22 de maio de 2017

Resistência - Affinity Konar

Título: Resistência
Autora: Affinity Konar
Editora: Fábrica 231
Gênero: Romance/Holocausto
Ano: 2017
Páginas: 320
Nota:
Sinopse: Auschwitz, 1944. As gêmeas Pearl e Stasha têm 12 anos quando desembarcam no campo de concentração nazista na Polônia. à medida que conhecem o horror e têm suas identidades fraturadas pela dor e sofrimento, tentam confortar uma à outra e criam códigos e jogos para se proteger e recuperar parte da infância deixada para trás. Mas quando Pearl desaparece sem deixar pistas, Stasha se recusa a acreditar que a irmã esteja morta e embarca numa jornada desesperada em busca de justiça, paz e de si mesma. Livro notável pelo The New York Times; Livro do Ano pela Amazon e pela Publishers Weekly; indicação de leitura dos principais veículos de imprensa norte-americanos, Resistência narra, com uma voz poderosa e única, a trajetória de duas irmãs lutando pela sobrevivência em um dos períodos mais devastadores da história contemporânea e mostra que há beleza e esperança até diante do caos.

Resenha: Histórias sobre o Holocausto revivem lembranças amargas, emocionam e nos mostram como a vida das pessoas que o enfrentaram foi trágica o bastante para fazer com que nossos problemas do dia-a-dia sejam reduzidos a nada.
Resistência, romance da autora americana Affinity Konar, foi baseado na história das romenas Miriam e Eva Mozes Kor, irmãs gêmeas sobreviventes dos campos de concentração nazistas, trazendo à tona uma pequena parcela dos horrores dessa época terrível que marcou a humanidade de forma indelével. Uma pequena pesquisa basta para qualquer um ficar aterrorizado com o que é encontrado... Mas em meio aos eventos do Holocausto também foi possível encontrar pequenos gestos e momentos de pessoas que se apoiaram na esperança e no amor a fim de superar as adversidades, ou pelo menos para tentar lutar pela sobrevivência quando tudo parecia estar perdido.

Pearl e Stasha são irmãs gêmeas, inseparáveis desde o útero. Elas se completam, se admiram e se preocupam uma com a outra de uma forma que não se pode medir. Aos doze anos, quando as irmãs são levadas para Aushwitz e são separadas da mãe, que assim como outros pais, acreditou estar protegendo as filhas dos nazistas, elas só podem contar uma com a outra já que tudo o que elas conheciam já não fazem mais parte de suas vidas. Confinadas de maneira sub humana no lugar chamado Zoológico de Mengele junto com várias outras crianças gêmeas ou com características genéticas consideradas peculiares, elas ficam sob o poder de Josef Mengele, o cirurgião nazista mais sádico e sanguinário da história do Holocausto, que podia ser considerado a personificação da própria morte.
As crianças passavam por experimentos genéticos que não serviram para nada a não ser trazer dor, sofrimento, sequelas irreversíveis ou morte.

Quando Stasha e Pearl chegam em Aushwitz e percebem que estão numa nova e sombria realidade, o que lhes resta são suas lembranças, as brincadeiras que criam como válvula de escapa para se desligarem daquela situação e a esperança de que no final tudo vai dar certo, porém, a cada novo teste que elas e as demais crianças são submetidas, mais difícil e doloroso fica para suportar. Por amor a irmã, Stasha ainda deixa com que Mengele a use como cobaia em vários experimentos a fim de poupar mais sofrimento a Pearl, sem considerar as consequências que isso teria futuramente.
Até que Pearl desaparece, e Stasha já não sabe mais como levar o que lhe resta de vida sem a irmã, aquela que é sua metade.

O livro é dividido em duas partes. A primeira mostra o confinamento das irmãs no campo de concentração, e a segunda trabalha os acontecimentos após a invasão da União Soviética ao libertar o campo. O livro é narrado em primeira pessoa e os capítulos se intercalam entre Stasha e Pearl. A história já é iniciada com as meninas sendo levadas, logo não há uma introdução para que o leitor possa conhecê-las melhor antes dos acontecimentos no Zoológico de Mengele, mas logo de início já fica claro o quanto Stasha parece depender muito da irmã.
A escrita da autora é poética e possui uma delicadeza sem igual. Não acredito que seja muito fácil descrever tais horrores de forma que os leitores não queiram largar o livro agoniados com tanto sofrimento, mas a doçura presente na forma de descrever as coisas, talvez pelas personagens serem crianças e ainda não terem plena noção do que realmente estava acontecendo, muitas coisas acabam ficando nas entrelinhas, mexendo com a imaginação do leitor que, obviamente vai saber que alguma coisa muito ruim aconteceu alí, então só nos resta torcer pelas meninas, mesmo que com um aperto no coração. Embora as descrições acerca dos experimentos, e até da obsessão que Stasha desenvolve por essa "ciência", sejam leves, ainda causam um impacto muito grande, nem que seja apenas pela ideia de fazer algo do tipo. Em meio ao sofrimento, é possível perceber que o amor que une as irmãs é algo maior e que vai muito além.

Uma coisa que me deixou um pouco incomodada foi o fato de Stasha amar tanto a irmã que seu maior desejo não era só estar junto com a irmã, mas também SER Pearl. Esse amor me soou mais como uma fixação, um sentimento de posse que não me parecia nada saudável e muito da história se foca nessa relação, talvez a fim de amenizar as partes destinadas as atrocidades cometida por Mengele em seus experimentos horrorosos. Ele inclusive não só realizava testes bizarros e brutais, mas também se comportava de forma amigável a fim de conquistar a confiança das crianças como se aquilo tudo fosse muito normal, o que ainda é mais perturbador. O ponto positivo é que por mais que o leitor fique ciente de quem foi esta criatura abissal, o que ele foi capaz de fazer com milhares de crianças e o quão sombria foi essa atmosfera onde elas se encontravam, isso serviu como pano de fundo para evidenciar o amor entre as irmãs e a jornada que precisaram seguir, mostrando que, por mais árduo e difícil que um caminho seja, em meio ao terror ainda existia o bem, em meio a escuridão ainda era possível encontrar a luz.
Porém, em muitos momentos eu senti que houve algumas divergências com relação ao comportamento das meninas, principalmente Stasha, pois ser testemunha de tantas mortes e ao mesmo tempo acreditar que Mengele era um "tio" legal não me convenceram. De um lado a autora quis mostrar que as duas eram inteligentes, mas em outros tentou forçar uma ingenuidade que não cabia alí, então fiquei agradecida pela história não se concentrar somente nos experimentos, mas também no que estava além daquilo, nos sentimentos e nos pensamentos diante daquele fardo terrível e nas poucas - e arriscadas - escolhas que elas poderiam fazer, Stasha sendo movida pela vingança, e Pearl pelo perdão.

Alguns termos que os nazistas usavam para denominar todos aqueles que eram considerados inferiores também são usados no decorrer da trama, então a história também acaba sendo bastante informativa, nem que seja a título de curiosidade.

As flores presentes na capa tem um significado impossível de se ignorar, e unindo esse pequeno detalhe a esta história tão tocante com um dos maiores exemplos de força, coragem, amor incondicional e esperança que alguém pode ter, mesmo sendo tão jovem.

Resistência mostra a jornada de duas irmãs movidas pelo amor, que estão lutando uma pela outra a fim de sobreviverem num dos eventos mais trágicos presenciados pela humanidade. O caos foi inevitável, mas ter forças para resistir a ele de forma tão marcante como Stasha e Pearl tiveram é coisa pra se ficar na memória...


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