oprimida pela mãe, uma fanática religiosa que vê pecado em tudo e todos, ainda era vítima de constantes episódios de bullying na escola. O que ninguém sabia é que Carrie tem o dom da telecinese, que a torna capaz de mover objetos com o poder da mente. Ter sido convidada pro baile da escola pra ser alvo de mais uma "brincadeira" de mal gosto foi a gota d'água, e por estar saturada de ser alvo de tantas humilhações, ela chega ao seu limite a ponto de usar seus poderes para se vingar de todos aqueles que lhe fizeram mal.

A narrativa do livro é um apanhado feito por um jornalista sobre a investigação e tudo o que foi publicado a respeito do caso: transcrições de relatos, entrevistas, depoimentos e trechos extraídos de livros e artigos que foram feitos sobre a vida de Carrie, seu poder, e a fatídica noite do famigerado baile. Não há capítulos, mas sim uma alternância entre tempo e foco pra falar sobre as características e particularidades dos personagens, que, de alguma forma, tiveram algum envolvimento ou ligação com a protagonista. Esse formato epistolar de escrita, apesar de ter sido um pouco confuso, é interessante, pois, mesmo que seja fictício, deixa o leitor bem envolvido com a história, como se tivesse acesso a um tipo de dossiê sobre o ocorrido em Chamberlain e as explicações para o poder sobrenatural de Carrie.

Mesmo que Carrie tenha sido o primeiro livro escrito pelo autor, já fica evidente o talento dele em criar suspenses envolventes e com detalhes que deixam a história bastante rica. Confesso que me incomodou um pouco a forma como ele descreve as situações que envolvem a primeira menstruação da protagonista, mas acabei relevando por entender que foi um fator utilizado para que a pobre da Carrie fosse ainda mais humilhada do que já costumava ser, o que contribuiu para que seu ódio e seu desejo por vingança contra todos aqueles trastes só aumentassem mais. A aflição de acompanhar Carrie tendo cada passo reprimido e condenado pela mãe lunática e dominadora, assim como as constantes implicâncias e agressões que os alunos da escola fazem com ela, simplesmente por ela ser diferente, é inevitável.

No final das contas não acho que esse livro seja uma leitura de terror, mas sim um suspense com toque sobrenatural sobre uma garota que depois de viver reprimida por toda sua vida, chegou ao seu limite e se vingou de um bando de hipócritas intolerantes. Pessoas estas que fingem ser idôneas e decentes, mas a única coisa que sabem fazer é prejudicar o próximo pra se darem bem e fazer o mal contra quem, aparentemente, não pode se defender, e ainda se fazem de vítimas quando a hora de enfrentar as consequências dos próprios atos chega. Sendo assim, talvez seja possível considerar que Carrie não foi atrás de vingança, mas sim de justiça.

Essa nova edição que compõe a Coleção Biblioteca Stephen King é bem caprichada e ainda tráz um texto do autor sobre o processo de escrita do livro. Pra quem gosta de suspenses clássicos e quer experimentar uma leitura mais leve de King, Carrie é uma boa pedida.

Garota, 11 - Amy Suiter Clarke

4 de dezembro de 2021

Título:
Garota, 11
Autora: Amy Suiter Clarke
Editora: Suma
Gênero: Thriller/Suspense/Mistério
Ano: 2021
Páginas: 304
Nota:★★★☆☆
Compre: Amazon
Sinopse: Uma apresentadora de podcast obcecada por um crime não resolvido. Um serial-killer que volta a matar garotas, vinte anos depois de ter desaparecido. A caçada começa agora.
Elle Castillo é a apresentadora de um podcast popular sobre crimes reais. Depois de quatro temporadas de sucesso, ela decide encarar um caso pelo qual sempre foi obcecada ― o do Assassino da Contagem Regressiva, um serial-killer que aterrorizou a comunidade vinte anos atrás. Suas vítimas eram sempre meninas, cada qual um ano mais jovem que a anterior. Depois que ele levou sua última vítima, os assassinatos pararam abruptamente. Ninguém nunca soube o motivo.
Enquanto a mídia e a polícia concluíram há muito tempo que o assassino havia se suicidado, Elle nunca acreditou que ele estava morto. Ao seguir uma pista inesperada, no entanto, novas vítimas começam a aparecer. Agora, tudo indica que ele está de volta, e Elle está decidida a parar sua contagem regressiva.

Resenha: Elle Castillo é uma ex assistente social que largou para apresentar o "Justiça Tardia", um podcast bem popular sobre crimes reais que nunca foram resolvidos.
Depois de ter feito sucesso com 4 temporadas do seu podcast, Elle quer retomar um caso antigo de um serial killer que fazia vítimas cuja idade era sempre um ano mais jovem que a vítima anterior, o caso ficou conhecido como "Assassino da Contagem Regressiva" (ou ACR). Nenhum assassinato aconteceu mais depois que uma menina de 11 anos foi morta, vinte anos se passaram desde então e a polícia acredita que o criminoso já estás morto depois de duas décadas sem notícias.
Mas Elle não acredita na teria da polícia, e sua obsessão por esse caso, para que a justiça seja feita, não permite que ela simplesmente esqueça.

Até que uma criança desaparece e o padrão do suposto crime é o mesmo do ACR. Não se sabe se o assassino voltou a ativa, ou se é alguém o imitando motivado pelo sucesso do Justiça Tardia, e agora Elle ficará envolvida com a investigação do caso, e com os dilemas e a angústia de manter o podcast no ar, mas independente do que aconteça, ela está decidida a interromper essa contagem regressiva.

A narrativa é uma transcrição do podcast de Elle, com detalhes de situações de seu cotidiano, e com passado e presente se intercalando pra abranger a trama, e é um tipo de formato que deixa a história bem dinâmica, envolvente e fluída. Além das entrevistas, há descrições de vinhetas e efeitos sonoros do podcast, aumentando a experiência de imersão. É como se estivéssemos mesmo acompanhando o podcast. Um ponto super positivo é sobre as pesquisas que a autora fez sobre esses tipos de casos, então a investigação em si tem uma base sólida e bem aprofundada pra ser desenvolvida tornando tudo muito crível, e por ser um livro de estreia tudo isso deve ser levado em consideração. Pode ser que essa "lentidão" incomode quem goste de thrillers com mais adrenalina.

O problema pra mim (e talvez pra quem já leu outros thrillers mais pesados), é que muitas coisas que acontecem são convenientes e facilitam muito essa jornada da investigação, e isso acaba fazendo com que os leitores consigam pegar pistas que tornam algumas descobertas óbvias. A construção de Elle é muito boa, é uma personagem com camadas e que tem sua motivação justificada para insistir em resolver esse crime. Ela não quer se meter nesse caso apenas pela curiosidade, a coisa vai muuuito além e, mesmo que ela tenha algumas atitudes bem irresponsáveis e que jamais resultariam em boa coisa se fosse algo verídico, é tudo bem interessante de se acompanhar. O assassino é muito bem construído e os detalhes de sua forma de agir dá aquela sensação de pavor. A trama de maneira geral não preza por reviravoltas mirabolantes, mas sim, foca nos mínimos detalhes para não só mostrar esse lado investigativo do caso, mas também transmitir uma mensagem super relevante sobre feminismo e empoderamento feminino, enquanto faz críticas pertinentes ao machismo e a responsabilidade de influenciadores que seguem esse nicho ao falar de crimes na internet enquanto há pessoas envolvidas que podem assistir e serem afetadas por isso.

O Impulso - Ashley Audrain

30 de março de 2021

Título: O Impulso
Autora: Ashley Audrain
Editora: Paralela
Gênero: Drama/Suspense
Ano: 2021
Páginas: 328
Nota:★★★★★
Sinopse: Blythe Connor está decidida a ser a mãe perfeita, calorosa e acolhedora que nunca teve. Porém, no começo exaustivo da maternidade, ela descobre que sua filha Violet não se comporta como a maioria das crianças. Ou ela estaria imaginando? Seu marido Fox está certo de que é tudo fruto do cansaço e que essa é apenas uma fase difícil. Conforme seus medos são ignorados, Blythe começa a duvidar da própria sanidade. Mas quando nasce Sam, o segundo filho do casal, a experiência de Blythe é completamente diferente, e até Violet parece se dar bem com o irmãozinho. Bem no momento em que a vida parecia estar finalmente se ajustando, um grave acidente faz tudo sair dos trilhos, e Blythe é obrigada a confrontar a verdade. Neste eletrizante romance de estreia, Ashley Audrain escreve com maestria sobre o que os laços de família escondem e os dilemas invisíveis da maternidade, nos convidando a refletir: até onde precisamos ir para questionar aquilo em que acreditamos?

Resenha: Quando Blythe aceita a pressão do marido para terem um filho, ela ansiava ser uma mãe perfeita e acreditava que a maternidade transformaria sua vida para melhor, mas as coisas não saem conforme o esperado. A depressão pós parto, as cobranças, e o cansaço extremo impedem que Blythe aproveite a maternidade como ela gostaria. Pra piorar a situação, a medida que Violet, a filha do casal, cresce, Blythe começa a perceber que ela não é como as demais crianças, seu comportamento é diferente e que é possível que exista algo de errado - e muito ruim - com a menina. Fox, o marido, sempre a desencoraja por menor que sejam suas suspeitas com relação à filha, faz com que ela acredite que o esgotamento que a maternidade lhe trouxe é o que a deixa cheia de impressões equivocadas, e que ela está vendo coisas. Mas, alguns anos depois, numa tentativa de melhorar o casamento, o casal decide ter outro filho, e a experiência com a gravidez e o nascimento de Sam é totalmente oposta a de Violet, e, dessa vez, Blythe realmente encontra alegria e prazer em ser mãe. Mas um terrível acidente faz o mundo dela desmoronar, e Blythe não tem outra escolha a não ser enfrentar a realidade e todas as verdades dolorosas que vem com ela.

A história é narrada em capítulos bem curtinhos e de forma epistolar, direcionada a Fox, onde Blythe conta tudo o que passou desde o nascimento de Violet até a atualidade. Logo no início já acompanhamos a protagonista indo lhe entregar essas cartas para que ele saiba seu ponto de vista sobre os fatos, e é a partir da leitura dessas cartas que a história começa. Intercalando os capítulos, também há algumas passagens que ocorreram entre os anos 60 e 70, mostrando a vida complicada e desprovida de afeto com a mãe e a avó de Blythe que vem ocorrendo por gerações, e como essa relação a afetou a ponto de ela querer fazer tudo diferente quando se tornou mãe para agradar o marido e formarem aquela família feliz de comercial de margarina. Mas aí entra o questionamento sobre a protagonista, que veio de uma família completamente desestruturada, e que faz com que o leitor às vezes não a considere a pessoa mais confiável pra se ouvir/ler. O quão difícil é pra uma mãe sentir que não existe vínculo com a filha que ela própria gerou, amamentou e cuidou, e que esse sentimento só piora com o passar do tempo? Como saber se não foi exatamente isso acabou moldando a personalidade de Violet? Não seria essa rejeição o que faz com que Blythe pense que existe alguns problemas com a filha, ou será que a psicopatia e a crueldade também pode estar presente em uma criança aparentemente indefesa, mas isso é algo que ninguém quer admitir que existe? A própria Blythe questiona a própria sanidade, e se as coisas que ela percebe realmente aconteceram ou se são apenas fruto de sua imaginação.
"Violet tinha uma mente brilhante, fascinante, e às vezes eu desejava ter acesso a ela. Ainda que temesse o que poderia encontrar."
- Pág. 114
Apesar de fluída e envolvente, a história é um drama que se mistura a um thriller psicológico, mostrando os acontecimentos trágicos envolvendo não só o comportamento de Violet, mas o peso da maternidade real, todas as indagações de Blythe que vem a tona sem que alguém lhe dê qualquer crédito, e todas as cicatrizes e amarguras do passado que ela carrega (e que talvez estejam influenciando o que ela está vivendo como mãe). Ao mesmo tempo em que percebemos a dor e a agonia da protagonista, também ficamos agoniados para saber o que vai acontecer, como as coisas vão se desenrolar, e como vão ser descobertas e resolvidas.

A autora consegue trazer reflexões sobre qual seria o papel da mulher diante da sociedade; sobre como a mulher deixa de ser mulher pra se tornar mãe; sobre o poder do homem de tomar todas as decisões e de ter a palavra final só por ser o provedor do lar; sobre a culpa e a romantização da maternidade; sobre a mulher ser exatamente aquilo que esperam que ela seja, baseado em preceitos conservadores e ultrapassados; sobre aceitar que nem sempre os filhos vão corresponder as expectativas de suas mães, e vice versa. Talvez, para quem seja mãe e tenha enfrentado o peso e o esgotamento físico e mental que a maternidade proporciona, o livro inteiro vai ser um enorme gatilho, mas ainda assim é uma leitura muito válida para todos saberem e/ou reconhecerem que a maternidade pode ser linda pra quem vê, mas nem sempre pra quem vive.

Acho que, depois de tantos desabafos que já fiz aqui no blog, posso abrir esse parágrafo só pra falar sobre o sentimento que essa história causou em mim, e o que pode ser o motivo de causar alguns gatilhos em quem vive ou viveu essa realidade. Confesso que fiquei o livro inteiro com uma bola na garganta, pensando sobre ser mãe; sobre ficar entre tentar superar as expectativas que todo mundo coloca sobre mim ou simplesmente ligar o botão do f*da-se e empurrar essa responsabilidade como dá; sobre estar tão esgotada, física e mentalmente, que definhar a ponto de querer desistir é inevitável; sobre como a depressão é uma coisa que muitos ainda não levam a sério; e, por mais inexplicável e incrível que pareça, sobre como a maternidade pode ser a coisa mais solitária da vida de uma mãe. E por conseguir me enxergar no lugar de Blythe em várias situações que ela passou e que só quem vive sabe como é, eu simplesmente não consegui duvidar da narrativa dela em momento algum, por mais desvairada que ela pudesse parecer, porque eu também já me senti assim por tantas vezes que é impossível contar...

O Impulso traz uma história tão impressionante quanto perturbadora, mostrando tanto as mazelas quanto as alegrias da maternidade como ela é, e também que a maldade tem sim uma origem, e pode vir de quem menos se espera.

Eu Fico em Silêncio - David Ouimet

24 de fevereiro de 2021

Título: Eu Fico em Silêncio
Autor: David Ouimet
Editora: Companhia das Letrinhas
Gênero: Quadrinhos
Ano: 2021
Páginas: 56
Nota:★★★★☆
Sinopse: Um livro ilustrado emocionante para leitores de todas as idades que faz uma linda homenagem aos livros e à esperança que as histórias nos trazem. Uma garota tímida e introvertida se sente deslocada no mundo tão barulhento em que vivemos. Mas o poder da imaginação e o conforto dos livros podem trazer a esperança de que sua voz finalmente seja ouvida…
Nesta história emocionante para pequenos e grandes leitores, somos convidados a refletir sobre nosso lugar no mundo e o poder transformador que uma boa história pode ter na vida de alguém.

Resenha:
 Eu Fico em Silêncio, do autor David Ouimet, traz a história de uma garotinha bastante introvertida que se esforça diariamente para ser ouvida em meio a uma multidão de alienados que aparentam ser o que não são. Ela, então, encontra refúgio nos livros, e percebe que existe, sim, um lugar onde ela jamais vai se sentir sozinha, e vai poder fazer valer sua voz, até descobrir que isso pode ser feito dentro ou fora das páginas...

As ilustrações remetem a algo industrial, sombrio e melancólico, onde todos os personagens parecem estar vivendo numa distopia, com um padrão de comportamento robotizado e automático, como se só existisse uma maneira de ser e agir.



O estilo da obra lembra livrinhos infantis, mesmo que eu não tenha achado nada infantil, com pequenas frases soltas pelas páginas cobertas por grandes ilustrações, que são escuras e meio assustadoras, e representam bem a mesmice, algo que lembra uma fábrica de educação onde todos usam máscaras iguais. Ilustrações e frases soam poéticas, evocativas e fazem uma boa combinação, além de transmitir o sentimento ao qual todos alí estão condicionados. A ideia de alguém que vive em silêncio sem poder se expressar é bastante relevante e atual, mas talvez pelo toque escuro dessas ilustrações, não nego que existe um quê de opressão.

Eu Fico em Silêncio é um livro ilustrado com apenas 56 páginas, mas que consegue transmitir uma mensagem bastante profunda sobre ter coragem e esperança, sobre se encontrar, sobre ser a mudança, e sobre se descobrir. Ser introvertido e permanecer em silêncio diante de várias questões é direito de todos, mas, querer ser ouvido quando se tem algo a dizer, também.

Trocas Macabras - Stephen King

19 de janeiro de 2021

Título:
 Trocas Macabras
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Suspense/Fantasia
Ano: 2020
Páginas: 656
Nota:★★★★☆
Sinopse: Castle Rock, na Nova Inglaterra, é um lugar tranquilo para se viver. Mas a chegada de Leland Gaunt desestabiliza a cidade através do preconceito, ódio, fraqueza e cobiça, provocando mortes e sofrimentos. Gaunt consegue isto através de uma loja de utilidades, que sempre tem algo especial para cada morador, que para conseguirem o que desejam pagam um preço simbólico para Leland, além de conceder a ele um simples “favor”.

Resenha: Castle Rock, que serve como pano de fundo de várias outras histórias horripilantes de Stephen King, é uma cidadezinha pacata, com moradores ilustres e suas questões banais, onde tudo - de pavoroso - pode acontecer. Desta vez, a chegada do misterioso Leland Gaunt e a inauguração da "Artigos Indispensáveis", uma loja que vende de tudo que se possa imaginar, vai despertar o interesse dos moradores e, consequentemente, desencadear situações e acontecimentos tão inevitáveis quanto terríveis.

Basicamente, quem entra na loja sempre vai encontrar aquilo que mais deseja, e mesmo que o preço seja inacreditavelmente simbólico, vai variar pra cada cliente, incluindo o fato de que para levar o item, também é preciso fazer alguns favores ao Sr. Gaunt, os quais definem bem o título da obra. E embora pareçam favores bobos e inofensivos, alguns inclusive que não passam de travessuras infantis, aos poucos, desestabilizam a cidade e vão se tornando cada vez mais sombrios, causando dor, sofrimento e mortes, e virando uma gigantesca bola de neve, afinal, todo desejo tem seu preço, e cabe a pessoa ser capaz de enxergar se é um preço que realmente vale a pena pagar, ou se vai haver tempo pra se arrepender...

Em meio a toda essa "diversão", Gaunt sabe que o xerife da cidade, Alan Pangborn, é o único entre os moradores que pode estragar seus planos, sendo assim, ele vive criando situações "urgentes" pra desviar a atenção de Alan a fim de impedir que ele entre na Artigos Indispensáveis e essa apresentação seja formalizada.

Sendo assim, com o desenrolar dos fatos e várias tragédias acontecendo, o xerife consegue pistas que apontam pro dono da loja e o mistério começa. A curiosidade do leitor em saber quais as consequências de um favor e quem vai ser a vítima da vez, e quando, enfim, Gaunt será confrontado e desmascarado, é inevitável.

Gaunt é uma figura demoníaca, manipuladora e extremamente cruel, que traz à tona o que há de pior nas pessoas, e assim como todos os livros de King, este também tem personagens bem construídos, consistentes e cheio de camadas, que mostram o quanto o passado de cada um deles foi marcado por alguma tragédia que deixou cicatrizes que eles carregam até hoje. E, claro, Gaunt conhece as feridas mais profundas que eles possuem e, astutamente e da forma mais manipuladora possível, vai usar isso a seu favor.

O ritmo da leitura é lento e um tanto arrastado, pois uma das características na escrita do autor é dar todos os mínimos detalhes possíveis, seja de cenários, personagens, o que estão fazendo, o que estão sentindo e o que estão pensando, fazendo uma construção completa de cada um e mostrando quem é e o que fez para o conhecermos melhor. Ao saber do passado e do presente desses personagens, vemos que sua existência não serve apenas pra preencher as páginas, mas que se estão alí não é por acaso, é por algum propósito maior e que mais cedo ou mais tarde o futuro deles virá a tona após percebermos que todos têm alguma ligação entre si, formando um grande arco de desastres.
Um ponto bem interessante e curioso é que o leitor vai encontrar referências e alguns spoilers de outras obras do autor, mostrando o que aconteceu com alguns dos personagens, como é o caso de A Metade Sombria, Zona Morta e Cujo, que também se passa em Castle Rock. Pra quem não leu esses livros, não vai fazer muita diferença, e pra quem leu, tenho certeza que vai curtir bastante a ideia de saber um pouco mais desses personagens.

No mais, é leitura obrigatória para os fãs de Stephen King, que traz todos os elementos que mexem com nossas emoções: causam medo, apreensão e ansiedade, independente do quão absurdos e exagerados possam ser, e Trocas Macabras se destaca por mostrar explicitamente que o valor do que se quer é definido pela necessidade que se tem.

O Golpe - Christopher Reich

4 de janeiro de 2020

Título: O Golpe - Simon Riske Series #1
Autor: Christopher Reich
Editora: Arqueiro
Gênero: Policial/Suspense
Ano: 2019
Páginas: 384
Nota:★★★☆☆
Sinopse: Simon Riske é um espião industrial freelance que, apesar da profissão, consegue ter uma vida relativamente tranquila evitando trabalhos arriscados e sujos e fazendo bicos para bancos, companhias de seguros e o serviço secreto britânico.
Até que o gângster Tino Coluzzi leva a cabo o assalto mais audacioso da história de Paris: o roubo de milhões, em dinheiro vivo, de um príncipe saudita – além de uma carta secreta tão explosiva que pode derrubar governos, redefinir alianças e alterar o equilíbrio de poder no mundo ocidental.
Riske é então contratado pelo governo americano para recuperar o documento, e para isso terá que acertar as contas com um antigo aliado.
No passado, ele e Coluzzi trabalharam juntos, mas a relação criminosa terminou com Riske na prisão. Agora, anos depois, os dois se enfrentam, seguidos de perto por um perigoso policial parisiense, por uma femme fatale russa e o chefe desequilibrado dela – e talvez até pela CIA.

Resenha:  Simon Riske teve um passado conturbado e agora tenta levar uma vida mais sossegada trabalhando em sua oficina, mas, na verdade, ele é um espião industrial com habilidades incríveis e ainda é muito requisitado por bancos, seguradoras e pelo serviço secreto britânico. Como são serviços que pagam bem, ele ainda aceita alguns desses trabalhos, mas dentro das suas próprias regras a fim de evitar maiores riscos. Porém, quando um criminoso se envolve num assalto milionário a um príncipe saudita, Simon é contratado para recuperar uma carta roubada que é importante o suficiente para mudar o cenário político do mundo inteiro e instaurar o caos absoluto se a bendita parar nas mãos erradas...

Esse é aquele tipo de livro que é impossível dar muitos detalhes sem estragar a surpresa, então vou tentar ser o mais sucinta possível pra não dar spoilers mas expressar minha experiência que foi bem positiva. Narrado em terceira pessoa, o enredo em si parece um filme de ação estrelado pelo próprio Jason Statham. Embora tenha alguns floreios e descrições em excesso, a escrita é fluída e empolgante devido ao ritmo frenético de acontecimentos imprevisíveis (?) pelo mundo do crime de Paris, e o autor nos conduz por um caminho, nos leva a acreditar em uma motivação específica, e apresenta reviravoltas mirabolantes depois. Se pensávamos que ia acontecer uma coisa baseado nas informações x e y, pensamos errado. A combinação em excesso de elementos como espionagem, o protagonista genial e super habilidoso, ladrões a solta, a máfia perigosa, traições e amarguras do passado, conspirações e intrigas políticas, perseguições loucas, um psicopata doentio, vingança, uma mulher gostosona (não podia faltar a femme fatale nessa confusão) e entre otras cositas más, torna a trama um tanto exagerada, com enredos simultâneos (se é que isso existe) para render mais sequências para a série.

Eu confesso que nada soa real nessa trama e ela praticamente beira a fantasia, mas tenho que admitir que a escrita do autor é muito boa e ele descreve cenas de ação como poucos. Os personagens, apesar de serem bem estereotipados dentro do gênero (ladrão, espião, mafioso, policial, etc), são bem construídos, principalmente no que diz respeito a personalidade e voz, os vilões tem motivos convincentes para seus propósitos absurdos e no final das contas, O Golpe é um livro que empolga e nos mantém bem entretidos por algumas horas. Pra quem curte suspenses recheados de ação a perder de vista, é leitura que, além de indicada, renderia uma ótima adaptação nas telinhas para os fãs do gênero.

O Chamado de Cthulhu e outras histórias - H.P. Lovecraft

28 de dezembro de 2019

Título: O Chamado de Cthulhu e outras histórias - Biblioteca H.P. Lovecraft #1
Autor: H.P. Lovecraft
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Horror/Contos
Ano: 2019
Páginas: 448
Nota:★★★★★
Sinopse: Nascido em 1890, Howard Phillips Lovecraft revolucionou o gênero literário do horror ao inserir em suas histórias elementos típicos da fantasia e da ficção científica. Com um estilo de escrita único, por vezes de vocabulário e ortografia conservadores, Lovecraft elevou o terror a um patamar literário poucas vezes visto. Assim como Edgar Allan Poe no século XIX, Lovecraft é visto por autores como Neil Gaiman, Joyce Carol Oates e Stephen King como um dos principais autores de terror do século XX.
Neste primeiro volume da série "Biblioteca Lovecraft", traduzida e organizada por Guilherme da Silva Braga, encontramos textos clássicos como "O chamado de Cthulhu" e "A sombra de Innsmouth", e também textos menos conhecidos como "Dagon" (espécie de breve preâmbulo aos mitos de Cthulhu).

Resenha:  Nascido em 1890 e falecido em 1937, H.P. Lovecraft é considerado um dos principais autores do gênero de terror, reunindo não só admiradores de suas obras, como também inspirando autores de renome da literatura em todo o mundo. Neste primeiro volume da série "Biblioteca Lovecraft", encontramos dez textos clássicos do autor traduzidos e organizados por Guilherme da Silva Braga: Dagon, Ar frio, O modelo de Pickman, A música de Erich Zann, O assombro das trevas, O chamado de Cthullu, O horror de Dunwich, A sombra vinda do tempo, A casa temida, e A sombra de Innsmouth.

Os contos são curtos, alguns são narrados em primeira, e outros em terceira pessoa. Alguns inclusive parecem ter uma ligação com outros devido a algumas referências, e acabam se complementando ou preparando o leitor para algo que está por vir. Utilizando de uma escrita rebuscada, mas ainda assim um tanto fluída e cheia de detalhes e descrições minuciosas, é impossível desgrudar da leitura, mesmo que alguns trechos causem um enorme desconforto devido às descrições ora bizarras, ora sugestivas, ou ora assustadoras, mas que são capazes de despertar muita admiração e curiosidade em quem lê. Eu confesso que ainda não tinha tido oportunidade de ler nada do autor até então, mas posso dizer que o livro superou minhas expectativas pois foi bem além do que esperava encontrar.

Para os fãs do mestre do horror cósmico, ou pra quem gosta de contos de terror bizarros que se misturam com fantasia, é leitura mais do que indicada. Essa edição em particular, com capa dura e excelente diagramação é obra digna de se manter na coleção, pra ser lida e relida.

Abaixo um resumo do que se trata os contos do autor:

A Casa Negra - Stephen King e Peter Straub

17 de dezembro de 2019

Título: A Casa Negra - O Talismã #2
Autores: Stephen King e Peter Straub
Editora: Suma de Letras
Gênero: Fantasia/Suspense/Terror
Ano: 2014
Páginas: 704
Nota:★★★★★
Sinopse: Vinte anos se passaram e Jack Sawyer não é mais um menino. Aos trinta e dois anos, não se lembra dos acontecimentos terríveis que o levaram, quando tinha apenas doze, a um estranho universo paralelo - os Territórios. Em busca de um valioso talismã, o pequeno Jack enfrentou inimigos perigosos e situações de grande risco, tudo para salvar a mãe desenganada.
Agora Jack é um detetive aposentado, depois que um acontecimento suspeito o forçou a deixar a polícia, e leva uma vida tranquila, protegido de recordações perigosas. Mas sua tranquilidade está prestes a acabar.
Uma série de assassinatos macabros faz com que o chefe de polícia local, amigo de Jack, lhe implore para ajudar um policial inexperiente a encontrar o assassino. O universo parece desejar que Jack retorne aos Territórios.
Atormentado por mensagens enigmáticas que lhe aparecem como que em sonhos, Jack decide enfrentar o desafio e acertar as contas com o próprio passado.
Em A casa negra, a aguardada sequência de O talismã, grande sucesso de Stephen King e Peter Straub, Jack Sawyer precisará encontrar forças para entrar em uma casa medonha, perdida em uma floresta, e enfrentar os males insanos que a habitam. Jack não se recorda dos tormentos que teve que enfrentar quando menino, mas, de alguma forma, sabe que o pior ainda está por vir.

Resenha: Vinte anos se passaram desde que Jack se aventurou pelos Territórios e enfrentou perigos inimagináveis em busca do talismã. Agora, aos trinta e dois anos, ele não se lembra de nada do que viveu aos doze anos de idade. Jack é um detetive aposentado que, depois de ter sido forçado a deixar a polícia, leva sua vida de forma tranquila e sem lembranças que possam atormentá-lo. Para todos, ele aparenta ser uma pessoa marcada, que viu coisas e teve experiências que ninguém nunca teve.
Até que uma série de assassinatos na pequena cidade de French Landing deixa a polícia em polvorosa e Jack é requisitado para ajudar na busca pelo assassino conhecido como O Pescador, um canibal que ataca crianças. O que ele não esperava era retornar a um universo já esquecido para acertar as contas com seu passado pois os assassinatos brutais cometidos pelo Pescador pode afetar a Terra e outros mundos...

Embora tenha umas páginas 50 páginas a menos do que o primeiro livro, a leitura é mais rápida tanto pela história ser mais envolvente, quanto pelo tamanho da fonte que é maior e mais confortável.
Diferente do primeiro livro, talvez pelo fato de que não há mais o toque infantil de um protagonista de doze anos, a narrativa é mais sombria e voltada para as investigações acerca dos crimes terríveis que tanto preocupam as pessoas e a polícia. A narrativa se mantém em terceira pessoa, mas com o diferencial de que o narrador convida o leitor a observar os acontecimentos contados por ele de forma onipresente. É como se estivéssemos lá, acompanhando tudo, mas sem poder interferir em nada.
Como de costume em todos os livros do autor, o início da história, com suas descrições ricas e minuciosas, é um tanto monótona, mas com o desenrolar do enredo vamos ficando cada vez mais curiosos, os momentos de adrenalina crescem e as 700 páginas acabam passando mais rápido do que imaginamos por causa da empolgação.

Mesmo que eu tenha gostado muito do primeiro livro, principalmente pelo fato dele ser mais fantasioso e mais leve pelo protagonista ser um menino que parte numa aventura pra salvar sua mãe, tenho que admitir que, embora não exista uma aventura/viagem real e tenha um estilo diferente, eu também gostei do tom mais adulto e macabro que essa continuação ganhou, até mesmo porque aqui as vítimas são as crianças, o que torna as coisas ainda mais aterrorizantes e até mais "dignas" do mestre do terror. Talvez isso possa dificultar um pouco a leitura de quem tenha o estômago mais fraco ou seja mais sensível, pois algumas descrições dos pequenos corpos, de torturas, e outros detalhes do tipo, são chocantes, assombrosas, e difíceis de acompanhar. Pra quem tem filhos, então, pode ser um desastre completo, principalmente pelas reações da população e dos pais das vítimas.

O problema talvez seja pelo pequeno detalhe de que essa (até então) duologia faz um crossover com a série A Torre Negra, e alguns acontecimentos acabam ficando meio vagos ou até incompreensíveis pra quem não leu pelo menos até o quinto volume (dos sete). Outro ponto que deixou o livro maior do que o necessário é devido ao tempo "perdido" pra desenvolver personagens que não são essenciais para a trama. Mas, os personagens importantes, são - e se mantiveram - complexos, e o que ganha destaque é a personalidade de cada um, a forma como eles enxergam o mundo e se moldam àquela realidade.

O final, apesar de não ser feliz, é satisfatório e faz sentido no contexto da trama, e pra quem gosta do estilo de King e de histórias com toques macabros, é leitura mais do que recomendada.

O Talismã - Stephen King e Peter Straub

12 de dezembro de 2019

Título: O Talismã - O Talismã #1
Autores: Stephen King e Peter Straub
Editora: Suma de Letras
Gênero: Fantasia/Suspense
Ano: 2014
Páginas: 752
Nota:★★★★★
Sinopse: Jack Sawyer, um garoto de 12 anos, está prestes a iniciar uma jornada fantástica: a empolgante e assustadora busca de um talismã. Jack sabe que correrá muitos riscos, que terá sua coragem e resistência física testadas a cada segundo, mas vai lutar até fim: de seu sucesso depende a vida de sua mãe...
Para atingir sua meta, Jack terá que lutar contra um inimigo furioso e cruel que está disposto a fazer qualquer coisa para destruí-lo e atravessar não apenas os Estados Unidos de costa a costa, mas também os Territórios, uma região assombrosa e ameaçadora.
Onde ficam os Territórios? Como chegar a esta região fantástica e mítica que não pode ser alcançada de modo comum? Em que plano de existência se situa esse mundo tão intrigante quanto a Atlântida? Jack vence estes mistérios ao atravessar para os Territórios. Aí, descobre a desconcertante existência dos "Duplos", reflexos de pessoas que conhece na Terra, como a Rainha Laura, o "Duplo" de sua mãe, que também está com a vida por um fio.
Jack não tem muito tempo e é longa a viagem. A cada passo de sua jornada, precisa enfrentar inimigos perigosos que o perseguem nos dois mundos. No entanto, ele persiste, pois só terá sossego quando o valioso talismã estiver em suas mãos.

Resenha:  Jack Sawyer só tem doze anos, mas a idade é suficiente para ele embarcar na maior, mais assustadora e mais empolgante aventura de sua vida. Órfão de pai, depois de descobrir que sua mãe está muito doente, Jack tem a chance de ir em busca de um valioso talismã, que, supostamente, não só pode salvar sua mãe de uma doença, quanto também salvar os mundos onde batalhas épicas entre luz e trevas ocorre. Ele vai cruzar os EUA e os Territórios, um universo paralelo onde irá fazer muitas descobertas sobre os mundos, e sobre si mesmo, além de enfrentar os maiores perigos que nunca imaginou.

É complicado falar sobre muitos detalhes dessa história para não estragar todas as surpresas que ela nos reserva, então vou tentar ser bem sucinta nessa resenha. Narrado em terceira pessoa e dividido em quatro partes, os dois autores se unem para equilibrar fantasia e horror em uma escrita única, criando, assim, uma história de aventura e esperança complexa, em meio a um universo fantástico, alternativo e sombrio. No começo, assim como a maioria dos livros do autor, há muita informação, sempre descrita de forma lenta e muito detalhada, o que torna a história um pouco cansativa e difícil de engatar, mas penso que isso não é por acaso, e, sim, para que o leitor possa se habituar à mitologia presente e se familiarizar com a jornada de Jack. A medida que a história avança, as coisas começam a se encaixar melhor e se tornam muito mais interessantes e empolgantes. São os detalhes que tornam a experiência com essa leitura algo único e surpreendente, pois a sensação é a de estar lá, ao lado de Jack, mesmo que algumas mudanças bruscas de cenário nos tirem a concentração.

Jack Sawyer é um protagonista incrível. Além de ser especial por ter a habilidade de transitar entre mundos, tudo o que ele aprende e enfrenta nesse percurso vão testar sua resistência ao máximo, e é exatamente essa experiência que o torna mais forte. Embora ele seja muito corajoso, há algumas situações que o deixam com muito medo, mas ele não pensa em desistir jamais.

Lobo é um dos melhores, se não o melhor, personagem desse livro. Ele é carismático e seu espírito protetor acaba fazendo com que ele seja aquele melhor amigo que sempre dá o ombro e estende a mão pra ajudar o outro. Ele é uma das melhores representações de lealdade e amizade verdadeira que já me deparei em qualquer livro que já li na vida.

Os vilões aqui, Morgan e Osmond, são um caso especial, pois embora sejam sádicos e oportunistas, são bem construídos e com motivações que realmente causam impacto e medo. A forma como usam e manipulam as pessoas através de suas fraquezas é doentia e cruel.

Enfim, não posso negar que este é um dos melhores livros do gênero que já li. A história é mágica, bastante original, cheias de surpresas e super emocionante. É impossível não se emocionar com a jornada de amadurecimento de Jack enquanto ele, aos poucos, vai deixando sua infância e sua ingenuidade para trás, ou com a mensagem implícita sobre as crueldades e os perigos do mundo.

A Incendiária - Stephen King

14 de outubro de 2019

Título: A Incendiária
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Suspense/Sobrenatural/Sci-fi
Ano: 2018
Páginas: 450
Nota:★★★★☆
Sinopse: Uma criança com o poder mais extraordinário e incontrolável de todos os tempos. Um poder capaz de destruir o mundo.
Andy e Vicky eram apenas universitários precisando de uma grana extra quando se voluntariaram para um experimento científico comandado por uma organização governamental clandestina conhecida como “a Oficina”. As consequências foram o surgimento de estranhos poderes psíquicos — que tomaram efeitos ainda mais perigosos quando os dois se apaixonaram e tiveram uma filha. Desde pequena, Charlie demonstra ter herdado um poder absoluto e incontrolável. Pirocinética, a garota é capaz de criar fogo com a mente.
Agora o governo está à caça da garotinha, tentando capturá-la e utilizar seu poder como arma militar.
Impotentes e cada vez mais acuados, pai e filha percorrem o país em uma fuga desesperada, e percebem que o poder de Charlie pode ser sua única chance de escapar.

Resenha: Quando um grupo de universitários se voluntariam para um misterioso experimento científico comandado por uma organização governamental clandestina conhecida como A Oficina, eles não imaginavam quais seriam as consequências ao terem contato com o composto químico "lote 06"... Andy e Vicky foram cobaias sobreviventes ao experimento. Poderes psíquicos se manifestaram e alteraram seus DNA's. Eles passaram a ser capazes de mover objetos com a mente, se comunicarem através de pensamentos e até influenciar o pensamento alheio. Mas algo não previsto pela Oficina foi a união desses dois, e tudo mudaria quando o casal teve uma filha, Charlie. Ela tem sete anos, mas desde muito pequena já estava bem claro que ela havia herdado um poder grandioso e sobrenatural, o dom da pirocinese, o poder de criar fogo com a força da sua mente. Ela tenta controlar essa habilidade, mas quando o governo passa a persegui-la com intenção de usar os poderes dela como arma militar, Charlie e o pai, Andy, decidem fugir para contarem para o mundo a história real do que aconteceu, mas será que vão conseguir quando o mundo estiver em chamas?

O livro é narrado através da perspectiva de vários personagens, o que torna a trama bem mais interessante e dinâmica já que há um ponto de vista diferente para uma mesma situação de acordo com o personagem da vez.
A medida que o passado de Andy e da filha vem à tona, assim como o interesse real da Oficina em seu objetivo de capturar os dois, é possível estar na cabeça dos personagens, acompanhar suas angústias, seus medos e suas virtudes. E da mesma forma temos acesso a personalidade complexa de Rainbird, o agente que está os perseguindo. Sua frieza e crueldade na forma de agir chegam a ser assustadoras, e com certeza ele entra pro time de personagens icônicos e psicóticos do autor, com características peculiares que os tornam tão obsessores quanto maquiavélicos em seus terríveis objetivos.

Por ter sido inicialmente lançado nos anos oitenta, há diversas referências da época e é impossível não sentir aquela nostalgia devido ao estilo, pois como tudo é muito bem detalhado, é perfeitamente possível imaginar e visualizar todo o cenário que foi palco para grandes acontecimentos marcantes.

A Incendiária é uma leitura cheia de suspense cuja trama é movimentada de acordo com o desenvolvimento das relações entre os personagens e do constante perigo enfrentado por Charlie e seu pai enquanto fogem e tentam ficar um passo a frente dos vilões. No início, assim como a maioria dos livros de King, há muitos detalhes e descrições minuciosas acerca de acontecimentos e situações que ocorreram antes da fuga de pai e filha. Essas cenas se alternam, passado e presente, para uma melhor compreensão do que está acontecendo, e o que aconteceu antes que interferiu diretamente no destino dos dois. Porém, o excesso tornou algumas partes um tanto longas, com informações repetidas e até desnecessárias.
Sei que faz parte do estilo do autor, mas chega a ser um pouco cansativo acompanhar uma história que deveria ser frenética, mas que acaba sendo "quebrada" por tantas interrupções feitas pelo próprio autor.

O projeto gráfico do livro, assim como os demais da Coleção Biblioteca Stephen King, está divino. A capa com textura meio emborrachada e com detalhes em alto relevo enriquecem a obra, assim como a diagramação e os detalhes internos que simulam páginas "queimadas".

No mais, o livro talvez esteja mais pra um thriller com toques de ficção científica e muito suspense do que pro terror propriamente dito, mas é leitura muito indicada, principalmente para os fãs do autor.

O Iluminado - Stephen King

19 de setembro de 2019

Título: O Iluminado
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Suspense/Sobrenatural
Ano: 2017
Páginas: 520
Nota: ★★★★★
Sinopse: O lugar perfeito para recomeçar, é o que pensa Jack Torrance ao ser contratado como zelador para o inverno. Hora de deixar para trás o alcoolismo, os acessos de fúria e os repetidos fracassos. Isolado pela neve com a esposa e o filho, tudo o que Jack deseja é um pouco de paz para se dedicar à escrita.
Mas, conforme o inverno se aprofunda, o local paradisíaco começa a parecer cada vez mais remoto... e sinistro. Forças malignas habitam o Overlook, e tentam se apoderar de Danny Torrance, um garotinho com grandes poderes sobrenaturais.
Possuir o menino, no entanto, se mostra mais difícil do que esperado. Então os espíritos resolvem se aproveitar das fraquezas do pai...
Um dos livros mais assustadores de todos os tempos, O iluminado é uma das obras mais consagradas do terror.

Resenha: O Hotel Overlook é um lugar paradisíaco que atrai muitos hóspedes e turistas por suas peculiaridades, mas que só fica aberto ao público durante a metade do ano. Durante o inverno ele fica fechado, pois o alto volume de neve impossibilita as visitas. Mas mesmo que não haja hóspedes, o Hotel requer um profissional faça a devida manutenção para que as coisas são se deteriorem enquanto permanece fechado. Assim, numa tentativa de recomeçar, deixar os problemas pra trás e se tornar um homem melhor, Jack Torrance acaba aceitando o emprego de zelador de inverno, assim ele poderia aproveitar o isolamento para se aproximar e melhorar o relacionamento, um tanto abalado, com sua esposa, Wendy, e o filho de cinco anos, Danny, e ter o merecido sossego para se concentrar e se dedicar à escrita. A família Torrance logo se muda para o Hotel, e a medida que o inverno se torna cada vez mais intenso e rigoroso, coisas estranhas começam a acontecer naquele local remoto e sinistro... O Overlook está tomado por forças malignas que mexem com seus novos moradores, criando visões e os perturbando de forma que eles não conseguem distinguir o que é real ou ilusão. Danny, o único filho de Jack, ainda não sabe, mas ele é dotado de poderes sobrenaturais e é, como dizem, um Iluminado. Os espíritos que habitam o Hotel fazem diversas investidas a fim de possuir o menino, mas isso acaba sendo uma tarefa mais difícil do que parece, pois mesmo sendo uma criança, Danny é muito poderoso... Assim, eles resolvem se aproveitar das fraquezas de Jack, que embora esteja tentando, não consegue se livrar dos fantasmas de seu passado e acaba ficando suscetível às investidas obscuras desses seres do mal.

O Iluminado é um clássico da literatura, e não poderia ser muito diferente visto que foi escrito pelo mestre Stephen King. O homem realmente faz jus ao seu nome. Embora o início seja um tanto monótono, com tantas descrições minuciosas a fim de apresentar personagens e o funcionamento do Overlook e seus detalhes, é inegável que o terror psicológico presente na narrativa prende o leitor do começo ao fim. A leitura em si flui bem, mas não é um livro rápido de ser lido. Eu demorei pra digerir os acontecimentos pois há uma carga dramática bastante pesada sobre os personagens, e o terror em volta deles deixa tudo ainda mais denso, usando do sobrenatural para evidenciar um lado sombrio e doentio do ser humano.

A história traz poucos personagens, e isso acaba dando mais espaço para que eles possam ser desenvolvidos, mostrando gradualmente suas evoluções a medida que a influência do Overlook, que também é um personagem, os afeta. Logo, a construção de personagens é um show a parte, e o misto de sensações que sentimos durante a leitura chega a ser inexplicável. Danny é um doce de garoto e é ele quem divide o protagonismo da trama com o Hotel. Mesmo que seja ingênuo e inocente como qualquer criança dessa idade, ele tem personalidade forte e uma inteligência fora do comum, fazendo com que ele praticamente bata de frente com qualquer adulto, gerando os melhores diálogos do livro.
Wendy é uma mãe dedicada cujo filho é seu bem mais precioso, e desde o início é possível perceber que, embora ela pareça submissa e esteja presa num fucking relacionamento abusivo, ela tem seus motivos plausíveis para não jogar tudo pro alto e ir embora. Na verdade ela é uma mulher que tira forças do além pra suportar o marido e manter ela e o filho seguros, e talvez o inferno que ela tenha passado foi justamente o que lhe deu a força necessária para que ela tenha conseguido fazer o que fez no final das contas.

Ver como eles lidam com Jack, que enlouquece cada vez mais, é impressionante. O homem está sob uma influência incontrolável que o torna cada vez pior, então tudo o que "aparentemente" ele fez "sem querer", acaba se intensificando ainda mais, e o que ele causa no leitor é um misto de pena com raiva. O pavor que o Hotel causa também não é algo a ser ignorado. Cheguei a arrepiar várias vezes em algumas cenas totalmente macabras. O melhor de tudo é que as cenas são descritas com uma sutileza ímpar, não há exposições baratas e horror gratuito, e o que mexe com nosso psicológico é a ideia de presenças malignas influenciando pessoas, trazendo o que há de pior nelas à tona. Angústia, desespero, medo e tensão são sensações inevitáveis durante essa leitura, e já fazia muito tempo que um livro não mexia comigo dessa forma. De causar aquela ressaca literária.

Quem viu o filme dirigido por Stanley Kubrick sabe que foi uma excelente adaptação (embora o final seja diferente), mas o livro... O livro, meus amigos, tem todo um estilo único que consegue ser infinitamente melhor.