14 de agosto de 2015

No Coração da Floresta - Emily Murdoch

Lido em: Julho de 2015
Título: No Coração da Floresta
Autora: Emily Murdoch
Editora: Agir Now
Gênero: Drama/YA
Ano: 2015
Páginas: 272
Nota
Onde comprar: Saraiva | Submarino | Americanas
Sinopse: E se tudo o que você soubesse fosse uma mentira? E se a pessoa que deveria te proteger não tivesse condições nem mesmo de cuidar de si mesma? Carey é uma jovem de 15 anos com uma história de vida difícil. Levada às escondidas pela mãe para um parque nacional quando ainda era uma criança, tudo o que ela e a irmã menor conhecem é a floresta. Elas só têm uma a outra, considerando que a mãe, viciada em drogas e mentalmente instável, muitas vezes desaparece por dias sem fim. É durante um desses sumiços que repentinamente as meninas se vêem diante de dois estranhos, que as tiram da floresta e as levam para um mundo novo e surpreendente de roupas, meninos e aulas. Agora Carey precisa enfrentar a verdade por trás do seu passado e decidir se vale a pena revelar um terrível segredo, que, caso descoberto, pode colocar em risco a segurança e a nova vida das duas irmãs.

Resenha: No Coração da Floresta é o livro de estreia da autora Emily Murdoch publicado no Brasil pela Agir Now.
O livro conta a história de Carey, de quinze anos, e Janessa, de seis, duas irmãs que vivem num trailer dentro do Bosque dos Cem Acres, enfrentando seus limites, numa pobreza extrema, sem conforto, sem luz, caçando pequenos animais para cozinharem numa fogueira e só tendo uma à outra com quem contar. Joelle, a mãe delas, é viciada em drogas e, nas raras vezes em que aparece, traz alguma comida enlatada e depois some por semanas, até meses, deixando as meninas sozinhas.
Carey acaba fazendo o papel de mãe de Janessa já que fica responsável por não deixar que morram de fome além de manter a irmã em segurança, sempre.
Depois de muito tempo sem que a mãe aparecesse, as meninas recebem uma visita inesperada de um homem e uma mulher do serviço social com uma carta escrita por Joelle falando que ela não tinha mais condições de cuidar das filhas. As meninas, então, são retiradas daquele ambiente e levadas para ficarem com o pai. A partir desse momento, a vida de Carey e Janessa se transforma da água pro vinho, pois nada é um mar de rosas como deveria ser... Acompanhamos uma história envolta por lembranças tristes, pelos seus segredos e como as coisas se desenrolam quando elas, enfim, são incluídas no convívio social, numa casa onde o conceito de família realmente existe e elas precisam se ajustar... As árvores não são mais um refúgio e nem podem esconder o que tanto as assombram...

O livro é dividido em três partes que ilustram as novas fases da vida das meninas, desde quando foram resgatadas, a adaptação na casa do pai e enfim quando decide revelar o que aconteceu que fez Janessa parar de falar. Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Carey, vamos acompanhando sua versão dos fatos e como ela enxerga a mudança em sua vida, além de sabermos de segredos terríveis que ela e a irmã juraram nunca revelar a ninguém, afinal, "o que acontece na floresta, fica na floresta".
No Coração da Floresta é um livro escrito com uma habilidade ímpar pois consegue transpassar os sentimentos da protagonista com bastante realismo, de uma forma que é possível captar toda a dor, medo, tristeza e conflitos internos pelos quais ela passa. Carey é determinada e pode ser considerada uma sobrevivente por ter enfrentando coisas que ela jamais deveria ter que enfrentar. Ao longo da história vemos seu progresso de alguém reclusa para alguém que tenta se adaptar ao mesmo tempo em que receia que seus segredos possam prejudicar ou colocar a irmã em risco. Ela saiu de um ambiente completamente precário para uma casa com conforto onde, em vez de ser a responsável por cuidar, seria cuidada por adultos sensatos que abriram os braços para ela e a irmã. Aos poucos ela terá de se acostumar à vida nova e a não ter as responsabilidades que havia assumido.
A relação entre irmãs é o ponto forte da história, pois Carey e Nessa possuem um vínculo inquebrável que surgiu devido as circunstâncias em que viveram e que se mantém mesmo que suas vidas tenham sofrido uma reviravolta bastante considerável.
Carey foi forçada a assumir um papel de adulta quando deveria ser criança, então achei válido ela ser alguém bastante madura pra pouca idade que tem, mesmo que tenha sofrido tanto abuso e ainda ter sido levada a acreditar em coisas que não necessariamente eram verdade...
O mistério da história gira em torno do segredo de Carey, e embora eu tenha achado que se alongou muito pra ser desvendado, ainda foi convincente o suficiente pra justificar o comportamento e o medo da garota.
Um ponto que me agradou bastante foi como a autora trabalhou a personalidade de Carey de uma forma, que até então, foi única pra mim. Carey foi vítima do abuso mas por mais que guarde traumas ainda tem uma voz ativa. Sua linguagem inicial é pobre, ela fala várias palavras erradas, mas acredito que isso tenha fortalecido sua construção para que se tornasse uma personagem bastante autêntica. Por mais que ela viva pisando em ovos, Carey optou por se comportar sempre com educação e respeito na esperança de ser aceita junto com a irmã, independente do que foi obrigada a viver. Sua maior preocupação é o bem estar de Nessa e é por isso que ela ainda segue em frente.
E nesse progresso, ainda que difícil, ela conhece pessoas novas que lhe inspiram confiança, que a ajudam e ainda reencontra alguém que pode despertar nela um sentimento que ela até então desconhecia e que, de certa forma, pode servir de auxilio para ela deixar o horror do passado para trás para aceitar o presente e ainda continuar a fazer o melhor que pode...
E parem tudo para Melissa, a esposa do pai de Carey, é um amor de pessoa que recebe as meninas como se fossem as próprias filhas indo contra todos os conceitos de madrasta do mal que vemos por aí.

A edição da Agir Now está perfeita. A capa é muito bonita e a diagramação é bastante caprichada. A autora utilizou alumas citações retiradas do Ursinho Pooh que conseguem definir bem o momento delicado da parte em questão, cada início de capítulo mostra uma ilustração da floresta, a fonte tem um tamanho super agradável, as páginas são amarelas e não percebi erros de revisão.

Este é um daqueles livros raros cuja história vai deixar o coração apertado, torcendo para um final feliz a qualquer custo. Me fez refletir sobre o quão terrível pode ser para uma criança conviver com adultos mentalmente instáveis ou que se afundam num mundo sem volta deixando de lado todos os valores que importam e deviam ser respeitados, assim como deve ser difícil sofrer tanta tortura psicológica de alguém que deveria ser a principal pessoa a nos proteger de qualquer mal. Nada é pior do que crescer num ambiente sem amor, sem segurança, sem recursos, sem ter em quem confiar ou a quem recorrer quando preciso, e caso o socorro não venha a tempo, sabe-se lá Deus o quê pode ser da vida dos envolvidos... Mas por mais trágico que tudo possa ser, sempre vai haver uma luz no fim do túnel.
A estreia da autora foi excelente e superou as expectativas pois apresenta um livro com uma trama intensa sem clichês e exageros que vai fisgar o leitor do início ao fim.


3 comentários

  1. Eu estou apaixonada por essa resenha, o título já me chamou atenção, e a capa meu Deus muito perfeito, vou comprar logo esse livro!!

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  2. Uau Flávia.
    Enquanto lia a resenha me lembrei do filme Mama, que o Guillermo Del Toro fez, embora seja bem fantasia e as meninas sejam mais novas.
    O livro parece realmente ser bem interessante, com muito conteúdo para discussão. Gostei bastante.
    Abraços! | Blog Saphy | Fanpage

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    1. Oie, Diva!
      Também me lembrei de Mama pela questão das meninas ficarem praticamente sozinhas se virando no meio do mato e depois precisarem se readaptarem numa casa e na sociedade. Não sei de onde surgiu a inspiração da autora para a premissa, e mesmo que a história tenha tido um rumo diferente com um conteúdo bem mais pesado, não deixou de ser interessante e acho que é uma leitura daquelas que servem até para clubes de leitura, pra se discutir e trocar ideias sobre.
      Bjos!

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