9 de setembro de 2015

Novidades de Setembro - Companhia das Letras

A História dos Judeus - À procura das palavras 1000 a. C. - 1492 - Simon Schama
Nesta jornada através dos tempos, Simon Schama detalha a experiência judaica, de suas origens como povo tribal à descoberta do Novo Mundo, em 1492. Da Índia à Andaluzia, dos bazares do Cairo às ruas de Oxford, o leitor será levado a lugares inimagináveis.
Trata-se de um épico de resistência contra a destruição, criatividade na opressão, afirmação da vida diante de obstáculos intransponíveis. O Talmude é queimado nas ruas de Paris, corpos de judeus pendem em cadafalsos espalhados pela Londres medieval, um iluminador de Palma de Maiorca redesenha o mundo. Não estamos diante de uma cultura à parte, mas de um povo influenciado por todos aqueles com os quais habitou, dos egípcios aos gregos, dos árabes aos cristãos.
A história dos judeus é a história de todo o mundo.

Te vendo um Cachorro - Juan Pablo Villalobos
A rotina de Teo não está nada fácil. Aos 78 anos, acaba de se mudar para um prédio decadente cheio de anciãos. É recebido com pompas à altura de seu papel de escritor, embora nunca tenha escrito um único livro. Passa os dias entre as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber diariamente às custas de um pecúlio que deve durar até a sua morte.
Em vidas em que nada acontece além de varizes à mostra, refluxos e baratas por todo lado, o grande evento do prédio é uma tertúlia literária, cujos participantes se impuseram o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem com miolo de pão e ginástica aeróbica - tudo organizado pelos moradores, “convencidos de que a aposentadoria era um segundo jardim de infância”.
Herdeiro do temperamento artístico do pai, um pintor fracassado, Teo tenta se adequar aos perigos do cotidiano, como matar baratas no elevador com cuidado para evitar balanços bruscos, citar trechos da Teoria estética de Adorno para fugir de conversas embaraçosas e espionar o segredo de um restaurante chinês que, apesar de sujo, consegue manter as baratas do lado de fora. E sempre, sempre tentando convencer os novos amigos de que não é - e nunca foi - um escritor.
Não. Pra dizer a verdade, este livro não é nada isso.
Te vendo um cachorro trata de uma mãe e de um vendedor de tacos obcecados por cães. Ela para aplacar a solidão; ele para lucrar um pouco mais com o seu negócio. É também a história de um garoto que herdou, não se sabe se por destino ou talento, a taqueria do tio e, com ela, a técnica de preparar tacos à base de filés caninos...
Mas é possível que o cerne desse romance seja mesmo ironizar os desejos sexuais, a velhice, a vida adulta, a juventude, a literatura, os religiosos, os críticos, os leitores e o México. De concreto, sabemos apenas que o herói do romance é de uma integridade singular, e isso fica bastante claro quando tentam lhe atribuir mais uma vez um passado mentiroso, desmerecedor de sua história: “Pode-se saber do que estou sendo acusado? De ser escritor? Pois eu me declaro inocente!”.

A Conexão Bellarosa - 4 novelas - Saul Bellow
Saul Bellow é um mestre da ficção de língua inglesa. Inspirados pelo seu estilo - que mistura a alta cultura com a esperteza das ruas de Chicago -, autores como Philip Roth, Martin Amis e Ian McEwan fizeram seus primeiros voos literários.
As quatro novelas deste volume, escritas na fase final da vida do autor - Um furto, A conexão Bellarosa, Uma afinidade verdadeira e Ravelstein -, são o testemunho do talento e da vitalidade do maior renovador do romance americano depois de William Faulkner. Com temas como a perseguição ao próprio passado, as tragédias do século XX, o adultério e a comédia da vida intelectual, as histórias são tão divertidas e leves quanto melancólicas e intrincadas. Um triunfo.

Sombras de Reis Barbudos - José J. Veiga
Publicado pela primeira vez em 1972, Sombras de reis barbudos foi tido como alegoria do regime militar brasileiro, ao contar a história de uma cidade que recebe a Companhia Melhoramentos de Taitara, símbolo da modernidade. Aos poucos, porém, a empresa impõe uma rotina tirânica aos moradores.
Décadas depois de sua estreia literária, os críticos de José J. Veiga lançam nova luz à obra do autor, ampliando seu alcance. Embora tenham influência do realismo mágico, seus livros não se encaixam nessa vertente; exploram o universo infantojuvenil, mas vão além do romance de formação.
O leitor pode agora atestar por si só por que José J. Veiga é considerado um dos melhores autores brasileiros do século XX.

Resta Um - Isabela Noronha
Lúcia sempre foi uma mulher que enxergou a vida pelo viés dos números. Professora respeitada do curso de matemática da Universidade de São Paulo, sua lógica cartesiana parecia manter sob controle todos os aspectos da existência. Um dia, porém, sua única filha, Amélia, não volta para casa. A criança desaparece sem deixar rastro, abalando tremendamente o pensamento racional da mãe.
Anos depois, a professora, que deixou a universidade e desfez o casamento, segue com a esperança de encontrar Amélia - embora seja a única a acreditar nessa possibilidade. E seus esforços parecem não ter sido em vão, pois recebe um e-mail que traz, por fim, a pista de alguém que diz conhecer o paradeiro da menina.
Entre a busca de Lúcia e a narrativa do desaparecimento de sua filha, acompanhamos as divagações de uma senhora que dedica a vida a cuidar do seu pomar.
Isabela Noronha costura neste romance de estreia uma sofisticada trama psicológica que cresce a cada página, levando-nos pelos estágios do desespero de uma mãe que perde o que lhe é mais valioso.

Assim foi em Aushwitz - Testemunhos 1945-1986 - Primo Levi e Leonardo De Benedetti
Primo Levi tinha só 24 anos quando foi deportado para Auschwitz, a fábrica construída pelos nazistas para exterminar judeus e minorias. Químico, Levi trabalharia junto a outro prisioneiro, o médico Leonardo De Benedetti.
Em 1945, após a libertação, soviéticos encarregaram os dois de um relatório sobre as condições de saúde dos campos.
O resultado, publicado em 1946, foi um testemunho pioneiro dessa experiência atroz, que inaugura o trabalho de Primo Levi como escritor. Depois, o químico continuaria contando a experiência de Auschwitz nas histórias, pesquisas e nos comentários agora recolhidos, que, graças à coerência, clareza e o rigor do método, reforçam a potência narrativa do autor.

Assim Começa o Mal - Javier Marías
Na fervilhante Madri pós-ditadura franquista do início dos anos 1980, Juan De Vere começa a trabalhar como secretário particular do cineasta Eduardo Muriel. Graças à sua função, de Vere se insere na privacidade da família, convertendo-se num espectador da união misteriosa e infeliz entre Muriel e sua esposa Beatriz Noguera.
O cineasta encarrega seu secretário de investigar um amigo, dr. Jorge Van Vechten, cujo comportamento indecente no passado foi motivo de rumores. Mas De Vere passa a tomar iniciativas questionáveis, com profundas repercussões na vida de todos. Sua atitude vai lhe mostrar que não há justiça desinteressada e que tudo - o perdão ou castigo - são decisões arbitrárias.


O Grifo de Abdera - Lourenço Mutarelli
Mauro é roteirista dos quadrinhos de Paulo. Os dois publicam sob a alcunha de Lourenço Mutarelli, e são representados publicamente pelo bêbado Raimundo. Mas a morte de Paulo forçará Mauro a tentar uma carreira solo com O cheiro do ralo, seu primeiro e bem-sucedido livro. É quando ele recebe de um estranho uma moeda antiga, o Grifo de Abdera, e sua vida muda.
Oliver não conhece Paulo, Mauro, Raimundo ou Lourenço. Mas, quando Mauro recebe a moeda, uma conexão se forma entre eles.
É este delicioso jogo que alimenta O grifo de Abdera, primeiro romance de Mutarelli desde Nada me faltará, de 2010. Um labirinto de obsessões, taras, perguntas e mistérios, acompanhado ainda de uma longa história em quadrinhos.

As Rãs - Mo Yan
“Um não é pouco; dois é bom; três é demais.” Eis o slogan lançado pela Nova China em 1965 - quando as crianças, esfomeadas, “brincam” de comer carvão - para conter o rápido crescimento populacional, numa política de planejamento familiar que se perpetuará por décadas. Nesse contexto, o Nobel de literatura Mo Yan dá voz a Corre Corre, aspirante a escritor que vê a tia como heroína e quer transformar sua vida em peça de teatro, não sem antes rememorar sua história.
Trata-se de fato de uma mulher extraordinária. Nascida em 1937, é a primeira parteira da aldeia a estudar obstetrícia e a enxergar o ofício para além de métodos supersticiosos. Combinando a compaixão de médica a uma autoridade de general, logo se torna a oficial responsável pelo controle de natalidade. Ela deve educar jovens famílias a terem apenas um filho e, quando necessário, realizar abortos, levando a diretriz do Estado às últimas consequências.
Conforme os anos se passam neste épico intergeracional, a política do filho único se burocratiza e corrompe, mas a tia de Corre Corre, revolucionária convicta, não enxerga os podres do sistema imoral em que está enredada. Se em chinês a palavra “wa”, que dá título ao romance, significa tanto “rã” como “bebê”, as rãs desta trama são objetos de horror e desejo, como os filhos da Revolução Cultural na China, muitas vezes cobiçados pelas famílias e renegados pelo Estado.
De atmosfera exuberante e imaginário plástico, As rãs traz o melhor do realismo fantástico, comprovando por que Mo Yan costuma ser comparado a Gabriel García Márquez. O lirismo, a inventividade da linguagem e a forma bem-humorada de tratar os cenários mais dramáticos, oscilando entre a poesia e o horror, o naïf e o escárnio, transformam esse relato ambientado em uma aldeia da China em clássico universal.



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