14 de novembro de 2015

Alice no País das Armadilhas - Mainak Dhar

Título: Alice no País das Armadilhas - Alice no País das Armadilhas #1
Autor: Mainak Dhar
Editora: Única
Gênero: Releitura/Fantasia/Sci-fi
Ano: 2015
Páginas: 256
Nota
Onde comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: O planeta Terra foi devastado por um ataque nuclear, e boa parte de sua população se transformou em Mordedores, mortos-vivos que se alimentam de sangue e, com sua mordida, fazem dos humanos seres como eles.
Alice é uma jovem humana de 15 anos que mora no País das Armadilhas, nos arredores da cidade que um dia foi Nova Déli, na Índia. Ela nasceu nessa nova realidade aterrorizante e teve de aprender a se defender sozinha desde cedo.
As coisas mudam quando Alice decide seguir um Mordedor por um buraco no chão: ela descobre a estarrecedora verdade por trás da origem das criaturas e se dá conta da profecia que ela mesma está destinada a consumar — uma profecia que se baseia nos restos chamuscados do último livro encontrado no País das Armadilhas, uma obra chamada Alice no País das Maravilhas.
Uma mistura incomum de mitos, teorias conspiratórias e Lewis Caroll, Alice no País das Armadilhas pode parecer mais uma história de zumbi, mas é uma metáfora instigante de como tendemos a demonizar aquilo que não compreendemos.

Resenha: Alice no País das Armadilhas é o primeiro volume da série homônima escrita pelo autor indiano Mainak Dhar e publicado no Brasil pela Única.
O mundo já não é mais o mesmo. Com a eclosão de mortos vivos, a chamada Insurreição, os governos de grandes potências mundiais atacaram os principais centros de surgimento com armas nucleares a fim de acabarem com esta ameaça. Os Mordedores tentavam aumentar sua população mordendo os humanos, pois através da mordida eles se transformavam. Mas toda a destruição causada pelos homens não foi o suficiente para acabar com essas criaturas, e desse apocalipse surgiu uma luta pela sobrevivência entre humanos e errantes numa terra devastada, estéril e triste que agora ficou conhecida como o País das Armadilhas.

E neste cenário somos apresentados à Alice, uma garota loira de quinze anos que vive nas cercanias do que antes era Nova Déli, num assentamento com os pais e a irmã mais velha, e mais um grupo de outros humanos sobreviventes e resistentes. Ela nasceu depois da Insurreição e não conhece nada do que o mundo foi antes. Alice passou a infância brincando com armas, explosivos e aprendendo como matar e destruir os mortos-vivos. Ela aprendeu a atirar e se tornou umas das melhores atiradoras do acampamento. Por ser veloz, observadora e ter uma excelente pontaria, Alice colaborava com a defesa do local, esperando em pontos estratégicos para acertar Morderores que pudessem ter escapado da força dominante. Seu pai, o líder do assentamento, não permitia que ela se distanciasse e ela acabava se entediando por ter que ficar em constante observação, só ouvindo de longe o estampidos dos tiros sem saber o que estava acontecendo. Mas, curiosa, Alice resolveu se arrastar para poder ver além, e, para sua surpresa, avistou um Mordedor. O fato de ele estar usando orelhas de coelho não foi o que lhe causou estranhês, afinal, quando as pessoas se tornam errantes elas continuam vestindo as roupas que usavam antes da morte, mas sim que ele não estava vagando aleatoriamente. Ele parecia procurar algo, e pra alguém desprovido de raciocínio e inteligência, isso não é algo comum. Até que ele foi literalmente engolido por um buraco no chão e Alice, perplexa, o seguiu. Ela já havia ouvido rumores de que bases subterrâneas onde os errantes viviam existiam, e de lá eles surgiam para continuarem devastando tudo pela frente. Saber o local de uma dessas bases daria uma grande vantagem ao acampamento durante um ataque. O que Alice não esperava era ter encontrado uma delas e muito menos escorregar buraco abaixo para ser encurralada por um grupo pútrido de mortos-vivos, incluindo o Orelhudo que lhe despertou curiosidade. Na base, ela conhece uma mulher misteriosa que se denomina Rainha dos Mordedores, e Alice descobre mais sobre eventos que irão entrar em contradição com tudo o que ela aprendeu e acreditou ser verdade, principalmente quando ela é informada de que faz parte de uma profecia tirada dos restos de um livro intitulado Alice no País das Maravilhas, e que a salvação do mundo está em suas mãos. Será que a guerra entre errantes e humanos é realmente necessária? Como e por que exatamente ocorreu essa eclosão de Mordedores? O que pode estar por trás dessa história e qual é o verdadeiro papel de Alice alí?

Narrado em terceira pessoa, o livro discorre numa leitura fácil, rápida e fluída, com descrições detalhadas e bem explicativas sobre situaçãos, personagens e cenários de forma a introduzir o leitor ao ambiente pós-apocaliptico e ao que aconteceu para que o mundo chegasse aquele ponto. Alguns trechos são um pouco repetitivos mas Alice no País das Armadilhas é aquele tipo de história em que as coisas acontecem muito rápido, personagens vem e vão sem que tenhamos tempo de nos apegarmos a eles, e isso acabou me fazendo sentir falta de um aprofundamento maior já que envolve questões delicadas que vão muito além do faz-de-conta.
Pra quem gosta de histórias que envolvem o universo zumbi, com lutas, tiros, carnificina e sangue vai gostar, mas o livro não é feito somente desses elementos. No enredo há questões políticas e conspiratórias construídas de forma bem inteligente, pois nos deparamos com a ideia do esforço de uma força maior, munidos de alto poder de fogo e soldados treinados, para manter o povo alheio ao que realmente aconteceu no passado para continuarem ditando as regras conforme convém. Então além da ação, ainda há um quê de mistério, despertando nossa curiosidade sobre os reais propósitos de quem detém o poder.
E como se essa combinação já não fosse o bastante para despertar nossa curiosidade, ainda temos os elementos criados por Lewis Carroll no clássico Alice no País das Maravilhas adaptados à obra de forma superficial, mas genial, afinal, a história fala basicamente sobre guerra e interesses políticos.
Ficção científica, fantasia, ação e toques de distopia se misturam e formam uma trama de caráter único, apresentando uma personagem jovem e inteligente que, ainda que sem intenção inicial, acaba descobrindo o que há por detrás dos interesses das potências governamentais e é peça chave para que a verdade seja levada à tona, logo o livro também faz uma crítica à política mostrando que, independente do lugar, sempre haverá sujeira e ganância, mas que somente a força do povo é capaz de derrubar o sistema, desde que trabalhem unidos e focados em prol de seus objetivos.


A capa é linda e bastante sugestiva ao mostrar silhuetas de árvores secas e criaturas "demoníacas" que penso ilustrarem o demônio interior de cada um ou a forma como vêem as coisas ou são vistos por outros. A diagramação é simples, os capítulos são numerados por extenso e possuem pequenos ornamentos que dividem as cenas. As páginas são amarelas e encontrei alguns poucos erros na revisão. Não é nada que comprometa a leitura, mas são frases que eu li e reli pra conferir se estavam mesmo certas por estarem estranhas como "Alice achou que ele estivesse prestes atacá-la." (pág. 96) Faltou um "a" alí depois do "prestes", não? Me deparei com um trecho (no fim da pág. 49) onde Alice saía correndo pra pegar um transmissor de rádio que havia sido jogado e caído a centímetros dela. Se estava a centímetros ela não poderia ter dado um único passo? Como é possível alguém sair correndo por centímetros de distância? Não sei se isso foi erro na tradução ou na adaptação, mas coisas assim, mesmo que bobas, me incomodam durante a leitura porque fico só pensando naquilo enquanto leio e acabo me distraindo.

Alice no País das Armadilhas é um misto de Resident Evil The Walking Dead e eu gostei bastante da história, tanto pelo tema abordado quanto pela mensagem que passa sobre criarmos uma resistência e termos preconceitos sobre coisas que estão além da nossa compreensão, afinal, nem sempre o que pensamos corresponde à realidade e nem sempre quem acreditamos ser o vilão, realmente é, da mesma forma que nem sempre quem diz nos proteger quer o nosso bem...
Pra quem quer acompanhar uma heroína destemida em busca de algo que dará esperança de uma vida melhor ao povo, recomendo.


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