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Porém Bruxa - Carol Chiovatto

14 de junho de 2023

Título:
Porém Bruxa
Autora: Carol Chiovatto
Editora: Suma
Gênero: Fantasia Urbana
Ano: 2023
Páginas: 320
Nota:★★☆☆☆
Sinopse: Isis Rossetti é uma bruxa. Como monitora responsável por atividades sobrenaturais na cidade de São Paulo, ela sabe que não pode intervir em questões humanas. Porém, no cotidiano urbano, as pessoas estão sempre em perigo e é impossível não tentar ajudar.
Quando Ísis recebe a missão de uma divindade, em meio a casos policiais estranhamente similares e investigações extraoficiais, ela precisará revisitar traumas do passado para proteger os comuns e enfrentar o temido Corregedor.

Resenha: Porém, Bruxa, escrito pela autora nacional Carol Chiovatto e publicado pela Suma, apresenta a protagonista Ísis Rosseti, uma jovem bruxa que trabalha monitorando e investigando atividades mágicas e sobrenaturais na cidade de São Paulo. Ísis não tem permissão para interferir nas questões da sociedade dos humanos comuns, mas acaba se envolvendo ilegalmente nessas situações, pois não consegue ignorar quando algum humano está em perigo devido à sua intuição e grande empatia. Um dia, Ísis recebe três tarefas fora de sua jurisdição, e agora ela precisa lidar com dois casos de desaparecimento e uma missão de uma divindade. Além disso, ela precisa enfrentar seus traumas do passado e confrontar o Corregedor, o chefe do departamento mágico, que não pode descobrir suas escapadas ao ajudar os humanos.

Livros de fantasia, principalmente aqueles com elementos de bruxaria, sempre despertam minha curiosidade, então criei altas expectativas para Porém, Bruxa. Mas, a história não conseguiu prender minha atenção. Levei uma eternidade para terminar a leitura, tive dificuldade para me acostumar com a voz narrativa da protagonista e, no final, achei tudo um tanto confuso e problemático.

O primeiro problema é a quantidade de temas e questões diferentes que a autora insere no universo mágico, dando a sensação de que estão dispersos e mal desenvolvidos. Parece que foi feita uma lista de temas para cumprir uma cota de representatividade, feminismo, críticas sociais e afins, mas não foi feito de forma natural. A leitura me deu a impressão de estar lendo um artigo informativo e resumido sobre esses temas. A autora quer falar sobre racismo, machismo, feminismo, intolerância religiosa, assédio, traumas, adoção, sistema prisional, pessoas em situação de rua, e muito mais, como se não pudesse deixar ninguém de fora.

Será mesmo necessário abordar todas essas problemáticas em uma história de investigação, que, aliás, tem muitas pontas soltas? São temas delicados que tentam ser inseridos em um universo mágico, mas nenhum deles é devidamente aprofundado. Entendo a importância de abordar esses temas relevantes na sociedade, mas quando isso não é feito de forma orgânica e parece deslocado, tudo parece forçado e desnecessário. A sensação é de que estão lá apenas para gerar engajamento. Talvez fosse melhor abordar poucos temas de cada vez e trabalhá-los bem, ao invés de tratar de tantos assuntos ao mesmo tempo e deixar o leitor confuso. Eu pessoalmente tive uma enorme dificuldade em me conectar com o que estava acontecendo e cheguei a reler os capítulos várias vezes por não entender o que estava acontecendo. Insistir em uma leitura que não me prendeu, esperando que ficasse interessante, foi bastante sofrível, e senti que perdi meu tempo.

Em relação aos personagens secundários e suas aparições, fica a pergunta: quem são eles? De onde vêm? O que comem? Parece que eles não têm nada mais para fazer em suas vidas além de aparecerem convenientemente quando a protagonista precisa de ajuda para resolver os problemas que surgem. Quanto ao empoderamento, o objetivo era apresentar uma personagem feminista, independente e poderosa, mas o que vi foi ela sendo constantemente salva por um homem com estereótipo de cara perfeito. Além disso, ela age de forma grosseira e desnecessária com os outros sem motivo nenhum. Isso não é ter uma personalidade forte, é falta de bom senso. A autora brinca com a ideia de um possível romance que nunca se concretiza, pois o foco de Ísis aparentemente é o trabalho. Não há problema em manter as relações no campo da amizade, mas a tensão romântica existe e queria saber qual finalidade. Fiquei com a sensação de que essa parte estava sendo guardada para um próximo volume. Quanto à narrativa em primeira pessoa, feita pelo ponto de vista de Ísis, não consegui identificar a voz da personagem e o tom me pareceu inconsistente. Às vezes ela fala usando gírias, às vezes usa uma linguagem mais formal e às vezes substitui palavras por outras que nem são sinônimas. Não há um padrão claro de fala e a construção dos diálogos e pensamentos pediu pelo amor de Deus por um polimento.

Talvez eu não estivesse no clima adequado para essa leitura, mesmo tentando por meses. Talvez eu não seja o público-alvo do livro, apesar de ser fã de fantasia urbana e thrillers (quando são bem estruturados e com finais de tirar o fôlego, claro). A magia também não parece desempenhar um papel significativo na história (talvez daí venha o título?), o que me deixou um tanto desanimada durante a leitura. Apesar de a autora ter criado uma estrutura de fantasia que parecia interessante e ter incorporado vários elementos da cultura brasileira, isso não foi suficiente para me fazer gostar da história ou prender minha atenção, pois o foco é outro. A teoria por trás da trama é interessante, mas a prática deixa a desejar. Porém, Bruxa é um thriller com toques de fantasia que, apesar de ter algumas reviravoltas interessantes, é uma leitura completamente esquecível.

A Longa Marcha - Stephen King/Richard Bachman

21 de janeiro de 2023

Título:
A Longa Marcha
Autor: Stephen King/Richard Bachman (pseudônimo)
Editora: Suma
Gênero: Distopia/Terror/Thriler
Ano: 2023
Páginas: 296
Nota:★★★☆☆
Sinopse: Contrariando a vontade da mãe, o jovem Ray Garraty está prestes a participar da famosa prova de resistência conhecida como A Longa Marcha, que presenteia o vencedor com “O Prêmio”; qualquer coisa que ele desejar, pelo resto da vida.
No percurso anual que reúne milhares de espectadores, cem garotos devem caminhar por rodovias e estradas dos Estados Unidos acima de uma velocidade mínima estabelecida. Para se manter na disputa, eles não podem diminuir o ritmo nem parar. Cada infração às regras do jogo lhes confere uma advertência. Ao acumular mais de três penalidades, o competidor é eliminado ― de forma “permanente”. E não há linha de chegada: o último a continuar de pé vence.

Resenha:
A Longa Marcha é um dos livros independentes de Stephen King escritos sob o pseudônimo Richard Bachman. O livro inaugura essa nova coleção que será relançada pela Suma.

Ray Garraty está prestes a participar de uma prova de resistência chamada "A Longa Marcha", onde cem competidores são escolhidos pra participar, porém somente um poderá chegar até o fim e ser o vencedor. Esse é um evento anual com um percurso longo que passa por várias cidades, e é um tanto famoso, tanto que reúne milhares de espectadores. O prêmio para quem ganhar é o que ele quiser, desde que ele seja o último a sobreviver...

Ray é o competidor 47, que resolveu participar dessa caminhada mesmo que sua mãe não tenha gostado nada da ideia. A competição vai colocar a resistência dos competidores a prova, e se não derem conta de manter um determinado ritmo de acordo com a distância percorrida ou cometerem erros, eles recebem advertências. O caminho é difícil e eles precisam superar a fome, o sono e o cansaço sem cogitar fracassar ou desistir, caso contrário são executados.

Mesmo que o livro tenha sido escrito no final da década de 70, a crítica social é super atual e relevante, pois vemos um grupo de competidores, cuja maioria sequer sabe o motivo real que os levou a decidir participar desse evento, que enquanto estão alí a beira da exaustão, surtando e desmoronando tanto física quanto psicologicamente, os espectadores vibram a medida que o sofrimento aumenta e as mortes acontecem cada vez mais.
A leitura é um pouco cansativa, não vou negar. O ritmo é lento com uma tensão que perdura do começo ao fim, e por ter sido escrito numa época diferente, os costumes e o comportamento da sociedade descritos é capaz de revirar o estômago (aquela história do machismo, da misoginia e afins que o King insistia em enfiar em suas histórias), tanto quanto a própria caminhada, que é tão angustiante quanto desesperadora.

É muito agonizante acompanhar o desmoronamento gradual dos participantes, ver que alguns que pareciam estar com a vantagem estão ficando pra trás, mas pior que isso é perceber que a medida que o evento progride, as pessoas vão ficando cada vez mais vazias de si, e isso levanta questionamentos sobre o valor da vida e o que significa o desejo de viver numa sociedade doentia.
A Longa Marcha é uma distopia sombria, que traz questões acerca de se atingir um objetivo quando as pessoas são movidas pelo desespero e pela dor.

Morra por Mim - Luke Jennings

15 de setembro de 2022

Título:
 Morra por Mim - Killing Eve #3
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2022
Páginas: 216
Nota:★★☆☆☆
Sinopse: Morra por mim é uma história mordaz sobre amor e obsessão - conforme a ação se aproxima de seu desfecho avassalador, Eve e Villanelle terão que aprender a confiar uma na outra antes que suas diferenças as destruam.
A perseguição entre as duas adversárias letais aparentemente acabou. No entanto, os sentimentos que se desenvolveram entre Eve e Villanelle - tão sofisticados quanto mortais - estão longe de terminar.
Neste romance que encerra a trilogia, Villanelle busca enfrentar os demônios de sua infância e o inverno russo, e Eve se vê fugindo dos Doze, que a querem morta a qualquer custo. Em meio a uma história que vai de Londres a São Petersburgo, Eve e Villanelle, enfim, admitem sua mútua obsessão erótica, num jogo perigoso que se aproxima de uma conclusão letal.
Com uma narrativa elegante e precisa, Morra por mim é um desfecho brutal e frenético para a série de Luke Jennings.

Resenha: Morra por Mim é o último livro da trilogia Killing Eve que encerra essa saga de amor e obsessão entre Eve e Villanelle. Já adianto que essa resenha vai ter alguns spoilers, caso contrário é quase impossível escrever sobre, então se não leu nenhum dos livros, o aviso foi dado.

Após os acontecimentos do livro anterior, Eve e Villanelle agora estão juntas e prontas pra assumirem um relacionamento amoroso enquanto aprendem a confiar uma na outra depois de terem passado tanta coisa. Porém, no meio disso tudo, elas se tornaram alvo d'Os Doze, e um jogo ainda mais perigoso se inicia para as duas.

Tenho que ser sincera em dizer que a ambientação e a descrição de cada detalhe dos lugares onde a história se passa são excelentes e pelo livro ser curto, a leitura é bem rápida, mas nem tudo são flores, não é mesmo? Sabe-se lá Deus por qual motivo a narrativa sofreu uma mudança abrupta e desnecessária de terceira pra primeira pessoa, onde a história agora é contada sob o ponto de vista de Eve, e aquela mulher ingênua (porém inteligente que vimos nos outros livros), se mostrou uma idiota, e o relacionamento abusivo e doentio dela com Villanelle, além de ter surgido do completo nada, é insuportável e brochante. Essa mudança de personalidade sem a menor explicação faz parecer que quem leu perdeu alguma coisa no meio do caminho e não entendeu o que aconteceu direito.

Muitas coisas tiveram soluções convenientes que não fizeram sentido se compararmos com os outros dois livros, muita coisa ficou no ar, personagens secundários importantes pra história, que teriam tomado uma atitude em meio a todos os acontecimentos, simplesmente sumiram e azar, dentre outras patifarias. Se a ideia do autor era construir um romance verdadeiro e representar isso com duas personagens que se mostraram tão problemáticas, não funcionou pra mim. Amor e obsessão são coisas totalmente diferentes, e Eve ter se deixado levar por essa realidade tão atrativa quanto perigosa que Villanelle já estava acostumada, não justifica.
O ritmo dos acontecimentos oscila bastante nesse volume: às vezes está frenético, no meio do caminho acontecem algumas reviravoltas, às vezes fica bem lento, e às vezes acontecem coisas que surgem do além e que lembram uma fanfic tosca... Enfim.

Depois da empolgação com a melhoria da história no segundo livro, Morra por Mim veio pra estragar o que era bom. Só parece ter sido escrito pela mesma pessoa devido a famosa falta de propriedade do autor em abordar assuntos referente a sexualidade alheia que ele desconhece, e sua mania um tanto exagerada de descrever cenas eróticas gratuitas. Talvez seja melhor eu nem comentar sobre a tentativa fracassada de "inserir" o não binarismo numa personagem já existente de uma forma tão absurda que só reforçou a ideia de que o autor realmente não entende bulhufas e tem uma visão um tanto distorcida sobre esse tipo de representatividade. Talvez a intenção dele tenha sido a melhor, mas deveria ter alguma alma entendida do assunto no meio da produção pra avisar... Acho que se ele tivesse focado na ação, no suspense, na investigação e nas mortes, teria sido muito mais feliz. A escrita é boa, a leitura flui, mas o que eu li aqui foi algo que, infelizmente, conseguiu acabar com minha admiração pela história e pelas protagonistas, e só restou decepção. Triste.

Não Existe Amanhã - Luke Jennings

12 de setembro de 2022

Título:
 Não Existe Amanhã - Killing Eve #2
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2021
Páginas: 240
Nota:★★★★☆
Sinopse: Em um quarto de hotel em Veneza, onde acabou de concluir um assassinato de rotina, Villanelle recebe um telefonema tarde da noite.
Eve Polastri, a funcionária do governo inglês que está em seu encalço há meses, conseguiu rastrear um oficial do MI5 a serviço dos Doze e está prestes a levá-lo a interrogatório. Enquanto Eve se prepara para procurar respostas, tentando desesperadamente encaixar as peças de um terrível quebra-cabeça, Villanelle avança para o abate.
O duelo entre as duas mulheres se intensifica, assim como sua obsessão mútua, com a ação passando dos altos picos do Tirol até o coração da Rússia. Eve enfim começa a desvendar o enigma da identidade de sua adversária, e Villanelle se pega correndo riscos cada vez maiores para se aproximar da mulher que pode ser sua ruína.
Um thriller cheio de descrições chocantes e também sensuais, Não existe amanhã é brilhante ao narrar a mente psicótica de uma assassina e a caçada apaixonada de sua nêmesis, aproximando duas rivais a ponto de não saberem mais se estão uma contra a outra... ou mais unidas do que nunca.

Resenha: Não Existe Amanhã é o segundo volume da trilogia Killing Eve e segue a partir de onde o livro anterior terminou, em Londres.
Vamos acompanhar Eve lidando não só com o que aconteceu no primeiro livro, mas com seu relacionamento meio conturbado e também com sua obsessão por Villanelle, que, embora esteja cada vez mais perto, faz mais e mais vítimas. Agora que Eve está em seu encalço, a assassina parece estar bem mais animada por saber que seus passos estão sendo seguidos por alguém tão boa no que faz, assim como ela. No decorrer da trama, Villanelle também fica atraída por Eve desencadeando uma obsessão mútua, e esse jogo entre as duas fica tão tenso quanto interessante.

Mantendo a narrativa em terceira pessoa, a escrita do autor continua bem fluída, direta e envolvente, com cenas de ação bem instigantes, criativas e que mantém o leitor preso à leitura sem saber pra quem torcer. Villanelle continua sendo aquela assassina implacável e cheia de glamour, porém parece estar começando a se envolver emocionalmente com seu trabalho (coisa que ela não fazia antes por agir sempre com frieza), e Eve agora está exposta a um mundo cheio de influência e muito luxo, totalmente diferente daquele que ela está acostumada a viver em casa e com o marido.

Acredito que esse livro seja um pouco melhor do que o anterior por ser mais dinâmico, ter toques de bom humor e explorar mais a mocinha da história. Sei lá se o fato de ser um homem escrevendo sobre personagens femininas e a sexualidade delas é uma coisa fora da "alçada", até mesmo porque no primeiro livro a coisa ficou bem exagerada, mas nesse segundo esse problema parece ter começado a ser resolvido e ficou mais leve e agradável de ler sem revirar os olhos.

Um ponto que acho bacana considerar é a ideia de que as duas protagonistas tem características e personalidades únicas que acabam se complementando e gerando uma química muito interessante de se acompanhar, além do desenvolvimento que elas vão ganhando a medida que a história avança. É nítido que se trata de uma relação obsessiva que se intensifica a cada nova descoberta de uma sobre a outra, e ver isso partir do lado de Eve, que está conhecendo um lado dela que ela não sabia que tinha, é bem instigante.
Villanelle mata e se sente viva com isso, mas ainda não parece ser o suficiente pra saciar essa sede. Ela anseia por missões mais perigosas, fica num estado de euforia ao saber que Eve está atrás dela e parece gostar de se colocar em risco agindo muitas vezes com imprudência.
O autor ter dado espaço pra explorar um pouco mais Os Doze e o que essa ordem parece representar foi bem satisfatório, mas ainda falta maiores detalhes e informações pra que esse quebra-cabeça se complete.

Pra quem gosta do gênero e curtiu o primeiro livro, Não Existe Amanhã traz muita ação, mistério, trama política, mortes, revelações e reviravoltas de tirar o fôlego, e drama na medida certa pra cativar o leitor e fazer com que ele queira ler o terceiro livro rapidinho.

Codinome Villanelle - Luke Jennings

10 de setembro de 2022

Título:
 Codinome Villanelle - Killing Eve #1
Autor: Luke Jennings
Editora: Seguinte
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2020
Páginas: 216
Nota:★★★★☆
Sinopse: Villanelle (um codinome, é claro) é uma das assassinas mais habilidosas do mundo. Uma psicopata hedonista, que ama sua vida de luxo acima de quase qualquer coisa... menos a emoção da caçada. Especializada em matar as pessoas mais ricas e poderosas do mundo, Villanelle é encarregada de aniquilar um influente político russo, e acaba com uma inimiga determinada em seu encalço.
Eve Polastri é uma ex-funcionária do serviço secreto inglês, agora contratada pela agência de segurança nacional para uma tarefa peculiar: identificar e capturar a assassina responsável e aqueles que a contrataram. Apesar de levar uma vida tranquila e comum, Eve possui uma inteligência rápida e aguçada - e aceita a missão.
Assim começa uma perseguição através do globo, cruzando com governos corruptos e poderosas organizações criminosas, para culminar em um confronto do qual nenhuma das duas poderá sair ilesa. Codinome Villanelle é um thriller veloz, sensual e emocionante, que traz uma nova voz à ficção internacional.

Resenha: Codinome Villanelle é o primeiro livro da trilogia escrita por Luke Jennings que deu origem ao seriado Killing Eve sobre Oxana Vorontsova (ou Villanelle), uma das assassinas de aluguel mais perigosas e habilidosas que já existiu, e Eve Polastri, uma ex-funcionária do serviço secreto inglês que se tornou agente de segurança nacional.
A história das duas se cruza quando Villanelle elimina uma das pessoas que Eve deveria proteger, e, quando ela dá início à investigação, Eve começa a descobrir outros assassinatos onde ela tem certeza que foram cometidos pela mesma psicopata. E agora que ela está encarregada de identificar e prender a criminosa, sua vida, antes tão normal, vira de cabeça pra baixo.

Narrado em terceira pessoa, vamos conhecer mais detalhes sobre a personalidade e as características das duas protagonistas, e o contraste entre as duas já fica bastante evidente. Embora o autor tenha dado mais espaço para a vilã e ao seu passado bem intrigante, é bem interessante acompanhar uma assassina fria e calculista que viaja o mundo caçando e eliminando pessoas, e leva uma vida bastante luxuosa quando está de folga, enquanto do outro lado temos uma investigadora dedicada, esforçada e um tanto sensível que, além de ter que lidar com seus dilemas pessoais, vai precisar lidar também com essa nova realidade envolvendo mortes e afins.

Vilanelle é uma mulher fatal, ela trabalha para os Doze, um grupo poderoso que recorre a ela quando algum serviço precisa ser feito. Ela desperta o interesse do leitor desde o início e Eve acaba ficando um pouco ofuscada com relação a essa construção, e fiquei com a sensação de que o autor fez isso de forma proposital para que a vilã seja a preferida da história.

Contando com apenas quatro capítulos, a narrativa de início não me prendeu muito, mas pouco depois eu já estava envolvida com a história e tudo foi ficando mais interessante, mesmo que basicamente a história fique dividida entre uma matando suas vítimas e a outra tentando pegá-la. Porém, não nego que esse primeiro volume parece funcionar mais como uma grande introdução a esse universo para que as personagens fossem apresentadas aos leitores do que pra se aprofundar nessa questão de investigação e mocinha vs. vilã, até mesmo porque o tão esperado confronto entre as duas não acontece, ainda.

Tirando as cenas de sexo gratuitas que, ao meu ver, são bem desnecessárias, e as brincadeiras com a Inteligência Britânica que não têm nada a ver, posso dizer que as cenas de ação são bem detalhadas e muito bem elaboradas, e promovem um dinamismo muito bom à leitura, e é impossível ler tais cenas sem imaginar uma adaptação pras telinhas. Ainda não assisti a série, mas pretendo assim que finalizar a leitura da trilogia.
Pra quem gosta de livros sobre investigações e assassinatos com uma pegada mais despretenciosa e leitura rápida, Codinome Villanelle é uma boa pedida.

Garota, 11 - Amy Suiter Clarke

4 de dezembro de 2021

Título:
Garota, 11
Autora: Amy Suiter Clarke
Editora: Suma
Gênero: Thriller/Suspense/Mistério
Ano: 2021
Páginas: 304
Nota:★★★☆☆
Compre: Amazon
Sinopse: Uma apresentadora de podcast obcecada por um crime não resolvido. Um serial-killer que volta a matar garotas, vinte anos depois de ter desaparecido. A caçada começa agora.
Elle Castillo é a apresentadora de um podcast popular sobre crimes reais. Depois de quatro temporadas de sucesso, ela decide encarar um caso pelo qual sempre foi obcecada ― o do Assassino da Contagem Regressiva, um serial-killer que aterrorizou a comunidade vinte anos atrás. Suas vítimas eram sempre meninas, cada qual um ano mais jovem que a anterior. Depois que ele levou sua última vítima, os assassinatos pararam abruptamente. Ninguém nunca soube o motivo.
Enquanto a mídia e a polícia concluíram há muito tempo que o assassino havia se suicidado, Elle nunca acreditou que ele estava morto. Ao seguir uma pista inesperada, no entanto, novas vítimas começam a aparecer. Agora, tudo indica que ele está de volta, e Elle está decidida a parar sua contagem regressiva.

Resenha: Elle Castillo é uma ex assistente social que largou para apresentar o "Justiça Tardia", um podcast bem popular sobre crimes reais que nunca foram resolvidos.
Depois de ter feito sucesso com 4 temporadas do seu podcast, Elle quer retomar um caso antigo de um serial killer que fazia vítimas cuja idade era sempre um ano mais jovem que a vítima anterior, o caso ficou conhecido como "Assassino da Contagem Regressiva" (ou ACR). Nenhum assassinato aconteceu mais depois que uma menina de 11 anos foi morta, vinte anos se passaram desde então e a polícia acredita que o criminoso já estás morto depois de duas décadas sem notícias.
Mas Elle não acredita na teria da polícia, e sua obsessão por esse caso, para que a justiça seja feita, não permite que ela simplesmente esqueça.

Até que uma criança desaparece e o padrão do suposto crime é o mesmo do ACR. Não se sabe se o assassino voltou a ativa, ou se é alguém o imitando motivado pelo sucesso do Justiça Tardia, e agora Elle ficará envolvida com a investigação do caso, e com os dilemas e a angústia de manter o podcast no ar, mas independente do que aconteça, ela está decidida a interromper essa contagem regressiva.

A narrativa é uma transcrição do podcast de Elle, com detalhes de situações de seu cotidiano, e com passado e presente se intercalando pra abranger a trama, e é um tipo de formato que deixa a história bem dinâmica, envolvente e fluída. Além das entrevistas, há descrições de vinhetas e efeitos sonoros do podcast, aumentando a experiência de imersão. É como se estivéssemos mesmo acompanhando o podcast. Um ponto super positivo é sobre as pesquisas que a autora fez sobre esses tipos de casos, então a investigação em si tem uma base sólida e bem aprofundada pra ser desenvolvida tornando tudo muito crível, e por ser um livro de estreia tudo isso deve ser levado em consideração. Pode ser que essa "lentidão" incomode quem goste de thrillers com mais adrenalina.

O problema pra mim (e talvez pra quem já leu outros thrillers mais pesados), é que muitas coisas que acontecem são convenientes e facilitam muito essa jornada da investigação, e isso acaba fazendo com que os leitores consigam pegar pistas que tornam algumas descobertas óbvias. A construção de Elle é muito boa, é uma personagem com camadas e que tem sua motivação justificada para insistir em resolver esse crime. Ela não quer se meter nesse caso apenas pela curiosidade, a coisa vai muuuito além e, mesmo que ela tenha algumas atitudes bem irresponsáveis e que jamais resultariam em boa coisa se fosse algo verídico, é tudo bem interessante de se acompanhar. O assassino é muito bem construído e os detalhes de sua forma de agir dá aquela sensação de pavor. A trama de maneira geral não preza por reviravoltas mirabolantes, mas sim, foca nos mínimos detalhes para não só mostrar esse lado investigativo do caso, mas também transmitir uma mensagem super relevante sobre feminismo e empoderamento feminino, enquanto faz críticas pertinentes ao machismo e a responsabilidade de influenciadores que seguem esse nicho ao falar de crimes na internet enquanto há pessoas envolvidas que podem assistir e serem afetadas por isso.

Na Telinha - Coringa

21 de outubro de 2019

Título: Coringa (Joker)
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy
Gênero: Drama/Thriller
Ano: 2019
Duração: 2h 02min
Classificação: +16
Nota:★★★★★
Sinopse: Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen) é seu maior representante.

Ok, embora eu não seja muito fã do universo da DC, não me contive quando anunciaram o lançamento de Coringa, filme este que se encarregaria de falar um pouco mais sobre as origens de um dos maiores e mais icônicos vilões dos quadrinhos até então.


Final dos anos 70. Arthur Fleck é um homem que sofre com um transtorno psicológico bastante peculiar. Ele não consegue controlar suas emoções, é esquisito e ri descontroladamente nos momentos mais inapropriados que se possa imaginar, despertando, assim, o desprezo, o preconceito e até a violência alheia por ele ser "diferente". Seu maior sonho era se tornar um palhaço para fazer as pessoas rirem, mas por causa de sua doença, as coisas não poderiam sair conforme o planejado.
Arthur mora com a mãe, que também sofre de transtornos mentais, e eles vivem uma vida miserável. Ele depende da ajuda do governo para tratar seu transtorno, mas tudo muda quando Gothan entra numa espécie de colapso político, e a verba destinada a saúde é cortada, deixando Arthur desamparado.


Isso acaba causando uma reação muito negativa em Arthur, que faz com que ele mate a tiros três completos imbecis que estavam assediando uma mulher no metrô e que reagem com violência a uma das crises de riso nervosas de Arthur, e o espancam sem piedade. Esses assassinatos, até então sem um suspeito, acabam desencadeando um movimento popular de extrema revolta em Gothan City, que, na época, era representada por ninguém menos que Thomas Wayne, o pai daquele que futuramente viria a ser o Batman, o pequeno Bruce Wayne. Essa luta de classes pela reivindicação dos direitos do povo é trabalhada de uma forma bastante orgânica, mostrando o contraste existente entre a elite e os pobres oprimidos que levaram Gothan ao caos, e, através desse conflito, o filme acaba dando um novo e original ponto de vista para a origem do Batman, sem nunca se desviar do foco de seu arqui-inimigo, e ainda brincando com os expectadores ao sugerir certos tipos de ligações entre os personagens que surpreendem demais.


Obviamente não é possível falar sobre o filme sem elogiar e aplaudir de pé a atuação magnífica de Joaquin Phoenix, que entregou ao público um personagem peculiar e totalmente doentio com a devida maestria. Além dos vários quilos que ele perdeu para interpretar o Coringa, sua atuação vai além do físico arqueado e pavoroso, chegando a ser perturbadora. É impressionante como ele conseguiu criar risadas diferentes para cada reação que ele tem, mas todas elas são tão maníacas quanto assustadoras.


Este personagem em particular foi construído sem maiores referências para que a história pudesse ser reinventada de uma forma original, mas ainda mantendo a sua essência. A doença de Arthur não é romantizada, ele é tratado como o doente mental que ele é, em que o lado real e obscuro enfrentado por ele sempre ficam em evidência; o seu ponto de vista deturpado, com direito à projeções do que ele idealiza, mas que nem sempre correspondem à realidade; e a forma como ele "abraça" sua loucura se tornando, assim, o Coringa. Sua personalidade é visceral, e é moldada de acordo com as experiências trágicas e amargas nessa sociedade imunda.


Inicialmente ele é apresentado como um homem fracassado, injustiçado, incompreendido, solitário e fraco, mas cada acontecimento trágico enfrentado por ele é responsável por uma mudança que acarreta numa transformação gradual, assim o personagem é desenvolvido no tempo certo e acompanhamos a evolução de alguém no fundo do poço e sem perspectiva alguma, para alguém que, em meio a loucura, ao caos e a anarquia, finalmente se encontrou, se libertou dessas amarras e se tornou tão ameaçador e perigoso.


O filme é impactante e reflete as piores consequências não só de um sonho que não pôde ser alcançado, mas de alguém que aprendeu a se alimentar do caos para espalhar o que há de pior sobre essa sociedade tão doente e podre quanto.
A gente sai do cinema pensando "meudeusdocéu, que espetáculo de filme sensacional". Uma obra prima, um dos melhores filmes da década, sim e com certeza.

A Metade Sombria - Stephen King

5 de agosto de 2019

Título: A Metade Sombria
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Terror/Thriller
Ano: 2019
Páginas: 464
Nota:★★★★★
Sinopse: Criar George Stark foi fácil. Se livrar dele, nem tanto.
Há anos, Thad Beaumont vem escrevendo, sob o pseudônimo George Stark, thrillers violentos que pagam as contas da família, mas não são considerados “livros sérios” pelo escritor. Quando um jornalista ameaça expor o segredo, Thad decide abrir o jogo primeiro, e dá um fim público ao pseudônimo.
Beaumont volta a escrever sob o próprio nome, e seu alter ego ameaçador está definitivamente enterrado. Tudo vai bem. Até que uma série de assassinatos tem início, e todas as pistas apontam para Thad. Ele gostaria de poder dizer que é inocente, que não participou dos atos monstruosos acontecendo ao seu redor. Mas a verdade é que George Stark não ficou feliz de ser dispensado tão facilmente, e está de volta para perseguir os responsáveis por sua morte.

Resenha:  Thad Beaumont é um escritor desde seus onze anos de idade. Atualmente ele vive com a esposa e um casal de filhos gêmeos em Castle Rock. Seus livros, pelo menos aqueles que levam seu nome real, são considerados bem medianos pelo público, mas ele também escreve thrillers perturbadores, violentos e cheios de sangue, usando o pseudônimo "George Stark", e esses livros fazem um enorme sucesso entre os fãs do gênero. Thad inclusive se transformava completamente quando assumia a identidade de Stark, como se adotasse outra personalidade, uma "metade sombria", a ponto de assustar a própria esposa.
Até que um jornalista descobre que Thad está por trás desse pseudônimo e ameaça revelar sua verdadeira identidade ao público. Thad resolve se antecipar, e não só releva o próprio segredo numa matéria de revista, como também "mata" seu pseudônimo, com direito a um funeral simbólico e túmulo fictício, para ficar livre desse peso que tanto o atormenta.

Porém, pouco tempo depois do "funeral" de George Stark, algumas pessoas conhecidas de Thad e que estavam diretamente ligada ao seu segredo começam a morrer, e suas mortes são extremamente parecidas com as que aparecem nos livros assinados por Stark, e como se isso não fosse estranho o bastante, as digitais de Thad ainda são encontradas nas cenas dos crimes fazendo com que ele seja investigado pela polícia. Mas, embora Thad tenha vários álibis para provar sua inocência, ele sabe que seu pseudônimo está agindo de alguma forma por não ter aceitado ser morto. Foi Stark que deu fama e dinheiro a Thad e ele não iria aceitar ser enterrado e esquecido... Mas não seria fácil para Thad convencer as autoridades de que seu pseudônimo ganhou vida...

A Metade Sombria foi publicada pela primeira vez em 1989 e, pra quem é fã e acompanha as obras do autor, vai perceber que a história tem relação com o próprio King, que também usava o pseudônimo "Richard Backman" para escrever histórias ainda mais macabras dos que ele escrevia assinando seu próprio nome, até ser descoberto e "matar" Backman. Talvez a inspiração para escrever esta obra tenha vindo daí, e embora haja algumas repetições de informações, os elementos inesperados da trama, somados a fluidez e ritmo acelerado dos acontecimentos, acabam causando muita tensão no leitor, que fica envolvido e ansioso em meio aos conflitos de Thad/Stark, e para saber que fim tudo aquilo terá.

Esta edição é só elogios. Após o livro ter ficado esgotado por vários anos, ele foi relançado pela Suma de Letras através da coleção Biblioteca Stephen King, cujas edições vêm em capa dura, diagramação e revisão impecáveis. Quem é fã com certeza não pode deixar de ter essa maravilha na estante.

Como renomado escritor de livros de terror, King não poupa detalhes quando o assunto é morte e violência, e a forma utilizada por ele para mesclar suspense com drama é sem igual, então, para quem tem estômago fraco, talvez o livro seja meio pesado para se acompanhar. O livro ainda nos faz pensar sobre termos uma parte escondida e sombria dentro de nós, que pode ser capaz de coisas inimagináveis sem que saibamos.
Pra quem gosta de suspenses com toques sobrenaturais, muito sangue, uma trama envolvente e de quebra ainda conhecer um pouco mais sobre o próprio autor, é leitura mais do que recomendada.

Minha Coisa Favorita é Monstro - Emil Ferris

4 de julho de 2019

Título: Minha Coisa Favorita é Monstro - Livro 1
Autora e Ilustradora: Emil Ferris
Editora: Quadrinhos na Cia
Gênero: Fantasia/Drama/Thriller/HQ
Ano: 2019
Páginas: 416
Nota:★★★★★
Sinopse: Com o tumultuado cenário político da Chicago dos anos 1960 como pano de fundo, Minha Coisa Favorita é Monstro é narrado por Karen Reyes, uma garota de dez anos completamente alucinada por histórias de terror. No seu diário, todo feito em esferográfica, ela se desenha como uma jovem lobismoça e leva o leitor a uma incrível jornada pela iconografia dos filmes B de horror e das revistinhas de monstro.
Quando Karen tenta desvendar o assassinato de sua bela e enigmática vizinha do andar de cima — Anka Silverberg, uma sobrevivente do Holocausto — assistimos ao desenrolar de histórias fascinantes de um elenco bizarro e sombrio de personagens: seu irmão Dezê, convocado a servir nas forças armadas e assombrado por um segredo do passado; o marido de Anka, Sam Silverberg, também conhecido como o jazzman “Hotstep”; o mafioso Sr. Gronan; a drag queen Franklin; e Sr. Chugg, o ventríloquo.
Num estilo caleidoscópico e de virtuosismo estonteante, Minha Coisa Favorita é Monstro é uma obra magistral e de originalidade ímpar.

Resenha: Karen Reyes é uma garotinha de dez anos bem diferente das outras meninas da sua idade. Em vez de bonecas, Karen é alucinada por histórias de terror, com direito a todo tipo de monstro, afinal, os monstros são fortes, ferozes, e capazes de se proteger. Assim, ela mantém um diário onde faz várias ilustrações, inclui seu relatos e faz observações do que está à sua volta. Nesse diário ela reproduz a si mesma como uma "lobismoça", fazendo referências aos filmes B de terror e das HQ's de monstro que ela tanto adora. Karen acredita que ser um monstro lhe dá coragem para lidar com as crianças cruéis da escola e outros infortúnios da vida. Um dia, Anka Silverber, a bela vizinha do andar de cima - que inclusive sobreviveu ao Holocausto -, é encontrada morta em seu apartamento em circunstâncias muito misteriosas. Aparentemente, trata-se de um suicídio, mas Karen suspeita de alguns detalhes e acredita que a Anka foi assassinada. Assim, em meio a personagens bizarros e um cenário tumultuado e sombrio que se mescla às paisagens urbanas de Chicago dos anos 60, acompanhamos a tentativa da garota de investigar e desvendar esse mistério.


O projeto gráfico do livro é um dos mais bonitos que já vi numa obra literária. Ele simula o diário de Karen, um enorme caderno pautado e todo ilustrado com canetas esferográficas, cujas cores se misturam para que vários tons, camadas, sombreados e efeitos enriqueçam ainda mais a história e encham nossos olhos. Há várias anotações nos cantos das páginas junto com os relatos da protagonista, com observações, informações e afins. A riqueza dos detalhes, assim como a forma como a história é contada, é surpreendente.


Assim, a narrativa é feita pela protagonista e mostra a forma como ela precisa lidar com as coisas, geralmente do modo mais difícil, e tudo que ela desenha e escreve se refere aos seus pensamentos e as próprias experiências durante essa jornada. Acompanhamos também alguns dramas pessoais e familiares bastante comoventes, alguns abordam temáticas mais delicadas e outras mais pesadas (como preconceito, homofobia, intolerância, solidão, abusos, sexualidade e afins), com uma boa e necessária dose de crítica social, ao mesmo tempo em que a garotinha faz suas investigações, todas sempre regadas a suspense, mistério, horror e um toque impressionante de inocência em meio ao cenário político, caótico e cheio de brutalidade da época, ou das décadas passadas onde muitos sofreram com a Guerra. É de partir o coração quando a história de Anka vem á tona, pois aborda os horrores que os judeus sofreram durante a Segunda Guerra, mas Karen, que está narrando e ilustrando o que ouviu, não entende muito bem o que tudo aquilo significou.


A história é um pouco complexa e é o tipo de leitura que deve ser feita com calma até engatar e se acostumar com o estilo, apreciando os detalhes das ilustrações e sempre atenta às observações da menina e às metáforas que se fazem presentes. Como se trata de um diário, a diagramação remete ao mesmo com perfeição, logo as páginas simulam colagens, papéis presos com clipes, rabiscos aleatórios, anotações em todos os cantos, fora as ilustrações maravilhosas cujos traços são únicos, e é preciso uma interação maior com o livro. Como é um livrão enorme e pesado, pode ser um pouco desconfortável no começo girar o livro ou ficar virando a cabeça para ler as laterais, mas acho que faz parte da experiência de ter esse "diário" em mãos, e achei o máximo.


O livro foi dividido em duas partes, a segunda ainda não foi lançada, então não esperem por um desfecho que encerra essa jornada. Pra quem gosta de obras emocionantes com foco no visual, que trazem personagens sólidos e bem construídos, com toques de mistérios, sensibilidade, e com uma abordagem cirúrgica e emocionante sobre questões relevantes para a sociedade e para nós mesmos, é leitura mais do que indicada.


Bom Dia, Verônica - Andrea Killmore

16 de junho de 2019

Título: Bom Dia, Verônica
Autora: Andrea Killmore
Editora: Darkside Books
Gênero: Thriller/Literatura Nacional
Ano: 2016
Páginas: 256
Nota:★★★★
Sinopse: Em "Bom dia, Verônica", acompanhamos a secretária da polícia Verônica Torres, que, na mesma semana, presencia de forma chocante o suicídio de uma jovem e recebe uma ligação anônima de uma mulher desesperada clamando por sua vida. Com sua habilidade e sua determinação, ela vê a oportunidade que sempre quis para mostrar sua competência investigativa e decide mergulhar sozinha nos dois casos. No entanto, essas investigações teoricamente simples se tornam verdadeiros redemoinhos e colocam Verônica diante do lado mais sombrio do homem, em que um mundo perverso e irreal precisa ser confrontado.
Andrea Killmore compõe thrillers como os grandes mestres, e sua experiência de vida confere uma autenticidade que poucas vezes encontramos em suspenses policiais, vibrante e cruel — como a realidade.

Resenha:  Bom dia, Verônica é um thriller nacional escrito por Andrea Killmore (pseudônimo de não faço ideia quem) e publicado pela Darkside Books. De antemão já posso dizer que o trabalho gráfico do livro, que tem capa dura, assim como de todos os outros da editora, está impecável e super caprichado.

Verônica Torres é uma escrivã da Polícia Civil de São Paulo que está cansada de ver tantas injustiças acontecendo. Os casos são engavetados e esquecidos sem que nada seja resolvido e ela já está cansada dessa situação que a consome dia após dia. Seu chefe é um delegado que já está quase se aposentando e está fugindo de casos complicados (e dos simples também) e não resolve nem tem interesse por nada. Até que num dia rotineiro de trabalho, Verônica presencia o suicídio de um moça em plena delegacia, e como se a situação já não fosse chocante demais, ela ainda recebe uma ligação de uma mulher desesperada e que corre risco de vida nas mãos do marido, mas que ninguém na delegacia tem interesse em investigar se um inquérito não fosse aberto pela própria esposa.

Assim, Verônica resolve investigar os dois casos por conta própria diante de tanto descaso dos demais policiais, tanto para mostrar o quanto é competente, quanto para fazer um pouco de justiça, já que nunca é feita. Mas o que ela não esperava era se deparar com um caso complexo e sombrio, além de se envolver numa trama perigosa que ela jamais imaginou viver.

A narrativa é bastante fluída, e por se passar em São Paulo, tem várias gírias e referências que reforçam que se trata de uma história nacional. A escrita também é bastante crua, com detalhes que incomodam por trazer a realidade de uma forma bastante verdadeira e até cruel. O mistério é interessante e a forma como a autora prende o leitor, revelando detalhes de forma gradual, torna a leitura do livro uma experiência super satisfatória, mesmo que ele tenha várias facilitações narrativas pra dar explicações ou tirar o personagem de alguma situação impossível.

Verônica é um belo retrato da mulher brasileira, que trabalha mais do que ganha, se dedica à família e à casa, e se desdobra da melhor forma que pode pra dar conta de tudo, e por isso está esgotada. Ela está insatisfeita com seu emprego, seu casamento está um lixo, e ela precisa de alguma motivação pra dar um up na sua vida, logo investigar esses casos (e outras cositas mas), iria tirá-la dessa "zona de desconforto". Ela cai naquele clichê da policial inteligente e de personalidade forte que tem seus problemas pessoais que interferem em sua vida profissional, mas isso não significa que ela seja uma personagem admirável que sabe lidar com tudo. Ela é a anti-heroína que faz escolhas e tem atitudes questionáveis e desprezíveis, mas ainda assim busca pela justiça, mesmo que ela precise recorrer a medidas mais drásticas pra isso. Verônica acaba levantando vários questionamentos e reflexões acerca de seu comportamento e até da própria forma como ela encara a vida.
A história também aborda alguns temas bastante pesados, e talvez quem não esteja acostumado com livros policiais possa ficar bem mais impactado com o choque que algumas cenas causam.

No mais, pra quem gosta do gênero, curte personagens nada convencionais, e procura por um bom livro nacional, é leitura super indicada.

Na Telinha - Você (1ª temporada)

27 de fevereiro de 2019

Título: Você (You)
Temporada: 1 | Episódios: 10
Elenco: Penn Badgley, Elizabeth Lail, Ambyr Childers
Gênero: Suspense/Drama
Ano: 2018
Duração: 42min
Classificação: +16
Nota★★
Sinopse: Guinevere Beck (Elizabeth Lail) é uma aspirante a escritora, que vê sua vida mudar completamente ao entrar em uma livraria no East Village, onde conhece o charmoso gerente, Joe Goldberg (Penn Badgley). Assim que a conhece, Joe tem certeza de que ela é a garota dos seus sonhos, e fará de tudo para conquistá-la — usando a internet e as redes sociais para descobrir tudo sobre Beck. O que poderia ser visto como paixão se transforma em uma obsessão perigosa, uma vez que Joe não vai medir esforços para tirar de seu caminho tudo e todos que podem ameaçar seus objetivos.

Você é uma série de suspense/thriller exibida pela Netflix e baseada no livro homônimo de Caroline Kepnes.

Joe é gerente de uma livraria no East Village e, aparentemente, leva uma vida normal. Mas, quando conhece Beck, uma jovem aspirante a escritora, ele fica obcecado por ela, passa a persegui-la, espioná-la, planeja uma aproximação por acaso para conquistá-la e, enfim, firmar um relacionamento que ele tanto quer. E o que deveria ser uma paixão avassaladora, se transforma num jogo perigoso em que Joe não vai medir esforços para afastar, de forma bem sorrateira, qualquer um que esteja em seu caminho ou que possa ameaçar seus objetivos.


A ideia da série ser narrada pelo próprio Joe permite que quem assista tenha acesso aos pensamentos dele e enxergue as coisas pelo seu ponto de vista mui deturpado, diga-se de passagem, e ao mesmo tempo que conseguimos compreender suas motivações, também sentimos repulsa por tudo o que ele tem coragem de fazer da forma mais fria e calculista que já se viu, como um típico psicopata. Assim, tudo o que ele faz no intuito de conquistar Beck acaba sendo tão assustador quanto dinâmico, principalmente quando algo não sai como o esperado e ele precisa improvisar. O suspense se sustenta e mantém o espectador fisgado, ansioso pelo que está por vir.


Talvez o problema maior que a série trouxe foi a ideia de que muita gente romantizou a questão da obsessão, da possessividade e da psicopatia, como se o embuste estivesse fazendo as coisas mais lindas e românticas do mundo em nome do amor, como se ele fosse um bom moço, digno de um final feliz com direito a pombas brancas voando rumo ao horizonte, mas acredito que o brilhantismo da série está aí, nesse terror psicológico, mostrando que alguém como ele é capaz de "ler" e descrever o íntimo das pessoas só de observá-las, consegue chegar de mansinho, usando as palavras e seu jeito amável para manipular e enganar os outros, e quando a pessoa se dá conta (se é que vai se dar conta) que se deixou levar por um completo maníaco, já está num caminho praticamente sem volta, com mínimas condições de se ver livre dessa enorme cilada.


Por outro lado, temos Beck, que é uma personagem um tanto problemática no que diz respeito à própria personalidade. Ela é uma moça bonita e é até compreensível que Joe tenha ficado atraído por ela, mas ela é vazia, egoísta, dependente, precisa constantemente de gente ao seu redor alimentando seu ego para se autoafirmar e, no geral, é totalmente odiosa. Aquele sorriso bonito também esconde muita podridão. Talvez tenha sido por isso que tanta gente gostou muito mais de Joe do que dela, mesmo ela sendo a vítima. E mesmo Joe descobrindo tudo sobre ela, ele se nega a aceitar que ela é um fracasso ambulante e continua insistindo e dando desculpas para todos os erros que ela comete para justificar seu interesse doentio.


No mais, os cenários onde a história se passa dão um ar de aconchego e charme, e funcionam como um convite. Quem poderia imaginar que alguém que trabalha numa livraria, que entende de livros e adore ler, seja um lunático de carteirinha? Tudo é muito convidativo para o perigo, e isso colabora para fisgar o espectador, assim como Beck foi fisgada.

Os personagens coadjuvantes também são bem interessantes e colaboram muito no desenrolar da trama, sejam motivando ou atrapalhando os planos de alguém. Nota especial para Peach, a melhor amiga de Beck, e Paco, o vizinho de Joe. Através de Peach conseguimos ver um outro lado da obsessão, como a manipulação pode vir de onde menos de espera e que nem sempre podemos confiar em quem sempre esteve por perto. E Paco, por ser um garotinho que passa por vários problemas em casa com a mãe e o padrasto, acaba amenizando a personalidade de Joe, pois ele faz com que o lado bom de Joe venha a tona, e talvez por causa dele, o delinquente não seja encarado como alguém inteiramente detestável. Seria algo como "ele ajuda crianças, logo não pode ser tão mau". Parece que tudo está ali colaborando de propósito para que Joe não seja visto como vilão.


A série também toca bastante em questões que envolvem as redes sociais e a forma como as pessoas expõe suas vidas de forma tão gratuita, a ponto de qualquer um saber tudo sobre elas, basta uma rápida pesquisa, e ainda traz reflexões relevantes sobre a geração da atualidade, que sente necessidade de mostrar uma vida de aparências em função de "likes".
O único problema que tive com a série foi com a falta de cuidado com determinadas coisas que envolvem alguns crimes pavorosos, como sequestros e assassinatos. Se alguém morre, basta que o assassino envie uma mensagem pelo celular da vítima avisando que ele estará fora por sabe-se lá quanto tempo e pronto, ninguém se preocupa nunca mais e, de forma bem fácil, lá se foi um obstáculo. Esse tipo de artifício é utilizado com frequência a fim de facilitar a vida de Joe e o desenvolvimento da trama, e por mais que eu tenha ficado presa à ela devido a curiosidade do que estava por vir, não foi algo muito agradável de se acompanhar. No final das contas, muitas coisas ficam sem resposta ou resolução, e espero que na segunda temporada tudo se esclareça, e que haja as devidas punições para quem acha que está impune depois de ter feito tanta merda.


Você é uma série cheia de reviravoltas, que não fala apenas do comportamento doentio de um psicopata/stalker e do que ele é capaz de fazer quando tem alguém na mira, mas se aprofunda com maestria na linha tênue que separa amor de obsessão.

Rio Vermelho - Amy Lloyd

6 de julho de 2018

Título: Rio Vermelho
Autora: Amy Lloyd
Editora: Faro Editorial
Gênero: Thriller/Suspense
Ano: 2018
Páginas: 276
Nota:★★★★☆
Sinopse: Você acredita nele... então porque está com tanto medo?
Como confrontar quem você ama quando você não tem certeza se quer saber a verdade?
Há vinte anos, Dennis Danson foi preso pelo assassinato brutal de uma jovem no condado de Red River, na Flórida. Agora ele é o assunto de um documentário sobre crimes reais que está lançando um frenesi online para descobrir a verdade e libertar um homem que foi condenado erroneamente. A mil milhas de distância na Inglaterra, Samantha está obcecado com o caso de Dennis. Ela troca cartas com ele e é rapidamente conquistada por seu aparente charme e bondade para ela. Logo ela deixou sua velha vida para se casar com ele e fazer campanha para sua libertação. Mas quando a campanha é bem sucedida e Dennis é libertado, Sam começa a descobrir novos detalhes que sugerem que ele pode não ser tão inocente...

Resenha: Há vinte anos, Dennis Danson foi acusado e condenado a dezoito anos de prisão pelo assassinato de Holly Michaels no condado de Red River, na Flórida. A morte da jovem provocou uma investigação a nível nacional sobre as mortes de várias outras mulheres, o que gerou um impacto enorme na mídia. O caso ficou muito famoso e rendeu um documentário, e Dennis passou a atrair a atenção de políticos, celebridades, influenciadores e de diversas outras pessoas, incluindo Samantha.
Samantha é uma professora britânica que teve contato com o caso de Dennis através de Mark, seu ex namorado, e, desde então, ela ficou obcecada pelo rapaz. Ela não concorda com a condenação dele por não haver provas concretas do crime, passa horas na internet em busca de informações e teorias sobre o rapaz, e sua indignação com tamanha injustiça fez com que ela se tornasse um membro ativo dos seguidores dos fóruns que apoiam e fazem protestos pela liberdade de Dennis. No meio de tudo isso, um novo documentário sobre o caso de Dennis seria feito por Carrie, e novas investigações a fim de reunir mais informações sobre o rapaz seriam necessárias.
Quando Sam decide escrever para Dennis para demonstrar apoio, ela se surpreende por ele responder e parecer ser um cara tão simpático e amável. Pouco tempo depois o relacionamento se intensifica, Sam está cada vez mais apaixonada e acaba largando tudo na Inglaterra para ir pros EUA para continuar apoiando e lutando pela liberdade dele. Quando novas evidências sugerem que Dennis era mesmo inocente, não demora para que os dois se casem, e Samantha não vê a hora de recomeçar sua vida ao lado se seu marido. A ideia de viver um conto de fadas com seu verdadeiro amor era algo irresistível pra ela. Porém, com o passar do tempo, Sam percebe que as coisas não são o que parecem, as novas descobertas sobre o caso começam a vir à tona, e talvez Dennis, cujo comportamento mudou drasticamente, possa ser tudo, menos inocente...

A escrita, de forma geral, é excelente. As descrições acerca de personagens e cenários foram feitas na dose certa. A autora também aproveita pra inserir críticas sociais e trazer discussões relevantes à tona de uma forma inteligente e que se encaixa perfeitamente com questões da atualidade, como por exemplo, alguém ser preso apenas por "parecer suspeito".

Os personagens foram muito bem construídos e são muito próximos da realidade. Por mais absurda que possa parecer a ideia de uma mulher interessada em um cara condenado por assassinato, um suposto maníaco perigoso, isso é algo que realmente existe, e ter acesso ao ponto de vista de uma dessas mulheres que largam suas vidas em nome desse "amor", foi algo tão incômodo quanto interessante, pois praticamente nenhum dos nossos questionamentos, desde os menores pensamentos até a própria sanidade mental, passam despercebidos.

O diferencial aqui é que a história não gira em torno do mistério dos assassinatos, mas sim de um relacionamento - que, veja bem, não significa ser um romance! - incomum e que vai se moldando a partir das descobertas sobre o passado dele, e a partir da reação de Sam ao comportamento do marido. Segredos e desconfianças passam a ser o centro desse casamento, e resta saber se Dennis é ou não inocente. Outro elemento utilizado pela autora que funciona como crítica aos moldes da sociedade é sobre o uso desenfreado das redes sociais e da internet pelas pessoas para espalharem suas convicções, julgando (mitas vezes sem saber), tirando conclusões do além, condenando ou inocentando os outros, muitas vezes sem informações reais e concretas, mas que ainda assim desencadeiam grandes comoções e atingem milhões de pessoas, que passam a seguir ou não aquilo.

Samantha é uma personagem complicada, no mínimo perturbada. Sua insegurança e suas experiências passadas são um prato cheio para alguém manipulador que só está esperando uma oportunidade de se dar bem. O que parece é que ela vive em busca de algo para preencher seu vazio, ou de alguém que não a faça se sentir descartável, mas faz isso de forma insana. Ela não parece bater muito bem da cabeça e suas atitudes são questionáveis. E sabendo que Sam precisava de tão pouco, Dennis, que também passou por maus bocados no passado com a família, logo percebeu o que precisava fazer ou falar para controlar esse relacionamento da forma que lhe fosse conveniente. Ele é bastante complexo. Em frente das câmeras ele se comporta como um bom moço, mas na companhia da esposa ele é misterioso e parece esconder coisas, no mínimo, sombrias. Sendo assim, não espere por exemplos de integridade nesses personagens. Eles tem defeitos, alguns são insuportáveis, outros completos malucos, e com certeza algumas de suas escolhas e atitudes vão deixar os leitores agoniados e aflitos.

A diagramação, como sempre, é muito caprichada. O livro apresenta transcrições de depoimentos fictícios do caso, que colaboram bastante para que o leitor fique imerso e realmente acredite nessa história.
Em certos pontos achei que o ritmo da leitura não se manteve. Há várias reviravoltas e caminhos inesperados que a autora deu aos personagens, mas muito da intriga se diminuía frente a elementos não tão interessantes ao meu ver, e isso acabou não me deixando tão surpreendida quanto eu gostaria, mesmo que eu tenha me envolvido o bastante para não largar o livro enquanto não chegou ao final.
Rio Vermelho é aquele tipo de livro que vai deixar os leitores reflexivos acerca de toda a situação doentia criada pela autora, assim como servirá para avaliarmos a ideia de que nem sempre o que acreditamos como sendo a verdade absoluta, por obsessão ou coisa do tipo, corresponde à realidade...

A Fogueira - Krysten Ritter

13 de janeiro de 2018

Título: A Fogueira
Autora: Krysten Ritter
Editora: Fábrica 231/Rocco
Gênero: Suspense/Thriller
Ano: 2017
Páginas: 288
Nota:★★★★☆
Sinopse: Abby Williams é uma advogada de 28 anos especializada em questões ambientais. Hoje uma mulher independente vivendo em Chicago, Abby teve uma adolescência problemática numa cidadezinha no estado de Indiana que até hoje ela luta para esquecer. Mas um caso de contaminação envolvendo uma grande empresa obriga Abby a voltar à pequena Barrens e confrontar seu próprio passado. Quanto mais sua equipe avança nas investigações sobre a Optimal Plastics, mais Abby se aproxima também da verdade sobre o misterioso desaparecimento de sua antiga melhor amiga anos atrás e de outros acontecimentos até então sem resposta.

Resenha: Abigail Williams tem vinte e oito anos e é uma advogada especializada em direitos ambientais. Ela é uma mulher independente, desapegada e muito bem sucedida. Abby nasceu em Barrens, uma cidadezinha bem pequena no estado do Indiana onde ela não foi muito feliz, mas já faz vários anos que ela mora em Chicago.
Aparentemente tudo ia bem na vida dela, até que Abby se depara com um caso relacionado a Optimal Plastics, a principal fonte de economia de Barrens. A empresa foi acusada de contaminar a água da cidade com seus poluentes, o que desencadeou várias doenças nos moradores.
Assim, depois de dez anos, Abby precisará retornar para sua cidade natal a fim de descobrir o que está acontecendo e em paralelo ao caso, ela descobre que sua antiga amiga de infância, Kaycee, desapareceu, e quanto mais ela investiga, mais próxima fica de uma verdade inquietante e rodeada por mistérios.

A história é narrada pelo ponto de vista de Abby e embora seja muto fluída e com detalhes o bastante para ambientar o leitor à trama, alguns deles bastante pesados inclusive, não traz elementos realmente novos. Obviamente a história tem seu próprio rumo, que confesso ser bem surpreendente, mas a impressão é de que a autora juntou fórmulas de várias histórias que todos nós já vimos em algum lugar, e é impossível ler sem levar este ponto em consideração.

Abby e Kaycee eram melhores amigas na infância, mas as coisas mudaram durante a adolescência. Abby passou a ser constantemente humilhada por Kaycee, que se tornou uma "Regina George" do colégio, cheia de súditas que sempre faziam o que ela queria, exatamente como no filme "Meninas Malvadas". Assim, após sofrer muito bullying, depois de se formar, ela partiu pra Chicago e só queria esquecer todos aqueles traumas. Porém, retornar a Barrens faz com que todas as suas mágoas viessem à tona, principalmente porque a cidade não evoluiu, as pessoas são as mesmas e continuam podres, a diferença é que Kaycee sumiu.
Ao mesmo tempo em que Abby precisa lidar com seu passado trágico, ela faz as investigações e descobre uma rede de corrupções além de outras questões mais pesadas, e, pra mim, essa parte além de previsível e nada envolvente, inicialmente lembrou um pouco da história de "Erin Brockovich". Só não me recordo agora de algum filme ou livro em específico que toca no ponto da personagem que retorna às origens e enfrenta seus demônios particulares, mas não acho que seja difícil encontrar algo do gênero. Os conflitos pessoais da protagonista foram trabalhados de uma forma bem mais interessante e que, devido ao teor, mexem muito mais com nossos sentimentos. O fato de que Abby bebe em excesso não seria um problema se isso não afetasse seu juízo e a própria voz narrativa em si. Se ela esquece de algo, nós leitores, como expectadores dependentes do ponto de vista dela, ficamos igualmente a ver navios. Ao meu ver o caso envolvendo a empresa foi um elemento que poderia ser substituído por qualquer outro, e o que importava mesmo era a história de Abby.

Abby é uma personagem introspectiva, que não se abre com facilidade e vive de mal humor (não sei até onde a autora se deixou influenciar pela personagem que ela interpreta nas telinhas, mas são idênticas), e acompanhar a história através do seu ponto de vista foi interessante pois as descobertas dela também são as nossas. Ao sabermos mais dos detalhes de seu passado, ficamos comovidos com tudo o que ela sofreu, e a forma como ela lida com esses assuntos inacabados também é algo fundamental para o desenrolar no caso como da trama em si.

Enfim, A Fogueira não foi uma leitura que trouxe algo realmente novo ou original, mas rendeu bons momentos e é livro indicado pra quem tem interesse em temas polêmicos da atualidade, como corrupção, abuso, misoginia e bullying de uma forma bem diferente do que já vi por aí.

A Desconhecida - Mary Kubica

21 de novembro de 2017

Título: A Desconhecida
Autora: Mary Kubica
Editora: Planeta
Gênero: Trhiller/Suspense
Ano: 2017
Páginas: 352
Nota:★★★★☆
Sinopse: Todos os dias, a humanitária Heidi pega o trem suspenso de Chicago e se dirige ao trabalho, uma ONG que atende refugiados e pessoas com dificuldades. Em uma dessas viagens diárias ela se compadece de uma adolescente, que vive zanzando pelas estações com um bebê. É fato que as duas vivem nas ruas e estão sofrendo com a fome, a umidade e o frio intenso que castigam Chicago. Num ímpeto, Heidi resolve acolher Willow, a garota, e Ruby, a criança, em sua casa, provocando incômodo em seu marido e sua filha pré-adolescente. Arredia e taciturna, Willow não se abre e parece esconder algo sério ou estar fugindo de alguém. Mas Heidi segue alheia ao perigo de abrigar uma total estranha em casa. Porém Chris, seu marido, e Zoe, sua filha, têm plena convicção de que Willow é um foco de problemas e se mantêm alertas. Em um crescente de tensão, capítulo após capítulo, a verdade é revelada e o leitor irá descobrir quem tem razão.

Resenha: Heidi Wood é uma mulher que trabalha numa ONG auxiliando refugiados e pobres, a maioria imigrantes. Ela também faz serviço comunitário, se preocupa com o meio ambiente, separa o que pode ser reciclado do lixo e é um exemplo de cidadã humanitária e consciente. Até que, a caminho do trabalho, num dia frio e chuvoso, ela vê uma jovem perambulando pela estação de trem com um bebê no colo. Heide se preocupou bastante com aquela mãe tão jovem e sua criança, pois aparentemente não estavam bem agasalhadas naquele tempo frio, deviam estar com fome, e talvez pudessem estar passando por várias dificuldades. No dia seguinte, a chuva havia piorado e Heidi avista a jovem outra vez e, num impulso em ajudá-la, seu instinto materno falou mais alto. Heidi se aproxima, descobre que o nome da garota é Willow e o da bebê é Ruby, e ela acaba levando as duas para dentro da própria casa, achando maravilhoso poder cuidar e dar apoio a elas, mesmo que isso contrarie Chris, seu marido, que acha a ideia de Heidi de levar uma desconhecida pra casa uma completa loucura. Zoe, a filha do casal, também acha que a presença de Willow é um problema e não fica nada confortável com ela alí. Então Chris, mesmo trabalhando e estando sempre muito ausente, vai tentar descobrir quem é, de fato, Willow e o que aconteceu para que ela fosse parar nas ruas com um bebê.

A narrativa não discorre de forma cronológica e alterna os pontos de vista entre Heidi, Chris e Willow. Enquanto o casal conta sobre os momentos atuais, Willow está a frente narrando algo em forma de testemunho, o que dá ideia de que algo de ruim e errado aconteceu, mas ainda não sabemos o quê.
Dar mais detalhes sobre o enredo pode ser um problema, pois cada capítulo não só torna a história mais intensa abordando assuntos bem delicados e pesados, como também vai revelando aos poucos as facetas dos personagens e o que todos querem saber. A medida que a leitura progride, é possível ter uma ideia sólida do rumo que a história vai levar, mas ainda assim é algo que surpreende, principalmente no que diz respeito aos personagens, como nem sempre eles têm em sua essência o que aparentam para os outros, e a forma como suas camadas são exploradas.

O casamento de Heidi e Chris é um exemplo bem nítido da realidade de muitos casais. É como se o tempo tivesse transformado tudo em rotina, todos estão desgastados e não parece haver um interesse recíproco em melhorar as coisas. A ausência do marido, a falta de interesse da filha, o sentimento de solidão da mãe que faz tanto pelos outros e recebe tão pouco de volta... é um misto de comportamentos que desencadeiam sentimentos negativos e, talvez, a ideia de Heidi em levar Willow pra casa tenha sido uma forma de preencher essas lacunas.

Talvez o único ponto que eu não tenha gostado muito a fluidez dos acontecimentos na narrativa. Foi tudo lento e arrastado demais, e isso tornou a história um pouco cansativa, por mais interessante que ela possa ser. E quando as coisas começam a acontecer para que as revelações viessem à tona, é tudo muito rápido, como se a autora quisesse dar um fim no suspense e pronto.

Enfim, é um livro que traz temas sérios como abuso infantil, abandono, perdas, traumas psicológicos e as consequências de não tratá-los, a realidade dos moradores de rua, problemas familiares, matrimoniais e afins, todos eles tratados de uma forma palpável e bem crua, então penso que a intenção da autora não deve ter sido só fazer com que o leitor embarque num thriller psicológico instigante, mas mostrar a realidade difícil e cruel das pessoas mais carentes e que são tão tratadas com tanto descaso e indiferença.

Boneco de Pano - Daniel Cole

26 de junho de 2017

Título: Boneco de Pano - Detetive William Fawkes #1
Autor: Daniel Cole
Editora: Arqueiro
Gênero: Thriller/Policial
Ano: 2017
Páginas: 336
Nota:★★★★☆
Sinopse: O polêmico detetive William Fawkes, conhecido como Wolf, acaba de voltar à ativa depois de meses em tratamento psicológico por conta de uma tentativa de agressão. Ansioso por um caso importante, ele acredita que está diante da grande chance de sua carreira quando Emily Baxter, sua amiga e ex-parceira de trabalho, pede a sua ajuda na investigação de um assassinato. O cadáver é composto por partes do corpo de seis pessoas, costuradas de forma a imitar um boneco de pano.
Enquanto Wolf tenta identificar as vítimas, sua ex-mulher, a repórter Andrea Hall, recebe de uma fonte anônima fotografias da cena do crime, além de uma lista com o nome de seis pessoas – e as datas em que o assassino pretende matar cada uma delas para montar o próximo boneco. O último nome na lista é o de Wolf.
Agora, para salvar a vida do amigo, Emily precisa lutar contra o tempo para descobrir o que conecta as vítimas antes que o criminoso ataque novamente. Ao mesmo tempo, a sentença de morte com data marcada desperta as memórias mais sombrias de Wolf, e o detetive teme que os assassinatos tenham mais a ver com ele – e com seu passado – do que qualquer um possa imaginar.

Resenha: William Oliver Layton-Fawkes, mais conhecido como Wolf , é um detetive excepcional. Em 2010 ele foi responsável pela captura de um serial killer que matou vinte e sete adolescentes. Naguib Khalid, o "suposto" assassino, ficou conhecido como Cremador, pois além de dopar as vítimas, ainda ateava fogo nas jovens ainda vivas. O julgamento durou exaustivos quarenta e seis dias, e todas as provas resultantes da investigação de Wolf incriminavam o réu. Mas, numa reviravolta onde alguns fatos a favor de Khalid e contra a conduta de Wolf foram apresentados, os membros do júri, em sua grande maioria, determinaram sua inocência. Wolf se revoltou com a decisão e num acesso de fúria partiu para a agressão contra o réu inocentado promovendo uma enorme confusão no tribunal. Devido a sua reação violenta e o seu comportamento obsessivo durante as investigações, Wolf foi afastado da polícia e submetido a um tratamento psicológico e quatro anos depois foi convocado novamente quando um novo crime brutal foi descoberto: um corpo formado por partes de outros seis corpos, como um boneco de pano macabro, é encontrado num apartamento. E como se isso não fosse o bastante, a repórter e ex-mulher de Wolf, Andrea Hall, recebe fotos da cena do crime e uma lista com os nomes de seis pessoas seguidos por datas em que seriam assassinadas, e o nome de Wolf era o último da lista.
Wolf, então, se junta a sua ex-parceira, Emily Baxter, a fim de encontrar ligações entre as vítimas e impedir o assassino, que sempre está um passo a frente da policia, de matar mais pessoas. E em meio a tudo isso, Wolf não deixa de considerar que há algo de pessoal nessa história ligado ao seu passado...

A história é narrada em terceira pessoa e a escrita é muito fluída. O ritmo dos acontecimentos é bom, tem toques de humor, algumas referências sobre séries, música, literatura e afins, e descrições que detalham muito bem os cenários e as características de forma que o leitor possa visualizar cada momento como se estivesse lá. A trama é convincente e intrincada o bastante para trazer o devido mistério enquanto tentamos ligar vários pontos em meio ao turbilhão de acontecimentos que estão alí, mas há algumas pequenas ressalvas.
Em alguns momentos fiquei com a impressão de que em determinado ponto houve um outro personagem que teve mais destaque que o próprio protagonista, além do foco maior ter recaído sobre salvar as vítimas da lista. Dessa forma, a investigação sobre a identidade do assassino parece ter perdido a devida importância, e só voltou a ganhar espaço no final da trama, quando as pistas começaram a ser fornecidas até o confronto final. Eu não costumo ter muita paciência para aquelas cenas finais e bem clichês onde vilão começa a falar de seus planos e faz confissões sobre seus crimes acreditando que sairá impune por estar "por cima", enquanto o mocinho ainda perde tempo fazendo observações que prolongam ainda mais a situação de risco em vez de por logo um fim na história, e esse livro não é muito diferente disso. Mas ainda assim, apesar desses fatores terem deixado a história um pouco arrastada, ela é envolvente o bastante para prender nossa atenção, principalmente devido aos bons diálogos e a interação entre os personagens ao longo da trama.

Wolf é o detetive em conflito com seu senso de justiça, e isso trouxe consequências em sua vida. Seu apelido não se remete apenas às iniciais do seu nome, mas também define bem sua personalidade e sua forma de lidar com as coisas. Ele é o lobo solitário e comprometido com o que faz, sempre pensando que suas atitudes e escolhas devem ser em prol de um bem maior.
De forma geral, os personagens são bem desenvolvidos, pois possuem falhas, defeitos e complexidades particulares que os distinguem bem um do outro, assim como suas histórias de vida. Todos eles tem um papel de destaque e são importantes para o desenrolar da história.

O ponto que realmente me fez refletir sobre o livro foi o papel da mídia no caso, que, de certa forma, acaba ilustrando perfeitamente bem a realidade e a forma como os crimes são expostos para a população de forma sensacionalista e colaborando para que o pânico seja disseminado. Não importa a gravidade do que está acontecendo ou como a notícia é repassada, desde que haja audiência.

A capa é a mesma da original e condiz bastante com a história. A parte interna da capa segue o padrão da parte externa, com linhas e respingos de sangue. A diagramação é simples, os capítulos são curtos e seguem na mesma página onde o anterior termina.

Boneco de Pano é livro de estreia do autor inglês Daniel Cole, que inicialmente foi escrito como piloto de uma série de TV. É previsto que este seja o primeiro livro de uma série e acho que há material o bastante para tal, principalmente pelo final que me surpreendeu e me deixou bastante curiosa por ser totalmente comprometedor. Pra quem gosta do gênero, é leitura recomendada.