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Na Sala dos Espelhos - Liv Strömquist

11 de maio de 2023

Título:
 Na Sala dos Espelhos
Autora: Liv Strömquist
Editora: Quadrinhos da Cia
Gênero: Não Ficção
Ano: 2023
Páginas: 168
Nota:★★★★☆
Sinopse: Por que as fotos que vemos rolar pelo feed das redes sociais podem nos levar a sentimentos de ansiedade, raiva, tristeza e frustração? Quando foi que criamos uma relação voyeurística crônica com nós mesmos? Como, afinal, enxergar a si próprio num mundo dominado pela hiperexposição? Depois dos sucessos de A origem do mundo e A rosa mais vermelha desabrocha, Liv Strömquist volta seu olhar para as imagens que brilham, sedutoras, nas telas dos nossos celulares. Do mito bíblico de Jacó à última sessão de fotos de Marilyn Monroe, da obsessão da imperatriz Sissi da Áustria com magreza e exercício físico ao roubo do busto de Nefertiti ― o rosto mais belo que já existiu ―, a artista sueca investiga o cânone que nos escraviza e tenta encontrar o que há de real atrás de filtros e selfies. Com a ajuda de reflexões de Susan Sontag, Naomi Wolf, Simone Weil, Eva Illouz e da madrasta da Branca de Neve, Na sala dos espelhos se pergunta como a inveja e o instinto competitivo alimentam o consumo compulsivo. Um livro raro, engraçado, com opinião e inteligência singulares.

Resenha: Na Sala dos Espelhos é a terceira HQ focada no universo feminista da autora sueca Liv Strömquist publicada pelo selo Quadrinhos da Cia aqui no Brasil. Nesse volume a autora vai abordar a questão da beleza como um produto a ser ofertado em meio a sociedade de consumo do capitalismo tardio, a necessidade de se vender uma padrão de beleza perfeito, e como esse tipo de conteúdo interfere na vida das reles mortais que acompanham, idolatram e almejam a aparência e o glamour de influenciadoras como Kylie Jenner e afins, fazendo com que existam as que vivem de internet criando de forma compulsiva, e as que vivem na internet consumindo esse conteúdo de forma tão compulsiva quanto.



Vamos acompanhando essa "trajetória" da beleza através de aspectos históricos, filosóficos, políticos e sociológicos e o motivo desse almejo de acordo com a própria concepção de realidade daquela pessoa, seja ele por interesse próprio, pelo interesse em se sentir aceito na sociedade, ou até mesmo pela necessidade de se conseguir ou de se manter um relacionamento.

A autora apresenta estudos e várias teorias de filósofos, sociólogos, escritores e outros, como René Girard, Zygmunt Bauman, Eva Illouz, Hartmut Rosa, Simone Weil e Chris Rojek; exemplos reais encontrados na cultura pop através de celebridades e influenciadores como Kylie Jenner, Kim Kardashian e Marylin Monroe; fatos históricos envolvendo figuras da aristocracia como a imperatriz Isabel da Áustria. Ela também mostra como o machismo, o patriarcado e até a religião estão inseridos nesse contexto mencionando eventos históricos, políticos e bíblicos e como essas questões perduram até a atualidade em tempos de redes acessíveis como Instagram, TikTok e sabe-se lá quais outras redes existem por aí. E, principalmente, como essa ilusão de perfeição e glamour interfere na vida das pessoas.
"Tomamos emprestado nosso desejo do outro, em um movimento tão fundamental, tão original, que o confundimos com a vontade de sermos nós mesmos." - Girard
- Pág. 18

"O essencial é sempre o Outro, um Outro que não importa quem seja, a encarnação de uma totalidade inexpurgável, presente em toda parte e em parte alguma, e que as pessoas insistem em querer seduzir. É o Outro como obstáculo insuperável" - Girard
- Pág. 22

"A fragilidade dos vínculos humanos é atributo proeminente, talvez definidor da vida líquido-moderna." - Bauman
- Pág. 43

"Uma série de novas indústrias ajudou a promover e legitimar a sexualização das mulheres e, mais tarde, dos homens. A sexualidade proporcionou ao capitalismo uma oportunidade fantástica de expansão, porque exigia das pessoas uma incessante encenação de si mesmas e oferecia inúmeras opções para criar um clima sexy. - Illouz
- Pág. 47

"A beleza não contém nenhum fim. A beleza sozinha não é um instrumento para outra coisa. Ela é boa em si, mas não encontramos nela nenhum bem." - Weil
- Pág. 119

"Uma coisa bela não contém nenhum bem senão ela mesma. Vamos até ela sem saber o que lhe pedir. Ela nos oferece a própria existência. Não desejamos outra coisa, possuímos isso, mas continuamos desejando. Não sabemos o quê. Queremos ver por trás da beleza, mas ela é apenas a superfície. É como um espelho que reflete nosso desejo pelo bem." - Weil
- Pág. 123
Assim como nos livros anteriores, a HQ tem ilustrações simples, com textos informativos, bem humorados, irônicos e reflexivos que conseguem transmitir a mensagem que a autora quer passar mesmo que este tenha um tom mais sério (talvez devido a complexidade do tema). O que fica em evidência é a ideia de se viver ilusões, sobre como as pessoas se escravizam e travam verdadeiras batalhas consigo mesmas em nome de um corpo e uma aparência perfeita baseada na aparência de alguém simplesmente inalcançável.

Inicialmente a sensação é que autora quer falar sobre a história da estética e mostrar todos os problemas que dizem respeito a essa busca incessante pelo corpo perfeito, pelo rosto perfeito e pela vida perfeita de influenciadoras que as pessoas encontram nas redes e almejam pra si mesmas a ponto de, em muitos casos, se tornar uma verdadeira obsessão. Isso acaba desencadeando comparações absurdas onde vai aparecer gente que se sinta inferior por não corresponder àquela imagem e tendo problemas seríssimos de autoestima, ou se sentindo pressionada a ser igual a quem acompanha. O livro inclusive lembra do caso em que várias pessoas entraram num desafio descabido de fazerem pressão com a boca num copo pra ficarem com os lábios enormes de tão inchados, porque essa imagem da boca grande e carnuda é a mais bonita, é a mais atrativa, é o que está na moda. A autora não só dá exemplos reais, como também procura na ciência explicações para esses fenômenos comportamentais em que várias pessoas começam a fazer coisas que naturalmente não fariam, se não fossem a influência de outra pessoa.



Ao final, os pontos abordados pela autora e que trazem diversas reflexões sobre essa questão da imagem são um meio de se chegar a mensagem que captei ao ler o livro, que fala da pressão social a que muitas pessoas estão submetidas, das mudanças de padrões que nem sempre são necessárias, da aceitação e autoestima que são os principais fatores submetidos a esses conteúdos, o contraste do que é mostrado nas imagens e o que fica nos bastidores, e principalmente da saúde mental fragilizada por vivermos numa era digital com informações vindas de pessoas que simplesmente definiram o que é beleza e saem por aí impondo e influenciando os outros sem ter a menor ideia das consequências que isso causa. Por mais que determinadas postagens tenham a intenção de mostrar um lado real (ou imperfeito) do que quer que seja, ela não deixa de fazer parte de uma performance consumível que continua alimentando a indústria de anúncios (engordando cada vez mais os bolsos da burguesia) e mantendo as pessoas cada vez mais dependentes de redes sociais e telas em geral.

No mais, acho que o título do livro serviu muito bem, pois ele vai se referir a necessidade que todos deveriam ter de olhar no espelho, em introspecção, pra descobrirmos quem somos na realidade, em vez de olhar e procurar no outro.

A Rosa Mais Vermelha Desabrocha - Liv Strömquist

6 de outubro de 2021

Título:
A Rosa Mais Vermelha Desabrocha - O amor nos tempos do capitalismo tardio ou por que as pessoas se apaixonam tão raramente hoje em dia
Autora: Liv Strömquist
Editora: Quadrinhos na Cia
Gênero: HQ/Não Ficção
Ano: 2021
Páginas: 176
Nota:★★★★★
Sinopse: Podemos controlar o amor? O que realmente acontece quando ele acaba? Como o amor deixou de ser considerado uma força misteriosa para se tornar algo racionalmente explicável? Por que procuramos ser mais amados do que amar?
Com muito humor e inteligência, e o título emprestado de um verso da poeta norte-americana Hilda Doolittle, A rosa mais vermelha desabrocha examina as engrenagens do amor nos tempos do capitalismo tardio. A partir de histórias como a de Sócrates, que traiu Alcibíades há mais de dois mil anos, ou a de Teseu, que abandonou a amada Ariadne de uma hora para outra na ilha de Naxos, e com a ajuda de Beyoncé, do filósofo Sören Kierkegaard, dos smurfs, da namorada alucinada de Lorde Byron, de Platão, de Jabba de Star Wars, e de outros especialistas na arte de amar, a artista sueca Liv Strömquist mais uma vez desconstrói mitos e se afirma como uma das quadrinistas mais relevantes da atualidade.

Resenha: Depois de conquistar os leitores com a HQ A Origem do Mundo, a autora sueca Liv Strömquist está de volta com A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, publicado no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras.

O livro vai abordar de uma forma bem didática, utilizando de vários fundamentos acadêmicos, a evolução do amor desde a era medieval até os dias atuais, apontando seus prós e contras, e as diversas teorias filosóficas e seus embasamentos intelectuais que lhe são aplicadas para reforçar seus pontos e argumentos.

A autora evidencia e faz comparações relacionadas a vários ícones, de Sócrates a Leonardo DiCaprio, abordando alguns de seus relacionamentos, assim como levanta temas importantes, como fatores que interferem na autoestima e na confiança, de onde surgiu e quais as consequências do narcisismo, a responsabilidade afetiva, a falta de interesse em um amor duradouro, a diferença envolvendo ter privilégios ou não entre homens e mulheres, e afins, os estudando através de estatísticas e situações corriqueiras, e com base nos conhecimentos de grandes especialistas nas área da filosofia e da sociologia, sempre usando do bom humor. E por mais que haja bastante dados e informações, a leitura não fica cansativa, muito pelo contrário, só mostra que os fatos estão aí e não podem ser contestados, mas sim discutidos para que mais e mais pessoas se informem e reflitam sobre o assunto.




Pra quem gosta de HQs que trazem temas relevantes na sociedade atual, que é capaz de promover debates e fazer com que os leitores pensem de forma mais crítica sobre relacionamentos num geral, é uma excelente e esclarecedora leitura.

A Origem do Mundo - Liv Strömquist

6 de setembro de 2018

Título: A Origem do Mundo - Uma História Cultural da Vagina ou A Vulva vs. O Patriarcado
Autora: Liv Strömquist
Editora: Quadrinhos na Cia.
Gênero: HQ/Não Ficção
Ano: 2018
Páginas: 144
Nota:★★★★★
Sinopse: Por que as sociedades alimentaram uma relação tão esquizofrênica com a vagina ao longo dos séculos? Por que a menstruação é um tema apagado de nossa cultura quando costumava ser algo sagrado para os povos ancestrais? A origem do mundo escancara interditos e desafia mitos e tabus. Um livro genial, catártico e absolutamente necessário.
Se “o pessoal é político”, como dizia o slogan da segunda onda feminista, iniciada nos anos 1960, Liv Strömquist criou um livro radical. Com humor afiado, a artista sueca expõe as mais diversas tentativas de domar, castrar e padronizar o sexo feminino ao longo da história. Dos gregos antigos a Stieg Larsson, das mulheres da Idade da Pedra a Sigmund Freud, de Jean-Paul Sartre a John Harvey Kellogg (o inventor dos sucrilhos), da fábula da bela adormecida a deusas hindus, de livros de biologia ao rapper Dogge Doggelito, A origem do mundo esquadrinha nossa cultura e vai até o epicentro da construção social do sexo. Para Liv, culpabilizar o prazer é um dos mais efetivos instrumentos de dominação — graças à culpa, a maçã é venenosa e o paraíso mantém seus portões fechados. Uma crítica hilária, libertadora e instrutiva sobre o sexo feminino.

Resenha: A Origem do Mundo, da artista sueca Liv Strömquist, traz informações super relevantes acerca do universo feminino que até hoje sofre o impacto causado pelo machismo na sociedade. O interesse fora do comum do homem pelo corpo da mulher e sua forma absurda de estudá-lo, assim como as ideias completamente descabidas que eles tiveram para tentar dominar, impor padrões e justificar comportamentos ou características femininas, são expostos -  e criticados - com um humor ácido e até de forma bastante radical. Embora a personagem criada para apresentar as questões levantadas seja irônica e até bem revoltada com tantos absurdos e atrocidades cometidas por "homens ilustríssimos" que eram considerados importantes em suas épocas, é impossível não se indignar junto com ela, pois justamente devido a esses verdadeiros embustes que meteram o bedelho onde não foram chamados, hoje o mundo gira em torno do pinto, que sempre é visto como um troféu, enquanto a vulva, que antigamente era visto como algo sagrado, passou a ser algo considerado sujo e digno de vergonha.



"A menstruação é nojenta e imunda, e por isso deve ser escondida" (absorvente sempre deve dar segurança e "frescor"). "A mulher que tem TPM é histérica, e por isso não pode conviver socialmente". "O sangue da menstruação drena a inteligência da mulher, e isso impede que elas se concentrem nos estudos". "Mulheres não deveriam trabalhar se tiverem que ser remuneradas, pois a menstruação causa oscilações no humor que interferem em seus rendimentos" (mas incrivelmente não interferem em nada pra cuidarem dos filhos e da casa em tempo integral, enquanto se atura um marido imbecil). "A cólica menstrual está diretamente ligada ao nariz, logo uma rinoplastia deveria resolver o problema com a dor". "Mulheres que só atingem orgasmo via clitóris, são frígidas". "Vaginas com protuberâncias 'estranhas' eram bruxas, e por isso deveriam ser queimadas na fogueira". "A clitoridectomia (a remoção cirúrgica do clitóris) é a cura para a depressão, dor de cabeça, histeria e 'desobediência', e medida importante e necessária a se tomar em caso de divórcio ou masturbação"! "É pecado a mulher sentir prazer". "A vagina não passa de um buraco oco a ser preenchido por um pênis". Essas são somente algumas das "sábias" afirmações despejadas na sociedade por, claro, homens, e que foram levadas a sério o bastante para impactar no comportamento humano dos dias atuais.
Nem no esgoto tais barbaridades deveriam ser despejadas... É pra matar qualquer mulher de desgosto...


O livro tem várias curiosidades e imagens históricas de várias épocas, e levanta questões que envolvem ciência e religião, mas sempre sob a perspectiva distorcida de homens, com intuito de construírem a base da sociedade às suas conveniências, ao mesmo tempo que inferiorizavam as mulheres, só por serem mulheres.
Assim, diante desta leitura rápida, cheia de ironias certeiras e bastante esclarecedora, podemos entender que o comportamento da sociedade atual não veio do nada. Esse comportamento teve uma origem criada por homens e para homens, e isso acabou fazendo parte da cultura por séculos a fio, e faz até hoje. São fatores que elevam o machismo e o patriarcado, e nunca favorecem as mulheres.


Posso dizer que só tenho que agradecer pelo feminismo estar cada vez ganhando mais forças e fazendo com que as mulheres se empoderem, se orientem mais buscando por informações de todo tipo, se aceitem como são (incluindo seus corpos), e o mais importante de tudo: lutando por igualdade de forma a impedir que homens continuem ditando todas as regras com sua "infinita sabedoria". Os tempos mudam, as pessoas evoluem, e graças a isso muita coisa mudou, mas muitos homens parecem estar presos no século IV até hoje. A Origem do Mundo é um livro, no mínimo, necessário.