22 de janeiro de 2016

Americanah - Chimamanda Ngozi Adichie

Título: Americanah
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance/Ficção
Ano: 2015
Páginas: 516
Nota
Onde Comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero.

Resenha: A autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é bem conhecida por suas publicações que abordam o feminismo de uma forma bastante direta, e Americanah, um romance político publicado no Brasil pela Companhia das Letras, não é exceção.

A Nigéria de 1990 enfrentava tempos difíceis sob um regime militar bastante rígido que fazia inclusive com que as universidades ficassem em greve por períodos indeterminados, prejudicando estudantes e impedindo que realizassem seus sonhos. Ifemelu, em busca de melhores oportunidades, resolve deixar sua família e seu primeiro amor pra trás, e parte para os Estados Unidos. Mas anos depois, formada em comunicação e blogueira de sucesso, ela decide voltar às raízes, e, secretamente, para Obinze.

O livro é narrado em terceira pessoa através das memórias da protagonista que se desenrolam de forma não linear além de capítulos intercalados que se referem a Obinze, que namorava Ifemelu no ensino médio antes dela deixar seu país. A escrita da autora é bastante fácil e fluída e através das ironias e dos toques de humor podemos perceber as diversas formas de preconceito, mesmo as mais sutis. O que move a trama é a ideia de Ifemelu voltar a Nigéria e os motivos que a leveram a tomar tal decisão.
Em suma, a vida de Ifemelu, desde a infância até a fase adulta, é descrita com perfeição no que diz respeito a detalhes e situações que ela viveu, pois a personagem é aprofundada de tal forma que não nos limitamos a conhecer somente ela, mas também seus pais, sua cultura e estilo de vida que levava no cotidiano até ter decidido deixar tudo pra traz, desfazendo laços e abrindo mão do amor em nome de um sonho que pra ela era maior, mas ao ir embora, Ifemelu se depara com uma realidade totalmente diferente da qual estava acostumada, pois enquanto na Nigéria ela era uma jovem comum que não era tratada com nenhuma distinção em meio as demais pessoas, nos Estados Unidos ela acaba se "descobrindo" negra, e que diante dos outros, isso a tornava diferente, inferior ou pior já que a cor de sua pele ou o aspecto de seu cabelo são fatores determinantes para definí-la. Como ela mesma diz, ela nunca havia pensado nela como uma pessoa negra por nunca ter levado a raça em consideração. Ela "se tornou" negra quando pós os pés na América e percebeu que lá as pessoas tem outros conceitos que até então ela desconhecia.

Um ponto a ser destacado é sobre o blog mantido por ela, o Racenteeth. Lá ela escrevia crônicas irônicas e bem humoradas sobre situações que envolviam o racismo e como tais casos causam impacto. Alguns posts do blog podem ser lidos ao longos dos capítulos para que o leitor fique por dentro do que exatamente Ifem trata, e tais posts são ótimos já que acabam até tornando a escrita mais dinâmica ao ter esse diferencial.

Devido à narrativa que se alterna entre passado e presente, conhecemos diferentes versões dos personagens, ora mais jovens e ora mais velhos, o que possibilita ainda mais conhecê-los a ponto de entendermos suas motivações.
Ifemelu é uma personagem complexa, mas demonstra ser forte, daquele tipo que corre atrás do que quer sem medo de arriscar, e passei a admirá-la bastante. Nos EUA ela não tem estabilidade, e além de imigrante e negra, ainda é mulher, o que colabora ainda mais para julgamentos alheios.
Os personagens secundários também são ótimos e bem construídos, têm profundidade e realmente fazem diferença na representação dos menores detalhes.

Posso afirmar que Americanah é um livro notável, reflexivo e cheio de verdades. Ele aborda questões que envolvem a desigualdade social e o preconceito, a imigração e o racismo, a autoaceitação, a mudança e até mesmo a identidade cultural. É aquele tipo de livro que abala estruturas, quebra conceitos e fica na memória mesmo que tenha chegado ao fim, e permanece com a gente, nos fazendo refletir sobre o mundo em que vivemos.

O livro é muito realista e apesar de abordar um assunto sério e polêmico, ainda tem toques de muito bom humor. Os diálogos são ótimos e remetem à pessoas comuns tornando tudo muito próximo à realidade. Podemos acompanhar Ifem se adequando às condições que lhe são impostas, sendo obrigada, por exemplo, a abrir mão de seu penteado afro e alisar o cabelo para conseguir emprego. E tais cenas nos fazem refletir, nos colocam na pele dos personagens de forma que tenhamos a oportunidade de enxergar a situação pelo olhar de quem é negro e vive (e atura) tudo aquilo.
A autora também faz descrições perfeitas acerca das cidades onde Ifemelu vai sendo possível até mesmo visualizar tais lugares.

A capa é simples, mas já dá ideia do que se trata ao trazer uma silhueta (e branca) de uma mulher com uma enorme cabeleira crespa. As cores dos EUA na capa também tem significado, e o próprio título representa a adequação aos padrões americanos. A parte intrna da capa traz figuras geométricas na cor laranja que lembram a cultura africana completando e dando um toque super especial à obra.
As páginas são amarelas e a diagramação é simples. Os diálogos são apresentados com aspas e não encontrei erros de revisão.

Americanah explora a estrutura das classes americanas, trata das questões raciais e das críticas sociais com maestria e é um verdadeiro tapa na cara que nos abre os olhos para o funcionamento do mundo, principalmente aqueles que ainda se recusam a enxergar ou a entender, mas também traz uma história de amor que, apesar de não ser o fator principal, serve como um verdadeiro fio condutor, aquele verdadeiro e bonito que apesar de todos os obstáculos, perdura e se fortalece.


Nenhum comentário

Postar um comentário